Terminamos de comer e ficamos em silêncio. Nenhuma teve coragem de dizer nada, não havia uma palavra de consolo que fosse suficiente para o momento. Nós duas estávamos ferradas e eu tinha medo de que acabássemos encontrando um destino ainda pior do que a morte.
Quando finalmente fomos tiradas do cômodo, dois sujeitos truculentos nos arrastaram para um barco, jogando-nos num porão.
Caí em cima da Rhea sem querer e rolei para o lado.
- Você está bem? - perguntei preocupada com ela.
- Estou - murmurou, mas eu duvidava que fosse verdade. Era difícil ficar bem diante de tudo que estávamos enfrentando.
Por mais que eu estivesse acostumada com o cheiro de peixe. Fomos colocadas no compartimento em que a pesca era jogada e o aroma era muito forte, fazendo com que o meu estômago revirasse e por pouco não colocasse para fora a refeição precária que tínhamos feito antes de partir.
Rhea estava murmurando ao meu lado, choramingando e fazendo preces. Ela queria que aquele pesadelo acabasse tanto quanto eu. Puxei-a para mais perto e dei nela um abraço.
Só queria poder dizer para minha amiga que tudo ficaria bem, mas estava cada vez mais certa de que o nosso pesadelo estava só começando.
- O que acha de brincarmos com elas antes de entregarmos para o pessoal da ilha? - Quando ouvi a voz deles eu voltei a tremer.
Era virgem, não tinha me relacionado com outros homens. Aos vinte anos a minha família era a minha prioridade, mas conseguia compreender muito bem o que eles pretendiam fazer comigo.
- Nada de tocar as garotas - outro falou num tom firme o que me garantiu poucos segundos de alívio.
- Vai ser só uma casquinha.
- O chefe vai nos matar se elas valerem menos porque você decidiu estragar a carga.
- Na porta dos fundos ninguém vai notar.
- Ícaro!
- Você é um chato.
- Eles vão... - Comecei a falar, mas antes que eu conseguisse concluir, Rhea colocou o dedo indicador sobre a minha boca.
- É melhor não chamarmos atenção. Assenti com um movimento de cabeça.
O silêncio claustrofóbico e assustador se estabeleceu enquanto o barco sacolejava com as ondas que quebravam no casco. O mar parecia raivoso naquele dia, ou apenas fosse uma sensação interna minha que não parava de me castigar.
O medo e o sofrimento por antecipação foram meus carrascos durante todo o percurso. Não saber exatamente o que aconteceria conosco me apavorava ainda mais. A cada vez que eu olhava para a minha melhor amiga
ao meu lado, meu coração chegava a doer. Se ela não houvesse ido me pedir aqueles legumes não estaria metida naquela enrascada comigo.
Não sei quanto tempo se passou depois de terem nos servido macarrão frio até chegarmos à outra ilha.
O sujeito, que deveria se chamar Ícaro veio até o porão e agarrou a Rhea, arrastando-a para fora primeiro. Quis gritar, dizer para que não a levassem, mas logo chegou a minha vez. Cambaleei ao ser arrastada e caí de cara na areia, sentindo a minha pele se ferir com os fragmentos como nunca. Parecia que eles eram feitos de pequenos cacos de vidro.
Ao longe eu vi o que me pareceu uma mansão, como aquelas que só apareciam em programas de TV. Ela era suntuosa e se parecia com os templos aos deuses gregos, com colunas e arquitetura similar.
Olhei em volta para a enorme praia e procurei um jeito de conseguir fugir, mas estava tão fraca que mal daria alguns passos antes que fosse capturada novamente.
Sem que vislumbrasse qualquer possibilidade de ser livre, fui agarrada pelo braço novamente e voltaram a me arrastar.
- Para onde estão nos levando? - gritava. - Me solta!
- Fica quieta, vadia!
- Por favor, não a machuquem. - Suplicou Rhea quando viu uma mão ser erguida na minha direção.
Fui obrigada a me calar. Não tive escolha a não ser permitir que nos levassem. Se fosse espancada eu perderia o sentido e não poderia lutar contra nada depois.
Havia um homem sério parado na porta. Ele usava óculos escuros e deteve os que nos arrastavam. Ele se moveu para nos encarar e subiu com os olhos dos pés à cabeça, reparando bem em nós de um jeito que me desesperou ainda mais.
Saímos de monstros para cairmos nas mãos de outros que me pareciam ainda piores.
- O que estão fazendo aqui? - disse num tom sério.
- Nosso chefe nos mandou trazer uma mercadoria para o seu. - Fomos empurradas para frente para que o cara pudesse nos analisar melhor.
- Hum... Onde conseguiram essas?
- Em uma ilha de pescadores.
- Pobres?
- Sim. Ninguém vai dar falta.
- Podem passar. - O homem fez um movimento com a cabeça e deu um passo para o lado, permitindo nossa entrada. - Vão encontrar a negociante lá dentro.
Seguimos pelo corredor bem-decorado e com pé direito alto até entrarmos em um salão com algumas gaiolas e mulheres seminuas andando de um lado para o outro. Também havia homens usando apenas gravatas e uma cueca minúscula, além de outros sujeitos mais bem-vestidos que recebiam ordens de uma mulher.
Era uma versão assustadora de um filme erótico. Eu queria gritar mais e chorar, porém, já tinha aprendido que fazer isso só piorava a situação para nós duas. Tinha que pensar na Rhea.
Quando a tal negociante se virou para mim, senti um calafrio que começou na base da minha coluna e alastrou-se rapidamente pelo meu corpo inteiro. Eu não precisava de um sexto sentido para saber que ela poderia ser ainda pior do que os homens com quem eu havia lidado até o momento. Loira, com o cabelo preso em um coque, unhas longas, pintadas de vermelho e algo que pareceu um animal morto ao redor do pescoço.
Engoli em seco novamente ao perceber que aquele meu pesadelo estava apenas piorando.
- Olhem só o que temos aqui... - Deu alguns passos e parou na nossa frente. - Bem que eu estava precisando de sangue fresco para oferecer aos meus clientes.
- Vai se dar bem com essas duas. - Riu o sujeito que estava me segurando. - São virgens.
- Ah, é?! - O sorriso da mulher se alargou ainda mais.
- Sim.
- Vou ficar com elas. Será interessante promover um leilão na próxima noite.
Como assim um leilão? Não éramos mercadoria!
- E como será o pagamento? - Ícaro estava interessado no dinheiro.
Eu fiquei olhando de um lado para o outro, pensando em uma forma de conseguir fugir, mas continuava sem alternativas.
- Vou dar dois mil euros por cada uma das garotas. E dez por cento de comissão se oferecerem mais de dez mil pelas virgindades.
Ela realmente estava nos negociando?
Eles trocaram olhares e assentiram firmando um negócio que não poderia acontecer. Aquilo era mais do que apenas um crime, era desumano.
- Você não pode fazer isso comigo. - Rhea começou a chorar, o que atraiu a atenção da mulher para ela.
- Não valia nada, garota. Ao menos agora vai ter alguns homens ricos pagando por você e um pouco de conforto. Pensa que tirou a sorte grande.
- Não tem sorte nenhuma.
- Para o seu bem é melhor que mude de opinião. - A mulher girou nos saltos e fez um gesto para que outras se aproximassem de nós. - Levem essas duas para tomar um banho. Elas estão fedendo.
Segurei na mão da Rhea e ela entrelaçou os seus dedos nos meus, mas fomos puxadas até sermos obrigadas a nos separarmos.
Capítulo nove
Eu estava em alerta quando o helicóptero pousou na ilha vermelha. No primeiro momento, o local parecia como qualquer outro paraíso da Grécia. Tendo nascido no mundo do crime e lidado com ele desde moleque, conhecia muito bem fachadas como aquela.
A primeira vez que o meu pai me levou para uma missão eu tinha doze anos, mas era astuto e veloz como um felino. Fomos atrás de um magnata da construção civil de Roma que ousou nos desafiar e agir contra o que a minha família tinha determinado para ele. Pensou que a segurança que tinha em sua bela mansão seria o suficiente para nos deter. Já tinha treinado muito, mas foi eletrizante entrar de maneira furtiva e matar o homem no seu próprio escritório. Treze anos depois, tirara tantas outras vidas que perdera as contas.