Naquele momento, flashes invadiram minha mente. Imagens de Fabrício. A primeira vez que o vi, tão frio, tão distante. Ele era meu tutor, meu carcereiro. Eu o odiava. Mas então, seus beijos, seus toques. "Minha Joia", ele sussurrava em meu ouvido, e eu acreditava que era um apelido de carinho, não de posse. Nossas noites secretas, a sensação de pertencimento, de ser desejada.
Então, o último flash. Fabrício me ignorando, correndo para Jessica, protegendo-a. A voz dela ecoando: "Ele me prometeu que te destruiria por mim." A escuridão me engoliu novamente.
Acordei em uma cama de hospital, o cheiro de antisséptico invadindo minhas narinas. Meu corpo estava pesado, dolorido. Tentei me mover, mas cada músculo protestou. A luz do quarto era fraca, e vozes sussurradas vinham do corredor.
"Ela está tão assustada, Fabrício. Você a salvou. Você é o meu herói." Era Jessica, sua voz infantil e chorosa.
"Shh, meu amor. Está tudo bem. Eu estou aqui. Você está segura", Fabrício respondeu, sua voz suave, cheia de uma ternura que eu nunca havia escutado.
Meu coração se apertou. Ele estava sendo tão gentil com ela. Aquele era o Fabrício que eu sonhava ter.
"Fabrício", Jessica continuou, a voz ainda mais fraca. "Se houvesse um incêndio, você me salvaria primeiro, certo? Mesmo que Taisa estivesse lá?"
Houve um breve silêncio. Meu coração bateu forte, ansioso pela resposta.
"Jessica", Fabrício disse, a voz firme, mas ainda suave. "Você é frágil. Você precisa de mim. Taisa é forte. Ela sempre se vira. Eu sempre te salvaria primeiro."
Aquelas palavras me atingiram como facadas. Ele havia dito isso na festa, mas agora, ouvindo-o confessar com aquela voz terna, era mil vezes pior. Eu era forte, eu me virava. E por isso, eu era descartável. A dor na minha alma era mais profunda do que qualquer ferida física.
A porta se abriu suavemente, e Fabrício entrou. Seus olhos varreram o quarto, encontrando os meus. Não havia culpa em seu rosto, apenas cansaço. "Você acordou", ele disse, a voz monótona. "Os médicos disseram que você teve sorte. Algumas costelas quebradas, uma concussão leve. Você vai se recuperar."
Ele tentou se aproximar, mas eu virei o rosto. "Não precisa ficar", eu disse, a voz fraca. "Vou pagar minhas próprias contas. Não devo nada a você."
Ele parou, a expressão confusa. "Não deve? Taisa, eu te trouxe para cá."
"E eu agradeço. Agora, por favor, vá. Eu não quero sua caridade." Minha voz era fria, cortante.
Fabrício ficou em silêncio por um longo momento, seus olhos escuros me observando. "Não é caridade, Taisa. Eu..." Ele parou, a frase inacabada. Ele não conseguia dizer que se importava.
Ele ficou. Nos dias seguintes, Fabrício permaneceu no hospital, um guardião silencioso. Ele trazia flores, frutas, e se sentava ao meu lado, tentando manter uma conversa. Eu o respondia com monossílabos, meus olhos vazios, meu coração fechado. Eu era uma casca vazia.
Ele notou minha frieza. "Taisa, você não está brava? Depois de tudo o que aconteceu?"
"Por que eu estaria brava, Fabrício?", eu respondi, a voz sem emoção. "Você fez o que era lógico. Jessica é frágil, eu sou forte. É uma questão de prioridade, não é? Você mesmo disse."
Ele hesitou, seus olhos buscando os meus. "Eu... eu estava apenas protegendo Jessica. É minha obrigação."
"Eu entendi", eu disse, interrompendo-o. "Compreendi perfeitamente. Não há necessidade de explicar."
"Mas você... você realmente não se importa?", ele perguntou, a voz hesitante.
Eu o encarei, meu rosto inexpressivo. "Devia me importar?"
Naquele momento, uma enfermeira invadiu o quarto. "Senhor Rolim! É a Senhorita Magalhães! Ela caiu e está sangrando muito!"
Fabrício se levantou imediatamente, o rosto pálido. "Onde ela está?" Ele correu para fora, sem sequer olhar para trás. "Eu volto logo, Taisa!"
Fechei os olhos. A dor da rejeição era uma velha amiga agora. Ele sempre voltaria para Jessica. Ela sempre seria a prioridade. Eu era apenas o acessório substituível. Eu não era mais "Minha Joia". Eu era uma pedra no caminho.
Eu não precisava da sua compaixão. Eu não precisava do seu amor. Tudo o que eu precisava era da minha liberdade. E eu a teria.