― Não queria admitir isso, mas o desgraçado é um gostoso ― confessou, arrancando gargalhadas de Natane.
― Que ódio ter ficado presa no trânsito ― reclamou a secretária, apoiando a xícara na mesa. ― Não vejo a hora de morar aqui perto e poder vir andando todo dia.
Thais sorriu, observando a amiga com carinho.
― Você fala isso agora, mas quando estiver morando aqui vai reclamar do barulho da rua e da falta de vaga pra estacionar...
Natane revirou os olhos, fingindo impaciência.
― Ah, mas pelo menos não perco a chance de ver um "gostoso" desses entrando no consultório.
Thais suspirou, tentando manter a seriedade, mas não conseguiu esconder o sorriso.
― Pois é... só que, diferente do que você imagina, ele não veio aqui pra desfilar charme. Veio porque está quebrado por dentro e muito.
O comentário deixou Natane em silêncio por alguns segundos. A leveza da conversa se misturou com a percepção de que, por trás da fama e da aparência impecável, Caio Leone carregava algo muito mais pesado.
― Estranho ele não ter ido para um retiro nos alpes suíços, né? Procurou uma psicóloga na Vergueiro pra se tratar sendo que a família dele toda é mais rica do que Deus.
― Também achei bem esquisito..., mas não importa, acho que ele nem volta mais. Parece que toquei no calcanhar de Aquiles do bonitão. ― Thais mordeu o lábio, lembrando-se que sua secretária estava sempre ativa nas fofocas. ― Aí, o que aconteceu com o noivado dele?
Natane se agitou. Ficou rapidamente em pé para se inclinar por inteira sobre o balcão, podendo cochichar para a chefe o que viria a seguir.
― A garota traiu ele com o melhor amigo e os dois estão desfilando por aí como se o Caio nunca tivesse existido na vida deles.
― Nossa... isso explica muita coisa. ― Thais arregalou levemente os olhos, surpresa. ― Não é só raiva, é humilhação.
Natane assentiu, mordendo o lábio como quem saboreava a revelação.
― E você nem viu nada. O bonitão virou piada em todos os sites de fofocas porque levou chifre da modelo. Fizeram até meme.
― Tadinho...
― Xi, menina. Relaxa. Seu gostoso estava comendo o Brasil inteiro pra se vingar depois ― Natane riu da forma que falou e voltou a se sentar em sua cadeira para digitar algumas coisas. Tinha visto alguém vindo do corredor, então logo voltou ao trabalho.
― Bom dia, meninas! ― O rapaz tinha uma bag de entregas nas costas. ― Quem é Thais Almeida?
Natane, rápida como sempre, apontou discretamente para a chefe.
― Essa gostosa aí na sua frente.
― Entrega para a senhora. ― Ele segurava uma quentinha nas mãos e realmente tinha o nome da mulher escrito no recibo preso com um grampo na sacola.
Thais franziu a testa, intrigada. Não lembrava de ter feito nenhum pedido.
― Ué, ainda não pedi comida.
Natane, curiosa, inclinou-se sobre a mesa.
― Ih, doutora... isso tem cara de presente. Será que é do bonitão?
Thais suspirou, sem saber se ria ou se se preocupava.
O rapaz apenas deixou a entrega com as garotas e saiu sem dizer mais nada. Era fato que alguém tinha feito o pedido pelo aplicativo e ele nada saberia dizer sobre o cliente por trás daquela encomenda. Thais pegou a comida desembrulhando-a para saber o que poderia ser e se deparou com o prato do dia.
Um picadinho de carne com arroz, feijão e batata assada pronto para ser degustado. Natane deu um meio sorriso ao notar o que tinha ali.
― Certeza que é do bonitão. Todos os seus clientes sabem que você é vegana ― ironizou a garota já pegando o almoço que claramente ficaria para ela.
― Bom apetite, vou descer e te comprar uma Coca-Cola.
― Melhor chefe do mundo! ― comemorou Natane já com a boca cheia, sem se importar com a falta de elegância.
Thais balançou a cabeça, divertida, e saiu pelo corredor.
Por sorte, a batida não passou de um contratempo que nem arranhou a pintura. Por isso, não fazia o menor sentido o assistente do homem ter enfiado notas de cem na mão de Thais.
Quando contou o dinheiro, já depois que os dois partiram às pressas, deparou-se com mil e trezentos reais. Precisava devolver aquilo o quanto antes. O problema era que não fazia ideia de onde o homem morava, mas julgava que seria, provavelmente, em alguma área nobre da cidade. Teria que recorrer à sua secretária, sempre bem-informada, para descobrir alguma pista. Se Caio e Jonathan não voltassem, aquele bolo de dinheiro não poderia simplesmente ficar com ela.
― Deviam era ter feito um pix, porra ― resmungou.
― O que vai pedir hoje, Tata? ― a voz do atendente a arrancou de seus pensamentos.
Só então ela percebeu que já estava diante do balcão da padaria ao lado do consultório. O rapaz, que a conhecia de outros carnavais, aguardava paciente, acostumado com o jeito distraído dela. Sabia que, vez ou outra, precisava esperar a psicóloga voltar da sua "terra de pensamentos" para finalmente escolher o pedido do dia.
― O que tem pra mim hoje? ― questionou ela finalmente. Thais abriu a geladeira ao lado do balcão para pegar a garrafa de 600ml de refrigerante.
― Vamos ver o que nosso especialista fez hoje ― ele se abaixou para analisar os pães recheados disponíveis. ― Tem pão integral com abobrinha, o clássico de berinjela e... olha só, saiu fresquinho o de cogumelos.
Ela apoiou o refrigerante no balcão e arqueou uma sobrancelha.
― Você já sabe que vou acabar escolhendo o...
― Clássico de berinjela ― respondeu ele, divertido. ― Mas eu sempre faço suspense, vai que um dia você resolve me surpreender.
Thais riu, balançando a cabeça.
― Surpresas não são muito a minha praia.
O atendente embalou o pão e entregou com naturalidade, como quem já fazia parte da rotina dela.
― E aí, temos novidades na fábrica de loucos? Vi o carrão parado lá fora mais cedo.
― Na verdade foi um acidente ― não quis entrar em detalhes, apenas suspirou. ― Um idiota bateu no meu carro que estava parado, acredita Juca?
O rapaz arqueou a sobrancelha e o piercing em uma delas se moveu junto.
― Deu prejuízo?
Thais soltou um suspiro cansado, apoiando o refrigerante no balcão.
― Pior que não... e ainda me enfiaram um bolo de dinheiro na mão, como se fosse resolver a loucura.
O atendente riu baixo, balançando a cabeça.
― Dinheiro vivo? ― Thais afirmou. ― Nossa, esse povo não conhece o Pix?
― Exatamente o que eu pensei ― respondeu ela, com ironia. ― Bom, quanto deu aí?
― A coca e o pão. Oito reais.
― Tem troco pra cem? ― Perguntou a mulher erguendo a nota com um sorrisinho sem graça no rosto.