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Capítulo 3 Três

Ele acionou o seguro, garantindo que ambos os carros seriam avaliados para possíveis reparos, e deixou os trâmites nas mãos da seguradora. Enquanto isso, os três seguiram juntos para o consultório de Thais.

Jonathan caminhava alguns passos à frente, ainda nervoso, como se quisesse se antecipar a qualquer problema. Thais vinha logo atrás, tentando manter a compostura apesar da ressaca e da tensão que sentia. Caio, por sua vez, avançava em silêncio, observando-a minuciosamente.

Parecia que homem tinha sido pego pelo encanto de uma sereia. Havia algo no jeito dela que parecia quebrar a couraça de arrogância que ele costumava exibir em público. A mulher era irônica na medida certa e racional também. Ligeiramente calma, era só não pisar em seu calo. Percebeu essas coisas com poucas palavras ditas por ela e isso já o deixou intrigado.

Outro fato interessante era que ela não tinha dado em cima dele, pois já era de costume comum acontecer esse tipo de coisa. Jonathan, ao lado, continuava nervoso, tentando manter o ritmo da caminhada, mas era evidente que o chefe não estava prestando atenção em nada além da psicóloga. Para Caio, aquilo era uma novidade desconcertante. Estava acostumado a ser alvo de olhares interessados, de insinuações e tentativas de aproximação. Mas Thais não demonstrava nada disso. Não havia deslumbre, nem bajulação. Apenas profissionalismo e uma postura firme que o deixava ainda mais curioso.

Essa ausência de interesse imediato, paradoxalmente, foi o que mais o prendeu. Pela primeira vez em muito tempo, Caio sentia que não era visto como o empresário famoso dos comerciais, mas como um homem comum que tinha problemas. E essa percepção, inesperada, o fez hesitar diante da porta do consultório, como se atravessá-la fosse admitir que precisava de ajuda.

Thais, percebendo o que acontecia naquele instante, girou a chave e abriu caminho.

― Entre ― disse, com naturalidade.

Caio respirou fundo, arrumando o terno e finalmente deu o primeiro passo para dentro, como quem atravessa uma fronteira invisível. A mulher apontou para as poltronas deixando-o escolher onde seria o melhor lugar para se acomodar e avisou ao subordinado que deveria ficar ao lado de fora.

― Uma água? Café?

Caio recostou-se no sofá com uma naturalidade quase provocativa, cruzando uma perna sobre a outra.

― Vodka ― disse, sem hesitar, como se estivesse em um bar e não em um consultório. Thais arqueou uma sobrancelha, mantendo o tom firme.

― Aqui só servimos água ou café. Se quiser algo mais forte, vai ter que esperar até o fim da sessão.

― Então água. ― Soltou um riso cínico. ― Já que você está sendo um doce.

Thais ignorou o comentário idiota, serviu o copo e o colocou diante dele, observando-o com calma.

― Vamos começar simples. O que o trouxe até aqui?

Caio segurou o copo, girando-o entre os dedos, como se brincasse com o objeto. Por um instante, parecia que responder seria mais difícil do que qualquer negociação milionária.

― Segundo o meu secretário, estou tendo ataques de raiva e isso vai me levar ao infarto.

― E você acredita nisso? ― perguntou, a voz dela era calma, mas incisiva. Ele ergueu os olhos para analisar a mulher, como se a pergunta fosse um desafio.

― Não sei. Só sei que ultimamente qualquer coisa me tira do sério. Pessoas, negócios, até o silêncio. Parece que tudo me provoca.

Thais se inclinou levemente para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

― Raiva é uma resposta natural. O problema é quando ela começa a controlar você, em vez de você controlar ela.

Caio soltou um riso breve, sem humor.

― Acha que eu perdi o controle?

― Não estou aqui para te encher de achismos, senhor Leone. Estou aqui para te ajudar a ver o que tem por trás dessa raiva ― respondeu, firme, sem desviar os olhos.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas diferente do anterior. Não era mais o silêncio da arrogância, e sim o de alguém que começava a perceber que havia muito mais em jogo do que gostaria de admitir.

― Me fale sobre sua vida ― seguiu a psicóloga. ― Como foi sua infância?

― Eu era rico, tinha tudo o que queria e meus pais nunca estavam em casa. ― Deu de ombros parecendo contar uma história simples e qualquer.

Thais inclinou levemente a cabeça, analisando não apenas as palavras, mas o vazio que elas carregavam.

― Ter tudo não significa ter o que realmente importa. O que você sentia naquela época?

― Sentia... nada. ― Caio hesitou. O olhar, antes firme e desafiador, vacilou por um instante. ― Acho que aprendi cedo a não esperar nada de ninguém.

Thais respirou fundo, anotou em seu caderninho a frase "infância solitária" enquanto ele falava de forma seca como eram as coisas naquela época. A mulher percebeu que aquele era o primeiro fio solto da armadura de Caio Leone. Se puxasse com cuidado, talvez conseguisse revelar o que realmente o atormentava.

― E a adolescência?

― Transei pra caralho, bebi igual um desgraçado, dei muito trabalho e depois assumi os negócios da família. Na verdade, pensando agora, acredito que meu problema é a falta de uma boa foda. ― Arqueou as sobrancelhas e recostou o corpo no sofá com se a convidasse para algo. Thais apenas suspirou.

― Segundo os jornais, esse definitivamente não é o seu problema. ― Cutucou a mulher, saindo por um segundo do seu profissional. Em seguida ela mesma se corrigiu e suspirou. ― O senhor não estava noivo?

Caio ajeitou a gravata com um gesto brusco, levantando-se de supetão. A testa franzida denunciava a irritação que a pergunta havia despertado.

― Acabou essa sessão ― disparou com a voz firme e quase cortante.

Thais percebeu que havia tocado em uma ferida que ele não estava disposto a expor. Ela manteve a calma, mesmo diante da explosão repentina.

― O senhor é livre para ir quando quiser, mas saiba que fugir das perguntas não vai afastar os problemas.

Caio parou por um instante, já de pé, encarando-a com os olhos escuros que pareciam arder de raiva e, ao mesmo tempo, de algo mais profundo.

― Falei que a sessão acabou.

Sua voz saiu de uma forma tão dura e tomada por raiva que fez o corpo inteiro da psicóloga estremecer. Antes que pudesse dizer mais algo, o homem já havia saído pela porta rumo a rua. Jonathan entrou rapidamente na sala para entregar um punhado notas de cem reais na mão da mulher e correu para fora atrás do chefe sem lhe dar tempo de corrigir o valor que lhe foi pago.

Thais ainda tentou correr para fora do consultório em busca dos dois malucos, mas quando chegou ao lado de fora, eles já tinham entrado no carro e partido em disparada para longe.

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