Nenhuma negação.
Josephine aproximou-se.
- Ela pode ser formada.
Agora sim, interesse genuíno.
- Continue.
A voz dele saiu baixa.
Atenta.
- Mas não com Pandora.
O olhar do príncipe mudou.
Sutilmente.
- Não?
Josephine inclinou levemente a cabeça.
- Comigo.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Pesado.
Quase elétrico.
Ele a encarava como se estivesse recalculando todo um tabuleiro.
- Confesso que não esperava essa proposta.
- Ninguém espera.
O príncipe soltou uma pequena risada contida.
- Se eu me casasse com você... - murmurou - seria, sem dúvida, uma excelente aliança.
Uma pausa.
- Mas as consequências seriam... explosivas.
Josephine não vacilou.
- Por Ezequiel.
- Por Alcântara. Por Valdoria. Por todo o continente.
Ele aproximou-se lentamente.
- Você é a noiva do príncipe herdeiro.
Josephine sustentou o olhar.
Fria.
Segura.
Perigosamente convincente.
- Sou também uma Bragança.
Silêncio.
- Mesmo não sendo a filha favorita...
Havia algo afiado naquela frase.
Algo antigo.
- Meus pais jamais permitiriam que algo acontecesse comigo.
Ela aproximou-se mais.
- Um rompimento desse porte não resultaria em guerra.
- Resultaria em caos político.
- Caos controlável.
Os olhos dela brilhavam agora.
Ambiciosos.
Estratégicos.
- Porque a aliança ainda seria inevitável.
O príncipe permaneceu em silêncio.
Observando.
Pesando.
- Você é muito mais perigosa do que aparenta, Lady Josephine.
O sorriso dela surgiu lento.
Impecável.
- Eu fui criada para isso.
E ali...
Entre ambição e diplomacia silenciosa...
Uma possibilidade absurda começava a ganhar forma.
Manhã.
Campos vastos Bragança.
Liberdade.
Vento.
Horizonte aberto.
Pandora cavalgava sem destino preciso, os cabelos loiro-acinzentados soltos ao vento, o cavalo negro avançando com força elegante.
Ali...
Ela parecia pertencer ao mundo.
Não ao palácio.
Não às coroas.
Então...
Outro cavalo.
Outro movimento.
Outra presença impossível de ignorar.
Ezequiel.
Ele surgira como sempre surgia.
Silencioso.
Imponente.
Inevitável.
Pandora reduziu o ritmo.
- Alteza.
- Lady Pandora.
Nenhuma formalidade exagerada.
Apenas aquela tensão estranha que sempre surgia entre eles.
Cavalgavam lado a lado.
Silêncio confortável.
Incômodo.
Ambos.
- Posso fazer uma pergunta?
A voz de Pandora rompeu o ar com naturalidade.
- Já fez antes.
Ela sorriu levemente.
- Você ama Josephine?
A pergunta caiu direta.
Sem rodeios.
Sem medo.
Ezequiel não respondeu de imediato.
O olhar fixo no horizonte.
- Casamentos reais...
Sua voz saiu calma.
Distante.
- ... não são construídos sobre amor.
Pandora o encarou.
Atenta.
- São construídos sobre alianças.
O vento soprou entre eles.
Pandora soltou uma pequena risada incrédula.
- Isso soa miserável.
Ezequiel virou lentamente o rosto.
- Soa necessário.
- Soa patético.
O silêncio explodiu.
Instantaneamente.
Ezequiel endureceu na sela.
- Patético?
Pandora sustentou o olhar.
Sem intimidação.
Sem recuo.
- Pessoas presas em protocolos. Em regras. Em aparências.
Ela gesticulou vagamente para o nada.
- Vivendo vidas que não escolheram.
A tensão tornava-se quase palpável.
- Você fala com desprezo sobre algo que sustenta reinos.
- Eu falo com honestidade sobre algo que aprisiona pessoas.
O olhar de Ezequiel tornou-se duro.
Cortante.
- Você enxerga apenas liberdade porque nunca carregou uma coroa.
Pandora inclinou levemente a cabeça.
- E você enxerga apenas dever porque nunca ousou questioná-lo.
O golpe foi preciso.
Direto.
Perigoso.
Ezequiel puxou levemente as rédeas.
O cavalo reagiu ao nervosismo contido.
- Nem todos têm o luxo de viver como você, Pandora.
A voz agora carregava irritação real.
- Livre. Despreocupada. Alheia às consequências.
Pandora estreitou levemente os olhos.
- Livre não significa inconsequente.
Silêncio.
Tenso.
Afiado.
- Significa que não aceito viver uma vida que considero vazia.
Ezequiel a encarava agora.
Intensamente.
Algo entre irritação e algo muito mais perigoso.
Muito mais pessoal.
- Você acha tudo isso patético.
Pandora sustentou o olhar.
- Acho triste.
O vento soprou novamente.
Mas agora...
O ar entre eles queimava.
Porque Pandora não o provocava como os outros faziam.
Ela o desafiava.
E isso...
Era algo que Ezequiel Alcântara jamais aprendera a ignorar.
Josephine não dormira.
E não era ansiedade.
Era excitação estratégica.
Os jardins Bragança amanheciam sob uma névoa suave quando ela surgiu novamente diante do Príncipe de Valença.
Desta vez, sem rodeios.
Sem jogos sutis.
- Preciso saber se estou falando com um homem cauteloso... ou ambicioso.
O príncipe sorriu.
- Normalmente, sou ambos.
Josephine aproximou-se lentamente.
- Então permita-me tornar isso simples.
Silêncio.
- Eu posso lhe dar os Bragança.
Agora não havia charme.
Apenas interesse bruto.
- Continue.
- Pandora é desejada.
- O continente inteiro sabe disso.
- Pandora é imprevisível.
Uma pausa.
- Eu não sou.
O príncipe inclinou levemente a cabeça.
Observando-a como quem analisa uma arma rara.
- Você ofereceria um rompimento com Alcântara.
- Eu ofereceria uma inevitabilidade política.
Ela sustentava o olhar com frieza impressionante.
- Meus pais jamais permitiriam um escândalo que fragilizasse os Bragança.
- Um rompimento com Ezequiel é mais que um escândalo.
- É um realinhamento de poder.
O príncipe estreitou levemente os olhos.
- Você quer fugir de Alcântara...
Josephine sorriu.
Um sorriso lento.
Perigoso.
- Eu quero vencer Alcântara.
Silêncio absoluto.
Porque agora...
A verdade emergia.
Crua.
- Você não quer liberdade.
- Liberdade é para Pandora.
Seus olhos brilhavam com algo quase febril.
- Eu quero controle.
O príncipe a encarava em silêncio.
Visivelmente impressionado.
- Você entende que isso pode incendiar reinos.
- Reinos sempre queimam.
Ela inclinou levemente a cabeça.
- A diferença é quem lucra com o fogo.
E ali...
Entre ambição e perigo...
O príncipe começou a perceber algo fascinante.
Talvez Pandora fosse o espetáculo.
Mas Josephine...
Josephine era o terremoto.
Enquanto isso...
Nos campos vastos...
O confronto silencioso continuava.
Pandora e Ezequiel cavalgavam agora em ritmos mais contidos.
A tensão não dissipara.
Apenas mudara.
- Você fala como se dever fosse uma doença - murmurou ele.
Pandora o observava com curiosidade genuína.
- Não. Falo como se fosse uma escolha que ninguém admite ser escolha.
Ezequiel estreitou levemente os olhos.
- Você realmente acredita nisso?
- Absolutamente.
O vento agitava os cabelos dela.
Selvagem.
Livre.
- Nada obriga você a aceitar uma vida miserável.
A palavra ecoou.
Miserável.
- Miserável?
- Viver sem amor. Sem desejo. Sem escolha.
Ela o encarou diretamente.
- Isso não é nobre. É trágico.
Algo nele vacilou.
Por um instante mínimo.
Perigoso.
- Amor não sustenta reinos.
- Mas sustenta pessoas.
O silêncio entre eles tornou-se diferente agora.
Menos agressivo.
Mais... carregado.
- Você acredita em amor como se fosse algo garantido.
Pandora sorriu levemente.
- Não é garantido.
Uma pausa.
- É justamente por isso que deveria importar.
Ezequiel a encarava.
Longamente.
Algo novo surgia em seu olhar.
Algo inquietante.
Algo que Pandora percebeu imediatamente.
- Você nunca amou ninguém, não é?
A pergunta saiu suave.
Mas devastadora.
O silêncio foi resposta suficiente.
Pandora inclinou levemente a cabeça.
- Isso explica muita coisa.
Irritação voltou instantaneamente.
- Você presume demais.
- Eu observo demais.
Ela reduziu o ritmo do cavalo.
- Você não defende o dever.
Ela o encarava agora com uma clareza quase desconcertante.
- Você se esconde nele.
O golpe foi brutal.
Porque era verdadeiro.
Ezequiel puxou as rédeas com força contida.
- Você não entende o peso de uma coroa.
Pandora sustentou o olhar.
Calma.
Inabalável.
- E você não entende o peso de uma vida não vivida.
Silêncio.
Tensão.
Algo perigosamente elétrico.
Porque agora...
Não era apenas irritação.
Era algo muito mais profundo.
Muito mais perigoso.
Algo que começava a nascer onde não deveria existir.
No palácio...
Sofia corria.
Literalmente.
Algo em suas mãos.
Algo urgente.
Algo devastador.
Pandora ergueu o olhar ao vê-la entrar sem anúncio.
Erro que Sofia jamais cometeria sem motivo grave.
- Minha lady...
A voz saiu tensa.
- Descobrimos quem falou com Ravena.
O ar congelou.
- Quem?
Sofia engoliu seco.
- Não foi um criado.
Silêncio mortal.
- Nem um guarda.
Pandora já sabia.
Instinto puro.
- Quem, Sofia?
A resposta caiu como um golpe fatal.
- Foi alguém da família.
O silêncio que se seguiu...
Não era apenas tenso.
Era o tipo de silêncio que precede catástrofes.
Pandora não esperou.
Não hesitou.
Não refletiu.
Atravessou os corredores Bragança como uma tempestade silenciosa.
Os criados afastavam-se instintivamente.
Algo no olhar dela...
Algo gelado.
Perigoso.
A porta dos aposentos de Josephine abriu-se sem anúncio.
Sem protocolo.
Sem permissão.
Josephine ergueu lentamente os olhos.
Nenhuma surpresa.
Como se já esperasse.
- Então era você.
A voz de Pandora saiu baixa.
Controlada.
Mas carregada de algo cortante.
Josephine fechou o livro com calma irritante.
- Bom dia para você também.
Pandora avançou.
Os olhos azul-piscina agora duros como gelo.
- Por quê?
Silêncio.
- Por que passou informações minhas para estranhos?
Josephine sustentou o olhar.
Serena.
Impenetrável.
- Que acusação dramática.
- Não jogue comigo, Josephine.
A tensão no aposento tornou-se quase sufocante.
Pandora aproximou-se mais.
- Ravena.
A palavra ecoou como veneno.
- Eu sei.
Agora...
Algo mudou.
Sutilmente.
Mas visível.
Josephine inclinou levemente a cabeça.
- Você sempre sabe de tudo, não é?
Pandora ignorou o tom.
- Somos irmãs.
Sua voz suavizou.
Mas apenas levemente.
- Podemos pensar diferente. Podemos querer coisas diferentes.
Ela sustentava o olhar com algo genuíno agora.
Algo raro.
- Mas sempre nos gostamos.
Silêncio.
Pesado.
Denso.
- Eu nunca fui sua inimiga.
Josephine levantou-se lentamente.
E ali...
Algo finalmente rompeu.
- Não?
A voz saiu baixa.
Mas carregada de anos.
Décadas.
Vida inteira.
- Você nunca precisou ser.
Pandora franziu levemente o cenho.
- Josephine...
- Eles nunca me amaram.
A frase caiu crua.
Sem ornamentos.
Sem máscaras.
O ar pareceu sair do aposento.
Pandora piscou.
Atônita.
- Isso não é verdade.
Josephine soltou uma risada.
Mas era amarga.
Dolorida.
Perigosamente sincera.
- Não é?
Ela avançou agora.
Os olhos brilhando com algo contido por tempo demais.
- Diga-me, Pandora... quem sempre teve liberdade?
Silêncio.
- Quem sempre teve indulgência?
Outra pausa.
- Quem sempre teve... escolha?
Pandora permanecia imóvel.
- Josephine...
- As melhores coisas.
A voz dela tremia agora.
Mas não de fraqueza.
De fúria antiga.
- Os melhores sorrisos. O melhor carinho. A melhor paciência.
Ela gesticulava, quase sem perceber.
- Sempre você.
Pandora sustentava o olhar.
Chocada.
Mas firme.
- Você foi criada para ser rainha.
Josephine riu novamente.
Quase cruel.
- Exatamente.
Silêncio brutal.
- Eu fui sacrificada.
O golpe ecoou como trovão.
- Não diga isso.
- Não?
Os olhos de Josephine queimavam agora.
- Enquanto você vivia... eu era moldada.
Ela aproximou-se perigosamente.
- Enquanto você era amada... eu era preparada.
Pandora sustentou o olhar.
Agora igualmente intensa.
- Eles te escolheram para a maior posição que alguém poderia desejar.
A voz saiu firme.
Convicta.
- Ser rainha.
Josephine a encarava como se aquela frase fosse uma afronta.
- Você realmente acredita nisso?
- Sim.
Pandora aproximou-se.
Sem medo.
Sem recuo.
- Eles te amam tanto...
Sua voz carregava algo profundamente honesto.
- ... que confiaram a você o maior destino possível.
Silêncio.
Pesado.
Emocionalmente devastador.
Mas Josephine...
Josephine apenas balançou a cabeça.
Lentamente.
Tristemente.
- Você ainda não entende.
A voz agora vinha baixa.
Cansada.
Amarga.
- Isso nunca foi amor.
Pandora estreitou levemente os olhos.
- Foi dever.
Uma pausa.
- Foi conveniência.
Outra.
- Foi sacrifício.
O silêncio entre elas tornou-se quase doloroso.
- Amor seria...
Josephine sustentava o olhar com algo cru.
Algo ferido.
- ... me deixar viver.
Pandora sentiu o golpe.
Mas não recuou.
- Amor não é ausência de responsabilidade.
- Amor não é prisão dourada.
As duas agora se encaravam como forças opostas.
- Você teve o luxo de ser livre, Pandora.
- Você teve o privilégio de ser escolhida.
Silêncio.
Cortante.
Irreconciliável.
- Você chama isso de privilégio.
Josephine murmurou.
- Eu chamo de sentença.
Pandora engoliu seco.
Porque agora...
Ela começava a enxergar algo que jamais considerara.
Não inveja.
Não rivalidade.
Mas dor.
Profunda.
Antiga.
Perigosamente real.
- Ainda assim...
A voz de Pandora saiu mais baixa.
Mais humana.
- Trair sua própria irmã?
Josephine sustentou o olhar.
Fria novamente.
Blindada novamente.
- Reinos não são construídos sobre sentimentos.
Pandora congelou.
Porque aquela frase...
Não soava como Josephine.
Soava como...
Ezequiel.
E ali...
Pandora percebeu algo terrível.
Josephine não estava apenas ferida.
Ela estava mudando.
Endurecendo.
Transformando-se em algo que Pandora jamais vira.
Algo perigoso.
Algo disposto a incendiar tudo.
Inclusive elas.