O leilão começou, e cada lance era um martelo batendo em minha alma. Eu esperava, o corpo tenso, os olhos fixos no palco. Finalmente, o colar da minha mãe foi anunciado. A joia mais preciosa que eu possuía, um elo com a única pessoa que já me amou de verdade, agora estava sendo vendida como se fosse um objeto qualquer.
"Duzentos mil!", eu gritei, erguendo a mão, a voz tremendo.
Jessica virou-se para mim, um sorriso vitorioso em seu rosto. "Trezentos mil!", ela gritou, sem hesitar.
A sala explodiu em sussurros. Eu continuei. "Quatrocentos mil!"
"Quinhentos mil!", Jessica respondeu, sem sequer olhar para o meu pai. Ela tinha dinheiro, muito dinheiro, o dinheiro que meu pai havia desviado da empresa para ela.
Aumentamos os lances, cada um mais alto que o anterior. Minhas mãos suavam. Eu estava chegando ao meu limite. Meu advogado havia conseguido uma quantia considerável, mas não era ilimitada. Jessica, no entanto, parecia ter um poço sem fundo. Ela ria, seus olhos dançando de alegria com a minha agonia.
"Um milhão!", ela gritou, a voz triunfante.
Eu não podia mais. Minha garganta estava seca, meu coração batendo forte. Virei-me para Fabrício, meus olhos implorando. "Fabrício, por favor. É o colar da minha mãe. É a única coisa que me restou dela. Por favor, me ajude."
Ele me olhou, seus olhos escuros indecifráveis. Havia uma pontada de hesitação em seu rosto. Meu coração se encheu de uma esperança tola.
Jessica, percebendo a hesitação dele, agarrou seu braço. "Fabrício, meu amor, não a escute. É apenas uma joia antiga. Eu quero tanto. É meu presente de boas-vindas. Você não vai me negar, não é?" Seus olhos se encheram de lágrimas falsas. "Por favor, diga a ela para parar. Eu sou frágil. Essa briga está me machucando."
O olhar de Fabrício oscilou entre mim e Jessica. "Taisa", ele disse, sua voz fria e firme. "Deixe-a ter o colar. É apenas uma joia."
Meu mundo desabou. Outra vez. Completamente. As palavras dele ecoaram em minha mente, uma sentença de morte para a última centelha de esperança que eu tinha. "É apenas uma joia." Para ele, era apenas um objeto. Para mim, era minha mãe.
O leiloeiro bateu o martelo. "Vendido! Para a senhora Jessica Magalhães!" Os aplausos foram um som distante. Jessica sorriu para mim, um sorriso de vitória. "Obrigada, Taisa", disse ela, com falsa doçura. "Você tornou isso muito mais divertido."
Fabrício se levantou e foi até Jessica, a abraçou e a beijou no rosto. Minha alma foi rasgada em pedaços. Eu fiquei ali, sozinha, em meio à multidão que me observava com curiosidade e pena. A vergonha e a dor me sufocavam.
Após o leilão, eu estava sentada em um canto escuro, o corpo tremendo, a alma em carne viva. Jessica se aproximou, o colar da minha mãe em suas mãos. "Você ainda quer?", ela perguntou, com um sorriso cruel.
Eu a encarei. "Eu te dou tudo o que tenho. Todas as ações que meu pai me tirou, minhas poupanças, tudo. Apenas me dê o colar." Eu estava desesperada.
Ela gargalhou, uma risada fria e sem alma. "Não. Eu não quero seu dinheiro sujo. Eu quero ver você implorar. Eu quero ver você de joelhos."
Meu sangue gelou. Eu a odiava. Eu a odiava com cada fibra do meu ser. Mas eu precisava do colar. Eu me ajoelhei, a humilhação queimando meu rosto. "Por favor, Jessica. Por favor..."
Ela me olhou, seus olhos brilhando de triunfo. "Patético. E para que você quer uma joja tão sem graça? Ela já não é a mesma. Eu já a modifiquei. Está velha, fora de moda." Ela pegou o celular e me mostrou um vídeo.
O colar da minha mãe estava sendo desmantelado. Um ourives martelava as pérolas, quebrando-as em pedaços. Os diamantes eram arrancados, um por um. O vídeo mostrava um martelo esmagando as pérolas, a joia da minha mãe sendo reduzida a pó. O ourives, em seguida, pegou os pedaços de pérolas e os jogou no lixo, enquanto a voz de Jesssica zombava: "Sua mãe era uma mulher patética, Taisa. Assim como você. Ela não era nada. E o Fabrício? Ele também pensa assim. Ele me disse que eu sou a verdadeira relíquia. A joia."
Meu sangue congelou. Ela não apenas destruiu o colar, ela insultou minha mãe, a única pessoa que eu amei incondicionalmente. A raiva me consumiu. Uma raiva fria, incontrolável. Eu não era mais a Taisa ingênua que implorava por amor. Eu era uma fera.
Peguei uma faca que estava em uma das mesas de buffet, e com um movimento rápido e certeiro, finquei-a na mão de Jessica. Ela soltou um grito de horror, o sangue jorrando.