Dentro havia um lenço manchado com três gotas de sangue seco e marrom.
Nosso juramento.
Segurei-o sobre o calor.
O veludo soltou fumaça instantaneamente.
"Elena!"
O grito veio da entrada de carros.
Eu não me virei.
Deixei a bolsa cair.
Ela desapareceu no inferno laranja no exato momento em que pneus cantaram no cascalho.
Portas de carro bateram.
Observei o fogo se enrolar no tecido, transformando o pacto de sangue em cinzas.
"Que porra você está fazendo?" A voz de Matteo era áspera, sem fôlego.
Ele agarrou meu ombro e me virou.
Ele ainda estava de smoking do baile, a gravata desfeita, parecendo o executor imprudente que nasceu para ser.
Luca estava logo atrás dele, seus olhos examinando o fogo.
"Aquelas são... aquelas são as cartas?", Luca perguntou, seu rosto empalidecendo.
"Eram só tralha", eu disse.
Minha voz soou vazia.
Morta.
"Tralha?" Matteo soltou meu ombro como se eu o tivesse queimado. "Essa é a nossa história, El."
"História é só um registro de coisas que não importam mais", respondi.
Dei um passo para trás, limpando o lugar onde ele havia me tocado.
"Vimos o alerta biométrico", disse Luca, dando um passo à frente. "Você mudou os códigos da Ala Oeste. Sofia não conseguiu entrar para devolver as pérolas."
"Deixa ela ficar com elas", eu disse. "Estão contaminadas agora. Ela pode ficar."
"Contaminadas?" Matteo franziu a testa. "Ela não é uma doença, Elena. É só uma garota tentando se virar. Por que você está sendo tão cruel?"
"Cruel?" Olhei-o nos olhos. "Você deu a uma estranha a combinação de um cofre Vitiello. Você sabe o que o Pai faria com você se descobrisse?"
Luca se encolheu. "Sabíamos que você não contaria a ele. Porque você nos ama."
Ele usou meu amor como um escudo para proteger sua traição.
"Vou entrar", eu disse.
"Nós vamos jantar", Luca retrucou, bloqueando meu caminho. "Nós três. E a Sofia. Precisamos resolver isso. Você está surtando."
"Não estou com fome."
"Você vai", Matteo rosnou, sua mão se movendo para a arma sob o paletó. "Não me faça te carregar."
Ele faria isso.
Ele já tinha feito antes, de brincadeira.
Agora, parecia uma ameaça.
"Tudo bem", eu disse.
O restaurante era mal iluminado e cheirava a alho e vinho caro.
Sofia já estava sentada na melhor mesa.
Ela acenou, as pérolas - as pérolas da minha mãe - brilhando em seu pescoço.
"Pedi para todo mundo!", ela disse animada quando nos sentamos.
Luca deslizou para o sofá ao lado dela.
Matteo sentou na cadeira oposta.
Eu sentei na ponta, exilada para a periferia.
"Pedi o arrabbiata apimentado para a mesa", disse Sofia, radiante. "É a especialidade deles. Com pimenta extra."
Eu congelei.
Luca e Matteo congelaram.
Eles sabiam.
Eles sabiam que eu tinha uma úlcera gástrica severa.
Comida apimentada não apenas doía; me mandava para o hospital.
Era uma fraqueza que eu escondia do mundo, uma fraqueza que apenas meus protetores sabiam para que pudessem provar minha comida.
"Parece ótimo, Sof", disse Luca, sorrindo para ela.
Ele pegou o garfo.
Matteo assentiu, servindo vinho para Sofia. "É, boa escolha."
Meu estômago se contraiu, não pela úlcera, mas pela náusea da constatação.
Eles não apenas esqueceram.
Eles não se importavam.
O garçom colocou uma travessa fumegante de massa vermelha e raivosa no centro.
O cheiro de pimenta atingiu meu nariz, forte e ácido.
"Come, Elena", disse Sofia, seus olhos grandes e inocentes. "Não seja mal-educada."
Olhei para Luca.
Ele estava ocupado rindo de algo que Sofia sussurrou.
Olhei para Matteo.
Ele estava observando Sofia comer, um sorriso bobo no rosto.
Meus provadores designados.
Meus escudos.
Peguei meu copo de água.
"Não estou com fome", eu disse baixinho.
"Como quiser", Matteo resmungou, de boca cheia. "Mais para nós."
Tomei um gole de água.
Estava fria, limpa, e a única coisa nesta mesa que não estava tentando me envenenar.
Observei-os rir.
Eles pareciam uma família.
E eu parecia o fantasma assombrando o jantar deles.