Agora, só me deixava desconfiada.
"O inverno está chegando", eu disse, verificando o caimento no espelho.
"Você tem vinte casacos", ele disse. "Por que precisa deste? Parece uma armadura."
"Talvez eu precise de uma armadura."
Entreguei o cartão black para a vendedora sem olhar para trás.
"Pode embrulhar."
Saímos para o SUV blindado que esperava na calçada.
Matteo estava no banco do motorista.
Sofia estava no banco do passageiro.
Meu lugar.
O lugar onde o Oficial de Proteção Principal se sentava.
Era uma quebra de protocolo tão flagrante que beirava a piada.
Abri a porta de trás e deslizei para o couro.
"Oi, Elena!" Sofia se virou, exibindo um sorriso que não alcançava seus olhos. "Meu senhorio disse que a atividade de gangues perto do meu apartamento está piorando. Alguém foi baleado na esquina."
Ela estremeceu dramaticamente.
"Que terrível", eu disse, rolando o feed do meu celular, verificando o tempo no Rio.
"É perigoso", disse Luca, entrando ao meu lado. "Não podemos deixá-la ficar lá."
"Então a mude de lugar", eu disse sem levantar o olhar.
"Estávamos pensando", disse Matteo, encontrando meus olhos no retrovisor. "O apartamento de segurança na Rua Augusta está vazio."
Minha cabeça se ergueu bruscamente.
O apartamento de segurança da Augusta não era apenas um apartamento.
Era reservado para homens feitos e família de sangue.
Era para onde íamos quando as famílias rivais colocavam um preço em nossas cabeças.
"Não", eu disse.
"Por quê?", Sofia fez beicinho. "É só um apartamento para você, não é?"
"É um santuário", eu disse. "Para a família. Você não é da família."
"Ela está conosco", disse Luca, sua voz dura. "Isso a torna família."
"Desde quando um soldado decide quem é sangue Vitiello?", perguntei.
"Desde que você parou de ter um coração", Matteo cuspiu. "Vamos mudá-la para lá esta noite. Já liberamos com o chefe de turno."
Eles usaram meu nome.
Eles usaram minha autoridade para contornar o Capo.
"Tudo bem", eu disse. "Façam o que quiserem."
Voltei para o meu celular.
Eu não estava mais lutando por território.
Eu estava abandonando o mapa por completo.
Quando voltamos para a mansão, havia um pacote esperando no hall de entrada.
Estava embrulhado em papel pardo com selos italianos.
Meus pais.
Eles estavam na Itália a negócios, finalizando a transferência de bens para a minha mudança, embora os meninos não soubessem disso.
O pacote havia sido rasgado.
Um som estridente encheu o corredor.
Entrei na sala de estar.
Sofia estava segurando o violino.
Era um Guarneri do século XVII, um presente do meu avô para o meu pai, e agora para mim.
Valia mais do que a vida de Sofia.
Ela estava arrastando o arco pelas cordas, segurando-o pelo braço como se fosse uma guitarra de brinquedo barata.
"Olha, estou tocando!", ela riu.
Luca e Matteo estavam sentados no sofá, aplaudindo.
"Pare."
Minha voz não era alta, mas cortou a sala como uma lâmina.
Sofia congelou.
"Dê para mim", eu disse, estendendo a mão.
"Pensei que fosse para a casa", disse Sofia, agarrando o instrumento contra o peito. "Tipo, decoração."
"É uma antiguidade", eu disse, dando um passo à frente. "Entregue. Agora."
Ela recuou, seus olhos se voltando para os meninos.
"Você está me assustando", ela choramingou.
"Elena, recua", Matteo avisou.
"Me dê o violino, Sofia", eu disse.
Ela sorriu de canto.
Foi um movimento minúsculo, quase imperceptível de seus lábios.
Ela afrouxou o aperto.
O violino escorregou de suas mãos.
O tempo pareceu desacelerar.
Eu me lancei para pegá-lo.
Mas eu estava longe demais.
A madeira atingiu o chão de mármore com um estalo doentio.
O braço quebrou-se limpamente do corpo.
As cordas zumbiram uma nota dissonante e moribunda.
Silêncio.
"Ops", Sofia sussurrou, a mão sobre a boca. "Escorregou."
Olhei para a madeira estilhaçada.
Era a única coisa que meu avô já me dera.
Olhei para Sofia.
E pela primeira vez na minha vida, a Rainha de Gelo derreteu.
E por baixo havia fúria pura e fervente.