O céu estava num tom de ardósia machucada no dia da minha alta.
Meu braço estava apoiado numa tipoia, os curativos sob o casaco grossos, coçando e pesados contra minha pele em cicatrização.
Passei pelas portas de vidro deslizantes da clínica, me preparando para o frio úmido.
Eu esperava o motorista do meu pai.
Em vez disso, um SUV preto estava parado na calçada.
Luca e Matteo estavam encostados nele, casuais como abutres.
Suas mãos ainda estavam enfaixadas por causa do fogo.
"Vamos te levar para casa", disse Matteo.
Ele abriu a porta de trás, esperando obediência.
Eu não me movi.
"Eu tenho uma carona."
"Nós o mandamos embora", disse Luca, seu tom não deixando espaço para discussão. "Entra, Elena. Não faça uma cena."
Olhei ao redor.
A chuva estava engrossando, picando meu rosto.
Eu não tinha energia para travar uma guerra na calçada.
Trincando os dentes, entrei.
O carro cheirava a couro caro e culpa silenciosa.
No banco ao meu lado, havia uma caixa de chocolates gourmet e um pote de creme para queimaduras La Mer.
Dois mil reais em creme para consertar uma cicatriz que eles assistiram acontecer.
Empurrei os itens para o lado com minha mão boa.
Algo amassou na fresta do assento.
Eu o puxei.
Era um post-it neon.
Trono da Sofia - Não ajustar as configurações do banco :)
Amassei o bilhete numa bola apertada e o joguei no tapete do carro.
"Precisamos falar sobre a faculdade", disse Luca, me observando atentamente no retrovisor. "Vimos que você ainda não confirmou sua matrícula na USP."
"Eu tenho planos", eu disse, olhando para a janela manchada de chuva.
"Bom", disse Matteo. "Porque estávamos pensando... talvez a Sofia pudesse dividir o quarto com você no dormitório? Só no primeiro semestre. Até ela se sentir segura."
Eu ri.
Não pude evitar.
Borbulhou do meu peito, doloroso, sombrio e irregular.
"Você quer que a garota que acendeu o fósforo durma no meu quarto?"
"Isso mostraria união", Luca contrapôs suavemente. "Impediria as pessoas de falarem."
"Pergunte à Sofia", eu disse. "Pergunte a ela onde ela acha que pertence."
O carro não foi para casa. Em vez disso, parou na frente da escola preparatória.
Era o dia da cerimônia de formatura.
Eu era a oradora da turma.
Eu deveria fazer o discurso de abertura.
"Temos uma surpresa", disse Matteo enquanto o motor desligava.
Entorpecida, eu os segui para o auditório.
As luzes estavam fracas, o ar zumbindo de antecipação.
Um holofote cortou a escuridão para atingir o palco.
De pé no pódio, usando a faixa dourada que eu havia conquistado, estava Sofia.
Ela não estava apenas usando a faixa. Ela estava usando meu vestido feito sob medida.
"Bem-vindos, turma de 2024!", ela disse animadamente no microfone, sua voz doentiamente doce.
A multidão aplaudiu educadamente.
Congelei no corredor, o fôlego arrancado de mim.
"Nós mexemos uns pauzinhos", Luca sussurrou, inclinando-se perto do meu ouvido. "Ela teve uma semana difícil. Com o susto nas docas... ela precisava de um impulso na confiança. Sabíamos que você não se importaria em abrir mão do discurso. Você odeia falar em público de qualquer maneira."
Eu não odiava falar em público.
Eu era excelente nisso.
Eu havia praticado aquele discurso por semanas na frente de um espelho, aperfeiçoando cada cadência.
"Ela parece feliz", disse Matteo, sorrindo orgulhosamente para o palco.
Eles me tiraram a voz para dar a ela um microfone.
Eu me virei.
"Onde você vai?", Luca perguntou, agarrando meu braço bom.
"Ao banheiro", menti.
Saí do auditório.
Passei pelo banheiro.
Saí direto pelas portas da frente e chamei um táxi.
Não olhei para trás, para o palco.
Não olhei para trás, para eles.