Pandora movia-se com graça fluida, quase etérea. O príncipe a conduzia com firmeza suave, visivelmente satisfeito com a atenção que ambos capturavam.
- Confesso - murmurou ele - que Valença não exagerava em suas descrições.
Pandora arqueou levemente a sobrancelha.
- Espero que tenham sido generosas.
- Foram insuficientes.
Ela riu.
Mas o príncipe não sorria.
Observava.
Calculava.
- Diga-me, Lady Pandora... - sua voz baixou, íntima, estratégica - o que pensaria sobre tornar-se princesa herdeira de Valença?
O movimento de Pandora vacilou por uma fração mínima.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
Ela sustentou o olhar dele.
Serena.
Indecifrável.
- Pensaria que Vossa Alteza possui uma ousadia admirável.
- Apenas pragmatismo.
- Então permita-me ser igualmente pragmática.
O sorriso dela tornou-se delicado.
Quase doce.
- Eu jamais aceitaria.
A resposta foi suave.
Mas definitiva.
O príncipe não pareceu surpreso.
Apenas intrigado.
- Nem mesmo por uma coroa?
- Principalmente por uma coroa.
E ali...
Entre música e diplomacia mascarada...
O interesse do príncipe não diminuiu.
Intensificou-se.
Mais tarde.
Outra música.
Outro momento.
Outro erro prestes a acontecer.
Ezequiel Alcântara avançou.
A postura rígida.
O olhar firme.
O salão novamente silenciou.
Ele parou diante de Pandora.
Sem reverência exagerada.
Sem charme.
Sem jogos.
- Dance comigo.
Não foi um pedido.
Foi quase uma ordem.
Pandora o encarou.
Longamente.
Sem submissão.
Sem nervosismo.
Apenas... frieza elegante.
- Não.
O choque foi coletivo.
Ezequiel não piscou.
Mas algo em seu maxilar endureceu.
- Recusa-me?
- Recuso qualquer coisa que soe como imposição.
A resposta foi calma.
Cortante.
Pandora virou-se com serenidade quase cruel.
E caminhou.
Diretamente até...
Jeferson.
- Vai me conceder esta dança ou pretende fingir que não me viu?
Jeferson sorriu, divertido.
- Sempre um prazer obedecer você.
Eles deslizaram pelo salão em perfeita sintonia.
Leves.
Naturais.
Cúmplices.
Ezequiel permaneceu imóvel.
Observando.
Em silêncio.
Mas algo em seus olhos agora queimava.
Não era irritação.
Era algo muito mais perigoso.
Algo pessoal.
Horas depois.
O baile terminara.
Os corredores Bragança mergulhavam em quietude.
Pandora caminhava lentamente por seus aposentos.
A expressão agora completamente diferente.
Sem sorrisos.
Sem leveza.
Sem brilho despreocupado.
Fria.
Calculista.
A porta abriu-se.
- Sofia.
A dama de companhia surgiu imediatamente.
Postura impecável.
Olhar atento.
- Minha lady.
Pandora virou-se lentamente.
E ali...
Emergiu um lado que ninguém jamais via.
Um olhar duro.
Cortante.
Estrategicamente gelado.
- Quero um relatório completo.
Sofia não hesitou.
- Sobre o quê, minha lady?
- Tudo.
A palavra caiu como aço.
- O que mudou. O que foi dito. O que foi planejado. Quem se aproximou. Quem se afastou.
Ela caminhou lentamente até a janela.
- Quero saber o que aconteceu em minha ausência.
Sofia inclinou levemente a cabeça.
- Começarei imediatamente.
Pandora então acrescentou, em tom perigosamente calmo:
- Discrição absoluta.
- Sempre, minha lady.
Quando Sofia saiu...
Pandora permaneceu imóvel.
Os olhos frios.
A mente claramente em movimento.
Porque Pandora podia parecer livre.
Espontânea.
Despreocupada.
Mas Pandora Bragança...
Nunca era ingênua.
Na ala oeste.
Josephine estava furiosa.
- Inaceitável.
Bernada Bragança ergueu lentamente o olhar.
- Cuidado com o tom.
- Sofia deveria ser minha.
A voz de Josephine tremia, carregada de frustração contida.
- Eu sou a herdeira. A futura rainha.
Bernada permaneceu serena.
Impenetrável.
- Sofia foi designada onde seria mais útil.
- Útil?
Josephine soltou uma risada amarga.
- Pandora mal respeita protocolos!
- Pandora enxerga o que outros ignoram.
A resposta veio seca.
Direta.
- Sofia é uma mente estratégica. Observadora. Silenciosa.
Bernada inclinou-se levemente.
- Características que combinam perfeitamente com sua irmã.
O golpe foi preciso.
Josephine endureceu.
- Eu também poderia utilizá-la.
Bernada sustentou o olhar.
- Você não precisa de Sofia.
Silêncio.
- Você já sabe exatamente como funciona este jogo.
Josephine desviou o olhar.
Mas algo dentro dela...
Algo agora começava a ferver.
Porque Pandora estava sendo protegida.
Fortalecida.
Armada.
E Josephine começava a perceber algo terrível.
Talvez...
Pandora não fosse apenas a irmã livre.
Talvez Pandora fosse...
Uma peça muito mais perigosa.
Muito mais preparada.
Muito mais imprevisível.
E naquela noite...
Duas guerras silenciosas começavam.
Uma no coração de Ezequiel.
Outra na mente de Josephine.
E nenhuma delas prometia misericórdia.
O silêncio em Valdoria nunca era vazio.
Era carregado.
Observador.
Perigoso.
Sofia movia-se pelos corredores como uma sombra bem treinada.
Dama de companhia.
Título elegante.
Função muito mais profunda.
Informações fluíam em palácios como veneno invisível - e Sofia sabia exatamente onde colher cada gota.
Criados falavam.
Guardas cochichavam.
Nobres subestimavam.
Erro fatal.
Horas depois...
Ela retornou.
Pandora aguardava junto à lareira, imóvel, os olhos perdidos nas chamas.
- Minha lady.
Pandora não se virou.
- Fale.
Sofia hesitou por um raro segundo.
- Sua ausência provocou... movimentações.
Agora Pandora virou-se lentamente.
O olhar frio.
Atenção total.
- Seja específica.
- O rei Felipe intensificou negociações discretas.
Silêncio.
- Sobre mim?
- Sobre alianças envolvendo a senhora.
Pandora não demonstrou surpresa.
Mas algo em seus olhos endureceu.
- Continue.
- O príncipe de Valença.
A atmosfera mudou.
Imediatamente.
- O que tem ele?
- Houve tentativas formais de sondagem matrimonial.
Pandora soltou uma pequena risada.
Sem humor.
- Natural.
Sofia então acrescentou, em tom mais baixo:
- Mas não foi o único.
O silêncio tornou-se cortante.
- Quem?
- Ravena.
Pandora congelou.
Completamente.
Até o fogo pareceu vacilar.
- Explique.
- Um emissário esteve em Valdoria semanas atrás.
- Oficialmente?
- Não.
Agora o ar parecia pesado demais.
- O que Ravena queria?
Sofia sustentou o olhar.
- Informações sobre a senhora.
O silêncio explodiu.
Pandora ergueu-se lentamente.
Perigosamente calma.
- Ravena não se move sem intenção estratégica.
- Exatamente, minha lady.
Pandora caminhava agora pelo aposento.
Fria.
Calculista.
Cada passo carregado de pensamento.
- O que eles sabem?
- Ainda não sabemos.
Pandora parou.
Os olhos gelados.
- Quero nomes.
- Já estou trabalhando nisso.
- Quero saber quem falou.
A voz veio baixa.
Ameaçadoramente serena.
- Quem observou. Quem vendeu. Quem ousou.
Sofia inclinou levemente a cabeça.
- Sim, minha lady.
Pandora voltou-se para as chamas.
Mas agora...
Não havia suavidade.
Apenas algo duro.
Algo perigoso.
Porque Pandora entendia perfeitamente o que aquilo significava.
Ela não era apenas desejada.
Ela estava sendo estudada.
Enquanto isso...
Ezequiel Alcântara não dormia.
O príncipe herdeiro permanecia junto à janela de seus aposentos, o olhar perdido na escuridão.
Mas sua mente...
Estava em outro lugar.
Pandora.
A recusa.
A frieza.
A indiferença quase insolente.
E algo que ele odiava admitir:
Ela não o temia.
Felipe Alcântara entrou sem anúncio.
- Ainda acordado.
- Sempre direto, pai?
Felipe aproximou-se.
- Você está distraído.
Silêncio.
- Não é próprio de você.
Ezequiel permaneceu imóvel.
- Pandora Bragança.
A tensão no aposento tornou-se imediata.
Ezequiel não respondeu.
Felipe observava.
Experiente demais.
- Ela recusou você.
- Ela recusou uma imposição.
Felipe estreitou levemente os olhos.
- Isso o incomoda.
- Não.
Mentira.
Visível.
Felipe suspirou.
- Cuidado, Ezequiel.
Agora o príncipe virou-se lentamente.
- Com o quê?
- Pandora não é como Josephine.
Silêncio pesado.
- Pandora é perigosa.
- Pandora é honesta.
Felipe soltou uma pequena risada seca.
- Isso é ainda mais perigoso em um palácio.
Ezequiel sustentou o olhar do pai.
- Ela não joga.
Felipe aproximou-se.
- Todos jogam.
Uma pausa.
- Alguns apenas fingem melhor que outros.
Ezequiel desviou o olhar.
Mas algo dentro dele...
Algo que jamais experimentara antes...
Começava a crescer.
Algo que não combinava com dever.
Nem com coroas.
Nem com controle.