Enquanto Thais tentava seguir sua rotina da forma mais natural possível, sem imaginar maiores complicações, os olhos de alguém já estavam cravados em cada um de seus passos. Jonathan percebeu o instante em que Caio decretou que aquela seria a mulher da sua vida. Para o chefe, o mundo havia parado de respirar, mas para o assistente, o caos começava a se instalar.
Assim que deixaram o consultório, Jonathan abriu o notebook e começou a mexer seus pauzinhos. Em poucas horas, tinha em mãos todos os dados de Thais. Sua trajetória desde o nascimento, vinte e oito anos antes, até os hábitos mais recentes que poderiam interessar ao chefe.
― Mandou comida para ela? ― perguntou ao entrar no escritório. Caio fumava um charuto e sorriu vitorioso ao ouvir a pergunta.
― Imagino que ela tenha achado legal da minha parte.
Jonathan suspirou, balançando a cabeça.
― Você não poderia estar mais errado. Quem comeu foi a recepcionista. Aparentemente, a doutora não consome carne nem derivados de animais.
Caio o encarou, perplexo.
― Esse tipo de gente realmente existe?
― Pois é... e tenho uma notícia ainda mais trágica ― retrucou Jonathan, colocando o notebook sobre a mesa. Caio se inclinou para ler as informações.
― Ela detesta festas, gosta de ler, passa os sábados no Ibirapuera e, se estiver chovendo, vai a um lugar chamado Café no Jardim.
― Onde fica isso? ― perguntou Caio, intrigado.
― Jardim São Paulo. Uns vinte minutos daqui. Também descobri que as amigas vivem tentando sair com ela, mas a doutora é pulso firme e sede em poucos momentos. Ontem mesmo teve a festa de despedida de solteira de uma das suas colegas de faculdade e por isso Thais foi beber com as meninas. O que indica que o próximo evento em que ela aparecerá será o do casamento da garota que acontece neste sábado.
Caio permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada detalhe que Jonathan revelava. O charuto queimava lentamente entre seus dedos, mas o olhar estava fixo Era como se já estivesse traçando um plano.
Jonathan cruzou os braços, desconfortável.
― Quero estar nesse evento.
― Não acho que seja uma boa ideia aparecer lá. Vai chamar atenção demais, e não de um jeito positivo.
Caio soltou uma risada curta, carregada de ironia.
― Atenção é exatamente o que eu quero.
― Chefe, não é assim que funciona. Ela não é uma das doidas que você come quando quer. Não vai se impressionar com as coisas luxuosas que o senhor tem e vai ficar muito irritada. Pelo histórico da mulher, ela é bem estressada.
Caio se inclinou na poltrona, encarando o assistente com um brilho desafiador nos olhos.
― Eu sei e vou descobrir o que a impressiona.
Jonathan suspirou, já prevendo o caos que viria.
― Pelo menos agora sabemos onde ela estará. O casamento é no sábado, às oito da noite, em um buffet nos Jardins.
Caio apagou o charuto no cinzeiro e sorriu, como quem acabava de encontrar uma brecha.
― Ótimo. Então é lá que eu vou. Descobriu se ela gosta de algum tipo de flor? Não! Melhor! Que tipo de livros ela gosta? Podemos procurar uma relíquia.
― Romances com monstros.
Caio fez uma cara estranha quando o assistente disse aquela frase.
― Você está me dizendo que essa mulher passa os sábados lendo sobre criaturas bizarras em vez de aproveitar a vida?
Jonathan manteve a calma, já acostumado com o tom debochado do chefe.
― É exatamente isso. Pelo que pesquisei, ela gosta de histórias densas, com personagens complexos e criaturas que simbolizam conflitos internos. Nada de contos de fadas ou romances açucarados. O pessoal nas redes sociais chama isso de monster romance.
― Por que eu só me interesso por mulher doida?
Jonathan suspirou, já prevendo a dor de cabeça que viria.
― Só não vá aparecer no casamento com um livro de centauros debaixo do braço.
― Não, claro que não. Mas vou encontrar algo interessante ― retrucou Caio, levantando-se e ajeitando a gravata. ― Marque mais consultas com a psicóloga e faça um relatório completo dela para mim. Tenho uma reunião agora, mas vou estudar essa mulher até que todos os mínimos detalhes dela estejam cravados na minha cabeça.
Jonathan anotou mentalmente o pedido, já sabendo que teria trabalho pela frente. Em seguida fechou o notebook devagar.
― Entendido, chefe. Mas saiba que quanto mais o senhor cavar, mais difícil vai ser lidar com ela.
Caio deu aquele sorriso perigoso que sempre anunciava confusão. Jonathan suspirou, já prevendo noites mal dormidas e horas de pesquisa. Enquanto seu chefe se dirigia para fora da casa rumo a sua reunião. O assistente ficou sozinho no escritório, encarando a parede. Sabia que, a partir daquele momento, Thais Almeida não era apenas mais um nome em uma lista, pois ela havia se tornado o centro de uma obsessão que poderia colocar sua própria vida em risco.
Na manhã seguinte, Jonathan ligou para o consultório da doutora Thais Almeida para agendar algumas sessões em nome do chefe. Foi então que recebeu a informação de que a psicóloga estava desesperada para devolver o dinheiro entregue no dia anterior.
Aparentemente, Jonathan havia pago mais do que o esperado. Mas, sem hesitar, ele corrigiu a secretária de Thais, avisando-lhe que não havia engano algum. Aquela quantia era exatamente o valor que a doutora receberia sempre que atendesse o senhor Leone.
Natane tentou argumentar que sua chefe jamais aceitaria aquele valor exagerado. Jonathan, por sua vez, rebateu com a mesma convicção dizendo que o senhor Leone jamais aceitaria pagar menos e muito menos receber qualquer reembolso.
Agora os dois estavam em um grande impasse e no fim, foi agendado uma sessão semanal, estabelecendo uma rotina que, para Thais, parecia apenas mais um compromisso profissional. O que ela ainda não sabia era que, por trás daquela insistência, Caio estava criando uma obsessão, planejando cada passo para se aproximar dela.
Jonathan desligou o telefone com um suspiro. Sabia que estava ajudando a construir um jogo perigoso, mas não tinha escolha, pois o chefe já havia decidido e quando Caio decidia, não havia volta.
Ele nem descansou. Aparentemente os problemas dele tinham amenizado ligeiramente na hora que colocou seus olhos na mulher, mas quando se afastaram tudo voltou à tona de novo e para piorar, agora tinha algo a mais para deixá-lo inquieto.
A voz dela. O rosto dela. O perfume e a forma de andar... tudo estava tirando o sono do homem e fazendo-o revirar na cama. Sentou-se na cama quando já não estava suportando e soltou um bufar de raiva por simplesmente estar frustrado.
Se inclinou na cama apenas para pegar o telefone na mesinha de cabeceira. Desbloqueou a tela e já procurou o número do seu braço direito ligando sem nem perceber a hora.
― Senhor ― o homem atendeu no quarto toque com a voz sonolenta do outro lado. ― Precisa do que?
― Onde ela mora?
― Vila Madalena.
― Casa ou apartamento? Quero o endereço e saber quais imóveis estão à venda nas proximidades. ― Disparou o chefe. Jonathan esfregou os olhos, ainda sonolento, mas a voz firme do chefe não deixava espaço para nada.
― Senhor ― bocejou. ― Está tarde. Você precisa descansar. Seja racional.
Caio bufou, impaciente, como se a própria palavra "racional" fosse uma provocação.
― Faça o que estou mandando.
Jonathan suspirou, já prevendo a dor de cabeça que viria.
― O senhor está cruzando uma linha perigosa.
― Jonathan! ― Gritou. Do outro lado da linha, o assistente fechou os olhos por um instante, tentando conter o cansaço e a frustração.
― Vou providenciar imediatamente ― respondeu, resignado.
Do outro lado da linha, Caio respirava fundo, como se finalmente tivesse encontrado uma forma de aliviar a inquietação que o consumia.
O assistente largou o telefone sobre a cama, levantou-se às pressas para pegar seu notebook e iniciar o trabalho. Os olhos ardiam, mas não havia escolha. Precisava levantar o endereço de Thais, mapear os imóveis próximos e preparar um relatório detalhado antes que o chefe perdesse ainda mais o controle.
O que parecia que iria acontecer a qualquer momento.