Valença e Alcântara carregavam décadas de rivalidade política, mas guerras abertas eram caras demais para tempos modernos. Assim, a presença de Caelan era vista como um gesto diplomático... ainda que carregado de tensão.
Ele movia-se pelo salão com confiança quase provocadora.
Olhos atentos.
Sorriso calculado.
Postura de quem sabia exatamente o impacto que causava.
No centro da pista, os olhares convergiam para o casal mais aguardado da noite.
Ezequiel Alcântara e Josephine Bragança.
Ele, impecável em seu uniforme cerimonial.
Ela, deslumbrante em um vestido de seda prateada que parecia capturar a própria luz.
Moviam-se com elegância absoluta.
Mas não havia paixão.
A dança era perfeita demais.
Precisa demais.
Fria demais.
- Você sempre dança assim? - murmurou Josephine, mantendo o sorriso social.
- Assim como?
- Como se estivesse assinando um tratado.
Ezequiel não alterou a expressão.
- Para mim, é exatamente isso.
Josephine sentiu o golpe.
Mas continuou sorrindo.
Porque Josephine sempre sorria.
Enquanto isso, Caelan aproximava-se dos Bragança.
George Bragança o recebeu com a cordialidade polida de um homem acostumado ao jogo político.
- Príncipe Caelan.
- Grão-duque.
Os dois trocaram cumprimentos formais.
Mas havia algo diferente no olhar do príncipe.
Algo menos diplomático.
- Ouvi falar muito de Pandora Bragança - disse Caelan, casualmente.
Helena enrijeceu.
Bernarda observou em silêncio rígido.
George permaneceu impassível.
- Minha filha está viajando.
- Uma mulher de espírito livre, pelo que dizem.
Havia interesse explícito demais naquele tom.
- Pandora aprecia sua independência - respondeu George.
- Valença aprecia alianças fortes.
Silêncio.
Caelan sustentou o olhar do grão-duque.
- Uma união entre nossas casas seria... vantajosa para ambos os lados.
A mensagem era clara.
Casamento.
Helena prendeu a respiração.
Bernarda já parecia pronta para uma resposta cortante.
George não hesitou.
- Pandora não está disponível.
Direto.
Frio.
Definitivo.
Caelan piscou lentamente.
- Nem mesmo para uma proposta real?
- Especialmente para uma proposta real.
O golpe foi elegante.
Mas brutal.
O príncipe forçou um sorriso diplomático.
- Entendo.
Mas seus olhos não escondiam o incômodo.
Do centro da pista, Josephine ouvira tudo.
Cada palavra.
Cada sílaba.
Pandora.
Sempre Pandora.
Mesmo ausente.
Mesmo distante.
Mesmo sem esforço.
Reinos desejavam Pandora.
Príncipes disputavam Pandora.
Seu pai recusava alianças por Pandora.
Enquanto ela...
Josephine perdeu o ritmo por um instante.
Ezequiel percebeu imediatamente.
- Está distraída.
- Apenas cansada.
- Você não se cansa.
Josephine ergueu os olhos para ele.
Havia algo perigoso ali.
- Todos se cansam.
Ezequiel sustentou o olhar.
Pela primeira vez, viu algo que nunca estivera ali antes.
Amargura.
Não nervosismo.
Não ansiedade.
Algo muito mais profundo.
À margem da pista, Donatella observava a cena, indignada.
- Isso é inacreditável - murmurou.
Joaquim, ao seu lado, parecia mais atento a Josephine do que ao escândalo diplomático.
- O quê exatamente?
- Até Valença quer Pandora.
- Natural.
- Natural?! Josephine será princesa!
- E Pandora será sempre Pandora.
Donatella bufou.
- Você fala como se isso fosse uma ameaça.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Joaquim.
- Porque talvez seja.
Josephine continuava a dança.
Impecável.
Majestosa.
Radiante.
Mas por dentro...
Algo estava se quebrando.
Ou pior.
Algo estava despertando.
Porque naquela noite, diante de um salão inteiro que brilhava em luxo e política...
Josephine Bragança compreendeu uma verdade cruel.
Ela podia conquistar um trono.
Mas Pandora conquistava o mundo sem sequer tentar.
E isso...
Isso era imperdoável.
Longe dali, em alguma costa ensolarada, Pandora Bragança ria despreocupada, ignorando completamente que seu nome ecoava em salões reais.
Ignorando que príncipes a desejavam.
Ignorando que, sem saber...
Ela se tornara o centro de uma guerra silenciosa.
Uma guerra travada não por reinos.
Mas por uma irmã que já não pretendia viver nas sombras.
O baile ainda ecoava em comentários dias depois.
Nos salões políticos.
Na imprensa.
Nos corredores silenciosos do palácio.
Mas nenhuma mente estava tão inquieta quanto a de Josephine Bragança.
Ela permanecia sentada diante da penteadeira, os dedos deslizando lentamente sobre a safira ancestral. A joia brilhava - majestosa, poderosa, simbólica.
Mas agora Josephine enxergava algo além.
Uma arma.
Uma porta.
Uma oportunidade.
- Valença quer Pandora... - murmurou para si mesma.
Um pensamento perigoso começou a se formar.
Lento.
Preciso.
Irreversível.
No Palácio Alcântara, o Rei Felipe observava relatórios diplomáticos com crescente irritação.
- Valença está se movendo - disse um conselheiro.
- Valença sempre se move.
- Mas agora demonstraram interesse direto em Pandora Bragança.
Felipe estreitou os olhos.
Aquilo era problemático.
Se Valença selasse uma união com os Bragança por meio de Pandora, Alcântara perderia influência estratégica. O casamento de Ezequiel com Josephine deixaria de ser o eixo central de poder.
- Não permitiremos isso - declarou o rei.
- Não há como impedir propostas externas.
Felipe respirou fundo.
- Então garantiremos que Pandora nunca aceite uma.
Enquanto isso...
Josephine visitava o palácio.
Mas naquela tarde, não como noiva.
Como jogadora.
- Alteza - disse ela suavemente ao ser anunciada na sala privada de Ezequiel.
Ele a encarou com habitual serenidade austera.
- Josephine.
- Espero não estar interrompendo assuntos de Estado.
- Você será assuntos de Estado em breve.
Josephine sorriu.
Mas havia algo diferente naquele sorriso.
Mais afiado.
- Vim falar sobre Valença.
Ezequiel ergueu levemente o olhar.
- O que sobre eles?
- O interesse em Pandora.
Silêncio.
Ele a observou com atenção incomum.
- Isso lhe incomoda?
Josephine inclinou levemente a cabeça.
- Isso deveria incomodar o reino.
- Pandora não é responsabilidade nossa.
- Ainda não.
Havia algo calculado demais naquele tom.
Ezequiel percebeu.
- O que você está sugerindo?
Josephine aproximou-se lentamente.
Elegante.
Precisa.
Perigosa.
- Valença quer uma Bragança.
- Já terão uma.
- Mas desejam Pandora.
Os olhos dela brilharam.
- E desejos frustrados costumam gerar conflitos.
Ezequiel cruzou os braços.
- Vá direto ao ponto.
Josephine sustentou o olhar dele.
Sem hesitar.
- Pandora precisa ser... estrategicamente protegida.
- Protegida de quê?
- De si mesma.
Silêncio.
O ar pareceu mudar.
Ezequiel estreitou os olhos.
- Você está propondo interferir na vida da própria irmã?
Josephine sorriu.
Serena.
Fria.
Quase régia.
- Estou propondo preservar o equilíbrio entre reinos.
A resposta era perfeita.
Politicamente impecável.
Mas havia algo ali.
Algo que Ezequiel começava a enxergar.
Josephine não estava pensando apenas no reino.
Estava pensando em algo muito mais pessoal.
Do outro lado do continente...
Valença não estava satisfeito.
O Príncipe Caelan caminhava furiosamente pelo gabinete real.
- Recusado? - repetiu.
- Diretamente - confirmou o assessor.
- Sem sequer considerar?
- O grão-duque foi... categórico.
Caelan fechou o punho.
Aquilo não era apenas uma negativa.
Era um desafio.
E príncipes de Valença não reagiam bem a desafios.
- Então mudaremos a abordagem.
- Alteza?
Um sorriso lento surgiu.
Perigoso.
Ambicioso.
- Se Pandora Bragança não pode ser conquistada politicamente...
Seus olhos brilharam.
- Será conquistada pessoalmente.
Enquanto isso...
Pandora Bragança retornava ao continente.
Sem saber.
Sem suspeitar.
Sem imaginar que agora não era apenas a irmã adorada.
Mas o centro de interesses reais.
Desejos estratégicos.
Ambições perigosas.
E, acima de tudo...
O plano cuidadosamente arquitetado de Josephine Bragança.
Que já não jogava para sobreviver.
Jogava para dominar.