Minha mãe, alheia ao terremoto que acabara de desencadear, continuou a tagarelar, seu tom presunçoso. "Sim! Você acredita? Minha pequena Kaila! Dr. Magalhães, que partidão. Brilhante, bonito, de uma família tão distinta. Eles estão saindo há um tempo, discretamente, é claro. Não como certas pessoas, que ostentam tudo." A alfinetada velada era uma ferroada familiar.
"Mas... o Dr. Magalhães", gaguejei, minha mente se embaralhando. "Ele é... a Kaila é designer. Ele é cirurgião de trauma. Como...?"
"Ah, Alana, você sempre foi tão provinciana", zombou minha mãe. "O Dr. Magalhães não é um cirurgião qualquer. A família Magalhães, querida, eles são da alta sociedade, poderosos. E a carreira médica dele? Foi toda financiada por um fundo especial. Um fundo criado pelo seu avô, na verdade. Ele sempre quis apoiar jovens mentes promissoras na medicina."
Meu avô. O homem que me amava, que via meu potencial. O fundo dele... financiando a carreira de Heitor? Um pavor frio começou a se infiltrar em meus ossos.
"Mas... por que cirurgia de trauma?", perguntei, um pensamento novo e arrepiante se formando. "A Kaila tem... aquele TEPT fabricado do acidente de carro que ela causou anos atrás. Ela sempre falava sobre sua 'fragilidade', seu 'trauma'."
"Bem, sim!", exclamou minha mãe, sua voz brilhante. "Ele se especializa em trauma, sabe. Para ajudar pessoas como a Kaila a superar suas... condições delicadas. Ele é tão devotado a ela, Alana. Ele até recusou uma posição lucrativa em Nova York porque a Kaila não queria deixar o Rio. Isso é amor verdadeiro."
A ligação falhou e depois caiu abruptamente. A voz da minha mãe foi substituída por um silêncio ensurdecedor. Minha própria respiração estava irregular, superficial. O fundo do meu avô. O "TEPT" da Kaila. A "devoção" de Heitor. Tudo se encaixou com uma clareza horrível, cada peça um caco de vidro me rasgando por dentro.
Heitor, que estava arrumando silenciosamente seus instrumentos, parou de repente. Seu celular, que vibrava sutilmente no balcão, acendeu com uma chamada. Ele olhou para a tela e, pela primeira vez, vi um brilho de algo em seus olhos - não frieza, não indiferença, mas uma estranha e urgente preocupação. Seus lábios se contraíram. Ele se desculpou, saindo da sala para atender a ligação.
Quando ele voltou, seu rosto ainda estava estoico, mas havia uma tensão sutil em sua mandíbula. Ele me entregou uma receita de analgésicos. "Está tudo certo, Senhorita Cordeiro. A ferida é superficial. Evite atividades extenuantes por alguns dias." Sua voz voltou ao seu tom distante habitual, mas um toque de tensão permanecia.
"Ok", engasguei. Minha voz soava estranha até para meus próprios ouvidos. Ele se virou para sair, as costas retas como uma vara. "Dr. Magalhães?", chamei, desesperada. Ele parou, a mão na maçaneta. Ele não se virou. "É... é verdade? Sobre você e... a Kaila?"
Ele hesitou por um instante, um longo e agonizante instante. Então, sem olhar para trás, ele simplesmente disse: "Minha vida pessoal não é relevante para o seu tratamento médico, Senhorita Cordeiro." Suas palavras foram uma demissão definitiva, mais fria do que qualquer rejeição anterior. Ele abriu a porta e saiu.
Eu o observei ir, um nó crescente de pânico no estômago. A sala branca e estéril parecia sufocante. Eu tinha que saber. Eu tinha que ver. Peguei minha bolsa, ignorando a dor surda no meu braço, e saí apressada, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas.
Segui o carro dele pelas ruas sinuosas da cidade, meu próprio carro uma sombra escura atrás de seu elegante sedã preto. Ele dirigiu para uma área residencial tranquila, parando em frente a uma casa elegante e discreta que eu reconheci. A casa da Kaila. A casa da minha meia-irmã.
Minha respiração falhou quando ele saiu do carro. Ele caminhou com um propósito, uma intensidade focada que eu raramente via direcionada a algo além de suas cirurgias. Ele tocou a campainha. Um momento depois, a porta se abriu, e Kaila estava lá, parecendo frágil e etérea em um vestido branco esvoaçante. Ela olhou para ele, seus olhos grandes e aparentemente inocentes.
Então, ela se jogou nos braços dele.
Ele a pegou, sem esforço, com segurança. Sua postura geralmente rígida se suavizou, suas mãos subindo para embalá-la, para acariciar seu cabelo. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, segurando-a com força. Não era o abraço educado e distante que ele me oferecia. Era possessivo. Íntimo. Amor.
Senti um grito arranhando minha garganta, mas nenhum som escapou. Era como se uma mão gigante tivesse entrado no meu peito e apertado, esmagando meu coração em um milhão de pedaços. Minha visão turvou. Todo esse tempo. Três anos. Minha perseguição implacável, minhas tentativas desesperadas de quebrar sua fachada gelada. Tudo era uma piada cruel. Ele não era frio com todo mundo. Ele era apenas frio comigo.
Ele se afastou um pouco, o polegar limpando gentilmente uma lágrima de sua bochecha - uma lágrima que não estava lá um momento atrás. Ele murmurou algo, sua voz baixa e terna. Kaila fungou, a cabeça apoiada em seu peito.
"Ele nunca me rejeitou", sussurrei em voz alta, a percepção uma pílula amarga. "Ele me rejeitou porque tinha ela." O pensamento foi uma nova onda de agonia. Por que ele simplesmente não me disse? Por que me deixou fazer papel de boba por tanto tempo?
Então, Kaila falou, sua voz chegando até mesmo à distância, aguda e frágil. "Heitor, querido, eu sei que a Alana esteve na clínica de novo. Ela... causou algum problema? Ela pode ser bem insistente quando quer algo." Ela olhou para a rua, um sorriso malicioso, quase imperceptível, brincando em seus lábios.
Heitor enrijeceu ligeiramente. "Ela está bem, Kaila. Apenas um corte pequeno. Eu cuidei disso."
"Ah, que bom." Kaila suspirou, encostando-se nele. "Eu só me preocupo com você. Ela é tão... intensa. Eu pedi para você ser distante, para protegê-la de se machucar, e você fez. Mas me preocupo que ela não entenda. Ela pode pensar que você realmente não gosta dela." Ela pressionou um beijo dramático em sua mandíbula. "Você é bom demais para ela, Heitor. Mesmo na sua frieza, você está tentando ser gentil."
A mão de Heitor apertou em volta da cintura dela. "Eu fiz o que você pediu, Kaila. Qualquer coisa por você." Sua voz era suave, carregada de devoção. "Ela vai entender a mensagem eventualmente."
Meu sangue gelou. Protegê-la de se machucar? Qualquer coisa por você? Não era indiferença. Era uma performance calculada. Orquestrada por Kaila. Minha própria meia-irmã. Minha visão turvou novamente, uma maré negra subindo. A traição foi um golpe físico, pior do que qualquer corte ou hematoma. Meu amor, meu anseio, meu orgulho - tudo tinha sido um peão em seu jogo distorcido.
Senti como se estivesse me afogando, meus pulmões queimando por ar. Kaila, a garota doce e frágil, estava manipulando a todos nós o tempo todo. O fundo do meu avô, seu trauma fabricado, a profissão escolhida por Heitor, sua maneira distante, mas gentil, comigo - tudo era uma mentira. Uma mentira meticulosamente elaborada para me esmagar.
Tropecei para fora do carro, minhas pernas cedendo sob mim. A raiva era um inferno escaldante, queimando os últimos vestígios do meu coração estilhaçado. "Kaila!", rugi, minha voz rouca, quebrada. "Sua vadia manipuladora!"
Kaila ofegou, afastando-se de Heitor, seu rosto uma máscara de terror. "Alana! O que você está fazendo aqui?" Sua fachada inocente rachou, revelando um brilho de algo venenoso por baixo.
Heitor se colocou na frente de Kaila, protegendo-a com seu corpo. Seus olhos, fixos em mim, agora estavam verdadeiramente glaciais. "Alana. O que significa isso?" Sua voz era fria, sua preocupação por Kaila palpável.
"Significado?", ri, um som áspero e sem humor. "Você quer significado, Dr. Magalhães? Eu te dou significado!" Apontei um dedo trêmulo para Kaila. "Ela orquestrou isso! Tudo! A indiferença, sua 'devoção'... Ela enganou vocês dois, Heitor! Ela vem envenenando minha família contra mim há anos! Você não vê?"
Kaila choramingou, agarrando-se a Heitor. "Ela está mentindo, Heitor! Ela só está com ciúmes! Ela sempre me odiou, desde que a mamãe se casou com o pai dela. Ela acha que eu roubei sua família, sua herança. Ela sempre foi venenosa."
"Roubei sua herança?", rosnei, dando um passo à frente, ignorando o olhar de advertência de Heitor. "O fundo do meu avô! Aquele que financiou toda a sua carreira médica, Heitor! Kaila o manipulou! Fez parecer seu próprio legado! E o 'TEPT' dela? Uma desculpa fabricada para você se especializar em trauma, para que pudesse ser seu terapeuta pessoal, seu médico devotado!"
A mandíbula de Heitor se contraiu. "Kaila tem uma condição genuína, Alana. A infância dela foi difícil. Você não entenderia."
"Difícil?", zombei, uma nova onda de dor me invadindo. "Porque a mãe interesseira dela se casou com meu padrasto? Essa é a 'infância difícil' dela? Eu vi minha mãe se transformar em uma estranha por causa dela! Eu a vi virar minha própria família contra mim!"
"Alana, chega!", ordenou Heitor, sua voz afiada. "Kaila é delicada. Ela passou por muita coisa. Você está apenas projetando sua própria amargura nela porque não conseguiu aceitar que eu nunca senti nada por você além de cortesia profissional."
As palavras me atingiram como um golpe físico. Nunca senti nada por você. Meus joelhos fraquejaram. Ele realmente acreditava nela. Ele verdadeiramente acreditava nela. O ar sumiu dos meus pulmões. Senti uma onda vertiginosa de náusea.
"Você realmente acha isso?", sussurrei, minha voz mal um fio. "Depois de tudo? Depois de todos esses anos?"
"Estou comprometido com Kaila", disse ele, sua voz firme, inabalável. "Ela é minha noiva. E eu a amo."