Sofia e Clara trocaram outro olhar, a preocupação delas se aprofundando. Elas conheciam a profundidade da crueldade da minha família, embora não pudessem compreender verdadeiramente o aperto sufocante da manipulação de Kaila. Elas viam a dor em meus olhos, mesmo por trás da máscara de desafio. Elas escolheram o silêncio, oferecendo uma mão reconfortante em vez disso.
"E o Heitor?", perguntou Clara suavemente, seu olhar perscrutando o meu. "Depois de tudo isso... você ainda...?"
Eu a interrompi, minha voz afiada, não deixando espaço para dúvidas. "Heitor Magalhães é um fantasma. Uma ilusão. Ele escolheu o lado dele. Ele escolheu a Kaila. Ele não significa nada para mim agora." As palavras eram uma mentira, uma ferida dolorosa e autoinfligida, mas eu precisava acreditar nelas. Eu precisava me endurecer.
"Aquele idiota de coração frio!", Sofia fumegou, sua voz se elevando. "Como ele pôde fazer isso com você? Depois de tudo? Ele não te merece, Alana. Ele nunca mereceu."
Nesse momento, um silêncio caiu sobre o restaurante. Os olhos das minhas amigas, arregalados de incredulidade, se fixaram em algo atrás de mim. Um pavor frio se infiltrou no meu estômago. Eu não precisava me virar. Eu sabia.
Heitor Magalhães estava lá, um braço possessivamente em volta da cintura de Kaila. Ela estava rindo, a cabeça jogada para trás, o cabelo um halo dourado na luz suave. Ele estava olhando para ela, um sorriso gentil nos lábios, um calor em seus olhos que nunca fora direcionado a mim. Ele sussurrou algo em seu ouvido, e ela riu, pressionando-se mais perto dele. Eles eram um retrato de felicidade doméstica, de amor perfeito. O tipo de amor que eu sempre desejei, o tipo que ele cruelmente me negara.
Sofia ofegou. Clara apertou minha mão, seus olhos brilhando de raiva. "Que audácia! Depois do que ele acabou de fazer com você, aparecer aqui assim!"
Meu coração se contraiu, uma dor familiar se espalhando pelo meu peito. Era uma ferida nova, mas não perfurou tão profundamente quanto antes. A dormência estava se instalando. Senti um estranho distanciamento, como se estivesse assistindo a uma cena se desenrolar em um filme, não vivendo-a.
"Não", eu disse, minha voz mal um sussurro, enquanto Sofia começava a se levantar. "Não vale a pena. Eles não valem a pena." Forcei-me a respirar fundo, a firmar minhas mãos trêmulas. "Vamos embora. Já tive o suficiente desse show."
Levantei-me, as costas retas, a cabeça erguida. Eu não lhes daria a satisfação de me ver quebrar. Caminhei em direção à saída, minhas amigas me seguindo, seus sussurros raivosos como um zumbido distante.
Assim que cheguei à porta, um garçom, passando apressado, esbarrou acidentalmente no meu braço ferido. Os pontos recém-feitos se romperam, uma dor aguda e lancinante irrompendo através de mim. Ofeguei, tropeçando, meu rosto empalidecendo. Minha antiga lesão no ombro, ainda dolorida por anos de acrobacias exigentes, se manifestou em protesto, me deixando desajeitada. Não consegui me apoiar totalmente.
Minha mão voou para o meu braço, o carmesim florescendo no meu vestido branco imaculado. A dor era cegante, uma agonia aguda e branca que fez minha visão turvar.
"Meu Deus, Alana!", gritou Clara, correndo para o meu lado.
Kaila, vendo a comoção, correu, o rosto uma máscara de falsa preocupação. "Ah, Alana! Você está bem? Você é tão desajeitada! Deixe-me te ajudar." Ela estendeu a mão para mim, seu toque surpreendentemente áspero, como se pretendesse me empurrar novamente.
"Fique longe dela, sua cobra!", rugiu Sofia, me afastando de Kaila, seus olhos cuspindo fogo. "Você causou isso, não foi? Você está sempre causando problemas para a Alana!"
Kaila recuou, os olhos arregalados e inocentes. Ela se virou para Heitor, o lábio inferior tremendo. "Heitor, elas são sempre tão más comigo! Eu só estava tentando ajudar!"
Heitor, que observava a cena com uma expressão distante, deu um passo à frente. Seus olhos, geralmente tão frios, agora tinham um brilho de algo, um aperto quase imperceptível nas bordas. Mas seu olhar estava fixo em Kaila, não em mim. Ele colocou um braço em volta dela, puxando-a para perto. "Kaila, você está bem?", murmurou ele, acariciando seu cabelo. Ele nem sequer olhou para o meu braço sangrando.
"Não é nada, Heitor", Kaila fungou, aninhando-se em seu peito. "Apenas a Alana sendo dramática de novo. Ela está sempre tentando fazer uma cena."
Heitor então se virou para mim, seu olhar varrendo meu vestido rasgado, meu braço sangrando. Uma breve, quase imperceptível, carranca franziu sua testa. Ele não ofereceu ajuda, não se aproximou. Em vez disso, ele enfiou a mão na carteira, tirou um maço grosso de dinheiro e o pressionou na mão de Sofia. "Aqui. Para as despesas médicas dela. E um vestido novo." Sua voz era plana, desdenhosa. "Mantenha-a longe da Kaila."
As palavras foram como um tapa na cara. Dinheiro. Ele achava que podia comprar minha dor, minha humilhação. Meus olhos arderam, mas engoli as lágrimas, endurecendo minha determinação.
"Fique com isso", rosnei, afastando a mão de Sofia, a dor no meu braço esquecida diante de seu desprezo absoluto. "Não preciso da sua caridade, Dr. Magalhães."
Ele ergueu uma sobrancelha, um sorriso frio e zombeteiro tocando seus lábios. "Ah? Pensei que atrizes estivessem sempre procurando uma esmola. Ou é uma quantia maior que você está atrás? Talvez eu tenha subestimado seu preço." Ele pegou seu talão de cheques, rabiscou um valor, depois o rasgou e me ofereceu. "Cinquenta mil. É o suficiente para satisfazer suas... tendências dramáticas?"
Suas palavras eram veneno, pingando desdém. Meu rosto corou com uma mistura de vergonha e fúria. Ele achava que eu estava vendendo minha dor, minha dignidade. Ele achava que eu era apenas mais uma atriz gananciosa, tentando capitalizar um momento de fraqueza. O corte no meu braço latejava, mas não era nada comparado à laceração que ele acabara de infligir em minha alma.
Minha voz era mal um sussurro, grossa de lágrimas não derramadas. "Você acha... você acha que eu valho tão pouco?"
"Acho que você está fazendo uma cena, Alana", disse ele, seus olhos duros. "Pegue o dinheiro e vá embora. Antes que você cause mais danos."
Uma névoa vermelha desceu. Minha visão se estreitou. A dor, a humilhação, os anos de sofrimento silencioso nas mãos da minha família, tudo convergiu em um único e ardente ponto de raiva. "Danos?", minha voz era rouca, tremendo de fúria mal contida. "Você quer falar sobre danos, Dr. Magalhães? Que tal falarmos dos seus? Ou melhor, dos da Kaila." Apontei para o meu braço, para o sangue manchando meu vestido. "Isso? Isso não é nada. Mas e se eu pedisse olho por olho? E se eu exigisse infligir a mesma ferida na Kaila que você tão prontamente descartou em mim?"
Os olhos de Heitor, antes frios, agora brilhavam com um fogo perigoso. Ele se moveu rapidamente, colocando-se totalmente na frente de Kaila, protegendo-a completamente. Sua voz era um rosnado baixo. "Nem pense nisso, Alana. Não vou deixar você machucá-la."
Meu coração, já uma bagunça estilhaçada, se partiu ainda mais. Ele a protegeria, mesmo de uma ameaça hipotética. Mesmo quando eu estava sangrando, bem na frente dele. Ele sempre a escolheria. Sempre.
O último brilho de esperança, de anseio, morreu uma morte fria e rápida. Meu amor por ele, antes um fogo consumidor, virou pó, cinzas. Estendi a mão, arranquei o cheque de sua mão, meus dedos roçando os dele. Ele se encolheu, como se meu toque fosse repulsivo.
"Tudo bem", eu disse, minha voz desprovida de toda emoção, um eco oco no restaurante subitamente silencioso. "Cem mil. Tudo bem. Considere meu cachê por fazer parte do seu pequeno show. E do da sua irmã." Amassei o cheque na mão. "Mas esta é a última vez, Dr. Magalhães. A última vez que você me verá."
Virei-me, a cabeça erguida, ignorando a dor latejante, as lágrimas ardentes. Ignorando-o. Minhas amigas, seus rostos pálidos de choque e raiva, correram para o meu lado.
"Alana, não dê ouvidos a ele! Ele é um monstro!", gritou Sofia, sua voz embargada de emoção.
"Está tudo bem", eu disse, um sorriso fraco e triste tocando meus lábios. "Acabou agora." Eu podia sentir os olhos deles nas minhas costas, os dele e os dela. Mas não me virei. Não podia. A mulher que amava Heitor Magalhães se fora. Enterrada. E uma nova, mais fria, mais dura, estava renascendo das cinzas.