Ela ficou me encarando por mais alguns minutos e não disse palavra alguma. Imaginei que estivesse aguardando por alguma pista do que eu iria fazer naquela noite, mas não dei. Por mais que fosse comum eu sair de casa e passar vários dias fora sem dizer onde ou porque, era evidente que isso a incomodava um pouco. Entretanto, minha mãe não externava seus receios e ressentimentos porque sabia que fazia parte do meu papel na máfia.
- Tome cuidado.
- Pode deixar.
- Você está bonito.
- Obrigado.
- No final de semana que vem a Manu vem com as crianças e eu preciso que você esteja aqui.
- Mãe...
- Sei que você dará um jeito. - Ela afagou o meu rosto com carinho.
- Preciso ir agora. - Curvei-me e dei um beijo na bochecha dela antes de seguir pelo corredor.
Ouvi um longo suspiro antes que eu desaparecesse de vista.
Sabia que ela tinha medo de que algo pudesse acontecer comigo. Diferente dos meus outros irmãos, eu estava na linha de fogo diariamente, mas se me perguntassem se eu queria outro papel na máfia diria que não. A adrenalina de ser o próprio anjo vingador era inigualável.
Peguei o meu carro na garagem e dirigi até o prédio da empresa de tecnologia que o meu tio mantinha por anos. Apesar dos negócios da máfia, também havia muitas operações lícitas que serviam de boa justificativa para aquele arranha-céu em Roma.
Meu carro passou sem dificuldades pelas cancelas, sendo reconhecido pelos sensores e eu segui até o estacionamento.
Havia combinado de me encontrar com o Ettore no heliporto e esperava que o meu primo estivesse aguardando por mim no último andar do prédio. Chequei o horário no meu relógio de pulso enquanto subia pelo elevador. Segundo as informações que o meu primo tinha me dado sobre a tal ilha vermelha, não tínhamos muito tempo para chegar ao lugar.
Aos olhos do mundo, era um clube adulto com strip-tease, massagem e tudo que pudesse saciar o desejo de homens e mulheres. Porém, olhando um pouco mais para dentro, poderia ver um antro de prostituição internacional.
Estávamos indo para a Grécia e precisávamos de cuidado redobrado ao agirmos em território estrangeiro. Além da situação já delicada com a máfia local, não mandávamos na polícia nem tínhamos a mesma quantidade de aliados no governo.
Os recursos eram limitados, mas mesmo assim eu não me intimidava. Tinha uma missão para cumprir e a levaria até o fim. Iria descobrir quem eram os responsáveis por aquela organização, os mataria e deixaria um belo recado para quem mais se aventurasse a fazer negócios em território italiano sem a nossa autorização.
O elevador se abriu e eu segui pelo caminho até as luzes que indicavam o heliporto. Ettore estava de pé ao lado da aeronave, usando roupa similar à minha e carregando uma maleta. Ao lado dele, eu vi o meu tio e outro primo.
- Vai participar da ação hoje? - provoquei.
- Garantir que você não seja morto. - Ele entrou na onda.
- Eu e meu pai estaremos com a equipe no laboratório - avisou Nicole. - Invadimos o sistema de segurança deles mais cedo e são pelo menos uns cinquenta homens espalhados pela ilha.
- Precisam ter cuidado, garotos - disse o Mateo como se ainda fôssemos moleques. - Três seguranças vão no helicóptero com vocês, mas nem todos poderão entrar. A ilha é destinada à clientes muito ricos então a segurança e o sigilo são bem maiores do que os que vocês estão acostumados.
- Não se preocupe, pai. - Ettore deu de ombros.
- Estaremos aqui no fim da missão.
Eu assenti e segui para o interior do helicóptero. Por mais habilidoso que fosse, sabia muito bem ao que o meu tio estava se referindo. Se tomasse uma atitude errada naquele local poderia colocar em risco a missão, a minha vida e a do meu primo. Não estávamos lidando com simples traficantes que ousavam nos desafiar, mas uma organização que atuava no mundo inteiro e fazia lucro roubando e negociando pessoas.
Ao mesmo tempo que acabar com eles fortaleceria os Bellucci, tomar atitude errada poderia prejudicar a minha família e nos colocar em um conflito muito delicado.
Quando o helicóptero levantou voo, Ettore entregou para mim as escutas e uma pequena câmera para que eu pudesse colocar disfarçada na minha gravata.
- Seremos nós mesmos. Seria difícil passar pela segurança da entrada sem que fossemos reconhecidos. Sem elemento surpresa dessa vez.
- Posso lidar com isso.
- Sem armas também. Vão tomar as nossas quando entrarmos. Então não mate ninguém sem que tenha certeza de que é o líder que viemos procurar.
Ouvia as instruções do Ettore enquanto refletia a respeito. Já havia entrado em outros locais desarmado antes e só contara com o cadarço do meu sapato e a força dos meus punhos, mas meu primo estava certo. Precisaríamos de um plano mais elaborado para sairmos dali ilesos.
- Vamos nos misturar, parecer realmente interessados em estar ali.
Um bordel com mulheres bonitas do mundo inteiro não seria assim um desafio tão grande.
Capítulo oito
Rhea e eu estávamos em um cômodo pequeno, sem contato com o mundo externo e com apenas uma minúscula janela trancada. Não fazia ideia de quanto tempo tínhamos passado ali, mas o meu estômago roncava, sinalizando que já tinha um período longo desde a minha última refeição.
Minha melhor amiga estava abatida, nitidamente com medo e provavelmente faminta também. Queria pedir desculpas por tê-la metido naquela confusão, mas não sabia o que dizer. Por mais que houvesse suspeitado que meu pai tinha se envolvido com algo errado, jamais poderia prever que as consequências seriam aquelas, muito menos que a arrastaria para aquela confusão.
Era culpa do meu pai estarmos ali, mas Rhea era inocente e eu não podia deixar que algo acontecesse com ela.
- Precisamos escapar daqui. - Segurei o seu pulso e fiz com que se virasse para mim.
Rhea inclinou a cabeça para reparar mais em mim e sussurrou com um tom de voz abatido e tristonho:
- Como?
- Eu não sei. - Engoli em seco. Realmente não tinha a menor ideia ou qualquer plano simples para que pudéssemos voltar para casa, mas ainda achava que precisávamos tentar ou morreríamos ali.
- Se não tomarmos cuidado eles vão acabar nos matando - Rhea foi cautelosa.
- Ouviu o que querem fazer conosco? - lembrei-a do que tínhamos escutado da conversa dos nossos sequestradores.
- Sim...
- Vão nos vender para alguém que vai...
- Melhor não pensar nisso.
Até tentei evitar as imagens assombrosas que tomavam a minha mente. Crescendo em uma ilha com menos de mil habitantes, conhecíamos tudo e todos, nos ajudávamos e nos casávamos com um vizinho. Era para a minha vida ser assim, simples, pacata e sem grandes emoções. Levando um dia de cada vez enquanto esperávamos por condições melhores.
Gostava da companhia da minha mãe, fazíamos o que podíamos juntas e eu tinha vontade de chorar só de pensar no que os bandidos poderiam fazer com ela...
Será que o meu pai ao menos viria atrás de nós, consertaria aquela confusão e permitiria que Rhea e eu voltássemos para casa?
E o seu Pedro... Fiquei pensando em como o velho pai da minha melhor amiga reagiria quando voltasse para casa e não a encontrasse lá.
Por mais que eu soubesse que não era culpa minha, não conseguia parar de me julgar por tê-la arrastado sem querer comigo para aquela confusão.
- Ah, Rhea. - Tombei no seu ombro e comecei a chorar.
Queria poder fazer algo, mas era até difícil de pensar com a barriga doendo de fome.
Quando a porta foi destrancada, eu me remexi e assumi uma postura um pouco mais defensiva, queria defender a Rhea de quem quer que fosse, por mais que não fosse capaz de proteger nem a mim mesma.
Pisquei os olhos algumas vezes até me acostumar com a diferença da luminosidade e aos poucos fui enxergando a silhueta de um sujeito truculento que se revelou um dos homens que havia me arrancado de casa.
- Nos deixe em paz! - gritei com ele.
- Quer tomar outro soco, garota? - rosnou, fazendo com que eu engolisse em seco.
- Fica quieta - Rhea murmurou para mim.
- Muito bem. Ouve a sua amiga e fica na sua.
Assenti com um movimento de cabeça. Segurei as lágrimas de desespero com toda força que cabia dentro de mim.
- O chefe mandou trazer comida. - Ele entregou uma bandeja com um pão velho e duas canecas com chá frio.
Estava tão esfomeada que nem consegui pensar na possibilidade da comida estar envenenada ou conter alguma substância que nos controlaria. Estava longe de ser a melhor refeição do mundo, mas para quem estava com o estômago doendo, quase se assemelhou a um banquete.