Sem hesitação.
Sem sombra de dúvida.
- Dentro de alguns dias haverá um baile.
Silêncio.
- E nesse baile...
Ela sustentava o olhar dele com intensidade perturbadora.
- ... nós seremos encontrados na cama.
O príncipe congelou.
Literalmente.
- Encontrados?
- Por meus pais.
Uma pausa.
- E pela família real.
O silêncio tornou-se denso.
Quase brutal.
- Você está sugerindo um escândalo calculado.
Josephine inclinou levemente a cabeça.
- Estou sugerindo uma inevitabilidade política.
O príncipe estreitou os olhos.
- Continue.
- Uma herdeira desonrada.
A voz dela vinha calma.
Fria.
Cirúrgica.
- Um casamento rompido.
Outra pausa.
- Uma substituição necessária.
O ar pareceu ficar pesado demais.
- Pandora.
A palavra saiu dos lábios dele como constatação inevitável.
- Pandora assumirá meu lugar.
Silêncio absoluto.
O príncipe a encarava como se estivesse diante de algo fascinante...
E profundamente alarmante.
- Você pretende incendiar Alcântara.
- Pretendo forçar os Bragança.
Josephine respondeu sem emoção.
- Meus pais jamais permitirão que uma filha Bragança deixe de se tornar rainha.
- Isso é uma aposta brutal.
- Isso é compreender minha família.
O príncipe caminhou lentamente ao redor dela.
- E por que eu aceitaria algo dessa magnitude?
Josephine virou-se suavemente.
- Porque você deseja uma aliança com os Bragança.
- Eu poderia simplesmente casar com Pandora.
A resposta veio rápida.
Lógica.
Josephine sorriu.
Mas era um sorriso afiado.
- Meus pais jamais permitiriam.
Silêncio.
- Pandora é... imprevisível demais.
O príncipe inclinou levemente a cabeça.
- George Bragança também jamais permitiria que Pandora fosse entregue a Ezequiel.
Josephine sustentou o olhar.
Segura.
Convicta.
Perigosa.
- Os Bragança honram sua palavra.
Uma pausa.
- Uma das filhas se tornará rainha.
Agora...
O príncipe silenciou.
Porque ali estava a essência brutal da aristocracia.
Honra.
Dever.
Sacrifício.
- Você está jogando um jogo extremamente arriscado, Lady Josephine.
- Não.
Os olhos dela brilhavam friamente.
- Estou jogando um jogo inevitável.
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Calculado.
- Eu pensarei.
Josephine inclinou levemente a cabeça.
- Não pense por muito tempo.
Uma pausa.
- O destino costuma favorecer os ousados.
E ali...
O príncipe partiu.
Carregando consigo uma decisão capaz de incendiar reinos.
Muito longe dali...
O mundo parecia outro.
Diante do rio.
Da cachoeira.
Do som indomável da água.
Pandora estava sentada sobre uma rocha, os pés quase tocando a correnteza, envolta naquela liberdade que parecia pertencer apenas a ela.
Então...
Passos.
Cavalo.
Presença.
Ezequiel.
- Você realmente não consegue ficar longe de problemas.
Pandora virou-se lentamente.
Um sorriso preguiçoso surgiu.
- Eu prefiro chamar de vida.
Ezequiel desmontou.
A postura rígida.
O olhar severo.
- Isso é imprudência.
- Isso é respirar.
- Você é uma Bragança.
- Infelizmente para seus padrões.
O olhar dele endureceu.
- Mesmo sendo nobreza, você não se comporta como uma.
Pandora levantou-se lentamente.
A água rugia atrás dela.
Selvagem.
Quase simbólica.
- E você se comporta como alguém que nunca viveu um único dia sem correntes invisíveis.
- Isso se chama dignidade.
Pandora riu.
- Isso se chama prisão elegante.
O silêncio entre eles tornou-se cortante.
- Você desafia tudo.
- Eu questiono tudo.
- Você ignora consequências.
- Eu ignoro limitações artificiais.
A tensão subiu como fogo.
- Você é imprudente, Pandora.
Ela sustentou o olhar.
Provocadora.
Incendiária.
- Você é insuportavelmente fechado.
E antes que ele pudesse reagir...
Pandora fez algo completamente inesperado.
Algo absolutamente Pandora.
Começou a tirar as luvas.
Depois os adornos.
Depois as camadas do vestido.
Ezequiel congelou.
- O que está fazendo?
Pandora o encarou com um brilho quase selvagem nos olhos.
- Mostrando a você...
Ela livrou-se da última camada.
Sem pudor.
Sem hesitação.
Sem medo.
- ... como se vive de verdade.
E então...
Saltou.
Direto no rio.
A água explodiu em reflexos dourados.
Pandora emergiu rindo.
Viva.
Radiante.
Indomável.
- É assim que se vive!
O eco da voz dela misturava-se ao rugido da cachoeira.
Ezequiel permanecia imóvel.
Completamente chocado.
Mas não era apenas choque.
Era algo muito mais perigoso.
Porque Pandora ali...
Livre.
Molhada.
Rindo como se o mundo fosse pequeno demais para contê-la...
Era a coisa mais devastadoramente viva que ele já vira.
E algo dentro dele...
Algo cuidadosamente trancado por toda uma vida...
Começava a ruir.
Silenciosamente.
Irreversivelmente.
O rio ainda rugia atrás deles.
Pandora permanecia imóvel à margem, a pele cintilando sob a luz dourada, os cabelos molhados caindo em ondas livres.
Ezequiel a encarava como se ela fosse uma afronta viva à própria ordem do mundo.
- Você perdeu completamente o juízo.
Pandora inclinou levemente a cabeça, a água cintilando sobre a pele clara.
- Não. Eu apenas não o uso como corrente.
O maxilar dele travou.
- Sua ousadia ultrapassa qualquer limite aceitável.
Ela sorriu.
Provocadora.
Perigosamente despreocupada.
- Aceitável para quem?
O silêncio explodiu.
- Para qualquer pessoa que compreenda dignidade.
Pandora riu novamente.
Mas dessa vez...
Havia desafio puro.
- Dignidade não é sinônimo de repressão, Alteza.
Ezequiel avançou alguns passos.
A tensão agora quase física.
- Se você não fosse uma Bragança...
A voz saiu baixa.
Carregada de fúria contida.
- ... eu já teria mandado chicoteá-la por tamanha ousadia e falta de pudor.
O mundo pareceu congelar.
O som da cachoeira.
O vento.
Tudo desapareceu.
Pandora o encarou lentamente.
Sem choque.
Sem medo.
Apenas algo frio.
Perigosamente frio.
- Então ainda bem que sou uma Bragança.
O golpe foi seco.
Cortante.
Ela saiu da água com calma irritante, passando por ele sem a menor pressa.
Sem submissão.
Sem intimidação.
- Porque homens que precisam de chicotes para impor respeito...
Uma pausa.
Olhar direto.
- ... normalmente não possuem autoridade real.
O silêncio entre eles queimava.
Mas agora...
Não era apenas confronto.
Era algo muito mais pessoal.
Muito mais perigoso.
Porque Pandora não apenas o desafiava.
Ela o desmontava.
Dias depois.
Salão menor Bragança.
Conversa privada.
Tensão inevitável.
O Príncipe de Valença aguardava junto à janela quando Pandora entrou.
Elegante.
Serena.
Com aquela aura natural que parecia deslocar o equilíbrio de qualquer ambiente.
- Alteza.
- Lady Pandora.
O olhar dele carregava algo diferente agora.
Menos charme.
Mais intenção.
- Espero não estar sendo inconveniente.
Pandora sorriu levemente.
- Essa frase costuma anteceder inconveniências.
O príncipe quase riu.
Quase.
- Serei direto.
Silêncio.
- Desejo pedir sua mão novamente.
Nenhuma surpresa.
Nenhuma hesitação.
Nenhuma dúvida.
Pandora suspirou suavemente.
- Alteza...
- Pandora.
A voz dele saiu mais baixa.
Mais pessoal.
- Valença lhe ofereceria liberdade. Poder. Influência.
Ela sustentava o olhar com serenidade inabalável.
- Liberdade condicionada nunca é liberdade.
- Seria uma união estratégica magnífica.
- Para Valença.
O príncipe estreitou levemente os olhos.
- E para você.
Pandora inclinou levemente a cabeça.
- Eu não desejo ser princesa.
Silêncio.
Pesado.
Definitivo.
- Nem rainha.
Outra pausa.
Ainda mais cortante.
- Nem peça diplomática.
O príncipe a encarava em silêncio.
Visivelmente frustrado.
Mas também...
Intrigado.
- Você recusa algo que muitos matariam para possuir.
Pandora sorriu.
Mas era um sorriso calmo.
Quase gentil.
- Porque muitos confundem coroa com felicidade.
Silêncio.
- Eu não.
O príncipe respirou fundo.
- Você realmente não teme nada, não é?
Pandora sustentou o olhar.
Suave.
Inquebrável.
- Eu temo viver uma vida que não escolhi.
O silêncio que se seguiu foi longo.
Carregado.
Irreversível.
Porque agora...
Ficava claro.
Pandora Bragança não era negociável.
E isso...
Era exatamente o que a tornava tão perigosamente desejável.