Mas não havia motivo para reclamar. Naquele dia, apenas dois clientes estavam agendados, e depois Thais poderia voltar para casa e se jogar na cama, fingindo que nunca havia saído. Ainda lhe parecia surreal a ideia de que o homem dos comerciais de hambúrguer realmente fosse se consultar com ela. Em sua cabeça, pessoas com tanto dinheiro tinham profissionais à disposição vinte e quatro horas por dia. Provavelmente trancados em algum quartinho escondido nas masmorras de suas mansões gigantescas.
Thais levantou-se da cama arrastando os pés, como se cada passo fosse um castigo. O café forte ajudou a clarear a mente, mas não apagou a sensação de ressaca que latejava em sua cabeça. Enquanto se vestia, não conseguia parar de pensar no nome que havia surgido na agenda do dia.
Os longos cabelos, tingidos em um vermelho intenso, foram jogados para trás e presos em um rabo de cavalo alto. A amarração firme deixava a cabeleira cair em cascata pelas costas, destacando ainda mais o contraste da cor vibrante contra sua postura. Tinha escolhido uma roupa mais fresca, pois o sol já estava pontando no céu e abafando o ambiente ao ponto de lhe causar desconforto, então optou por um vestido azul-marinho de tecido leve que se moldava bem a sua silhueta.
Passou um batom clarinho, apenas para disfarçar o semblante cansado e calçou as sandálias mais confortáveis que achou no fundo do armário. O vestido azul-marinho balançava suavemente enquanto ela caminhava pelo apartamento, recolhendo a bolsa e as chaves. O sol já se infiltrava pelas frestas da janela, aquecendo o ambiente e reforçando a sensação de desconforto que a ressaca lhe trazia.
Ela precisava dirigir por pelo menos dez minutos, mas sua cabeça parecia se recusar a colaborar. O simples pensamento de encarar o trânsito já era um tormento. Para piorar, o aplicativo de transporte no celular também conspirava contra ela, pois nenhum motorista estava por perto e cada minuto de espera soava como uma eternidade até que alguém aceitasse a corrida.
O ônibus seria sua próxima alternativa se ele não demorasse também uma eternidade para passar e, além de tudo, viesse lotado. Então ela suspirou, decidindo dirigir mesmo.
Ao menos naquele dia não havia trânsito. A cidade parecia funcionar em perfeita harmonia, como se o clima colaborasse para isso. O céu limpo, sem sinal de chuva, deixava os motoristas mais atentos e ninguém parecia ter esquecido como se dirigia.
Aparentemente, tudo estava ótimo até o momento em que Thais estacionou diante do prédio do consultório. Foi então que a tranquilidade desandou, pois o motorista atrás dela não conteve a irritação, deu um tranco no carro e, batendo no volante, gritou palavrões em sua direção.
― Qual é cara! ― ela gritou de volta já saindo do seu automóvel. ― Não me viu estacionar?
Mal dava para ver o rosto do motorista, mas ele gesticulava furiosamente atrás do volante.
― Você parou de repente! Tá achando que a rua é sua?
Thais ergueu as mãos, tentando conter a própria raiva.
― Eu sinalizei, você que não prestou atenção.
Então o motorista desceu acompanhado por um rapaz que estava no banco do passageiro. Diferente do homem irritado, o jovem correu até o carro de Thais em completo desespero, examinando cada detalhe como se buscasse um arranhão invisível.
― Me desculpe, pelo amor de Deus. Ele não fez por mal ― disse com a voz trêmula.
Os olhos castanhos do rapaz transmitiam uma aflição genuína, e Thais chegou a sentir pena. O calor sufocante fazia o suor escorrer por sua testa, ainda mais porque vestia um terno preto, pesado, como se tivesse acabado de sair de um velório. A cena lhe arrancou um leve torcer de nariz.
Em seguida, ela desviou o olhar para o motorista, que bufava impaciente enquanto falava ao telefone, ignorando completamente a situação.
― Ai, sem educação! ― disparou Thais, erguendo a voz. ― Você é quem deveria se desculpar.
Ele finalmente encarou Thais e, por um breve instante, a fúria pareceu se dissipar. A mulher tinha cerca de 1,68 de altura, os cabelos vermelhos intensos presos em um rabo de cavalo realçavam sua postura firme. O corpo bem definido denunciava uma frequentadora assídua de academia. Já seus olhos eram de um caramelo brilhante que refletia a luz do sol, contrastando com a pele em tom marrom-claro, suave e bonito.
Ela teve o vislumbre do homem que a havia atingido. Já conhecia aquele rosto de revistas, jornais e das fofocas que corriam soltas pelas redes sociais. Caio Leone tinha uma expressão difícil de ignorar com o olhar que carregava fragmentos rígidos que se espalhavam pelos olhos escuros, profundos como duas pedras de ônix. O maxilar largo, marcado pela tensão, dava-lhe um ar autoritário, quase intimidador.
Por um instante, Thais percebeu que não estava diante de um qualquer. A presença dele parecia ocupar todo o espaço, como se a rua tivesse se curvado para dar lugar à figura que agora a encarava. E, mesmo sem querer admitir, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Os cabelos dourados caíam em cachos bem definidos sobre os olhos, balançando suavemente com a brisa. O terno cinza de grife, impecavelmente alinhado, parecia moldar-se ao corpo, realçando os músculos firmes sob o tecido. A combinação entre a elegância da roupa e a força física criava uma impressão de que de cada detalhe dele tinha sido criado e pensado para impressionar.
Thais piscou algumas vezes, tentando voltar à realidade, e fixou o olhar no rapaz à sua frente, ainda tomado pelo desespero.
― Foi você quem falou com a minha recepcionista ontem? ― perguntou, firme.
O jovem estendeu a mão, forçando um sorriso nervoso.
― Isso mesmo. Deve ser a dou... ― interrompeu-se ao lançar um olhar rápido e aflito para o chefe, pigarreando em seguida. ― Eu sou Jonathan Flores. Prazer.
― Thais Almeida. O prazer é todo meu ― respondeu, apertando-lhe a mão. Em seguida, inclinou a cabeça discretamente na direção do homem que continuava parado, imóvel, apenas a encarando. ― Por conhecer você... e não aquele lá.
Caio permanecia estático, como se tivesse esquecido funções básicas como falar, se mover, até mesmo respirar. O silêncio dele pesava no ar, tornando o momento ainda mais estranho e carregado de tensão.
― Acredito que ele seja o meu paciente e ainda não sabe disso ― sussurrou a moça, mas o movimento que ela fez, acabou despertando o homem bobo a encarando e ele franziu a testa.
― Como assim paciente?
Jonathan se encolheu ao lado, como se quisesse desaparecer.
― Senhor... ― tentou intervir, mas Caio ergueu a mão, exigindo explicações diretamente de Thais. Ela manteve a postura, mesmo sentindo o peso daquele olhar intenso sobre si.
― Foi o que seu secretário disse ontem. Que você precisava de ajuda urgente, pois não estava bem.
Por um instante, o ar pareceu denso demais. Caio respirou fundo, como se lutasse contra um demônio interior.
― Ele disse, é... ― Fuzilou o rapaz com os olhos antes de voltar a olhar a mulher. ― E é você quem irá cuidar de mim?
Por um instante, o silêncio voltou a dominar o ambiente. Jonathan parecia prender a respiração, aguardando a reação do chefe. Caio, por sua vez, inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando cada detalhe dela, assim como o tom firme, a postura calma e a ausência de medo.
Finalmente, ele deu um meio sorriso, quase imperceptível.
― Interessante... nunca pensei que precisaria disso.
Jonathan soltou o ar em alívio, mas Thais percebeu que aquele sorriso não era de empolgação por estar indo se consultar com uma psicóloga. Na verdade, era algo bem travesso.