Estávamos no centro do leilão de caridade. O salão de baile era sufocante, denso com o perfume e o julgamento das mesmas pessoas que o viram me deixar no altar apenas dois dias atrás.
Agora, ele estava comprando meu perdão, um lance de cada vez.
"Vendido para o Sr. Moretti por duzentos mil!", bradou o leiloeiro.
Dante apertou minha cintura, seus dedos cravando na minha pele.
"Viu? Eu te dou tudo o que você quer."
Ele não estava comprando presentes para mim. Ele estava comprando silêncio. Estava comprando a imagem do Don benevolente que mima seu bichinho de estimação leal.
"Preciso ir ao banheiro", murmurei, lutando contra uma onda de tontura.
Ele me soltou imediatamente.
"Volte logo. A imprensa quer fotos."
Afastei-me, minhas pernas tremendo a cada passo. A incisão recente no meu lado queimava como fogo contra a seda do meu vestido.
Entrei no santuário do banheiro feminino. Estava vazio, ou assim pensei.
Agarrei a pia de mármore fria, encarando meu reflexo pálido e fantasmagórico.
A fechadura clicou atrás de mim.
Eu a vi no espelho antes de me virar. Sofia.
Ela usava um vestido branco - sempre branco, como se fosse uma santa virgem em vez de uma parasita.
"Você parece cansada, Elena", disse ela, encostando-se casualmente na porta. "O rim faltando está te incomodando?"
Não me virei. Não suportava olhar para ela.
"Saia da minha frente, Sofia."
"Ele te abriu por mim", disse ela, sua voz pingando mel venenoso. "Eu nem pedi, sabe. Eu só chorei um pouco sobre a dor, e ele te ofereceu como um cordeiro sacrificial. Ele te eviscerou para me manter inteira."
Abri a torneira. A água fria correu sobre minhas mãos trêmulas.
"Aproveite. É a única parte de mim que você terá."
"Ah, eu tenho todo ele", ela riu, aproximando-se. O som ecoou nos azulejos.
"Você sabe por que ele te fez abortar aquele bebê há três anos? Não foi por causa do momento. Foi porque a ideia do seu sangue se misturando com o dele me deixava doente."
Minha respiração falhou.
"Eu disse a ele que não conseguia comer, não conseguia dormir se houvesse um bastardo por aí", ela sussurrou. "Então ele o matou."
Minhas mãos pararam de se mover. A água corria límpida, mas tudo que eu via era vermelho.
"Você é um monstro", sussurrei.
"Eu sou a Rainha", ela corrigiu, seus olhos brilhando. "E você é apenas as peças de reposição."
De repente, ela levantou a mão e deu um tapa no próprio rosto. Forte.
O som estalou na sala de azulejos como um tiro.
Ela soltou um grito que acordaria os mortos.
"Socorro! Dante! Me ajude!"
A porta se abriu segundos depois. Dante estava lá, seus olhos selvagens de pânico.
"Ela me bateu!", soluçou Sofia, segurando a bochecha avermelhada. "Eu só queria agradecer pelo rim, e ela me deu um tapa! Ela disse que desejava que eu tivesse morrido na mesa!"
Dante não me perguntou o que aconteceu. Ele não olhou para minhas mãos molhadas ou meu corpo trêmulo.
Ele se lançou sobre mim.
"Sua vadia ingrata", ele rosnou.
Ele me empurrou.
Talvez ele não quisesse me jogar do outro lado da sala. Ele só me queria longe dela.
Mas eu estava fraca. Eu estava com um órgão a menos. Eu não tinha equilíbrio.
Eu voei para trás.
A parte inferior das minhas costas bateu na borda afiada da pia de porcelana.
A agonia explodiu na minha espinha, ofuscante e absoluta. Deslizei para o chão, ofegando por um ar que não vinha.
Senti algo quente e úmido escorrer pela minha perna.
Meus pontos. Ele havia rompido meus pontos.
"Dante", eu ofeguei.
Ele não olhou para baixo. Ele tinha Sofia em seus braços, acalmando-a, verificando seu rosto por uma marca que ela mesma havia colocado ali.
"Estou te levando para casa, querida", ele disse a ela, sua voz terna. "Ela não vai mais tocar em você."
Ele a carregou para fora.
Ele me deixou no chão do banheiro, sangrando em meu vestido de grife, cercada pelo cheiro de sabonete de lavanda e traição.
Fiquei ali por dez minutos, esperando as manchas pretas na minha visão clarearem.
Então, me arrastei para cima.
Saí mancando pela saída de serviço, segurando meu lado. Eu precisava chegar ao carro, mas ao passar pelo salão de fumantes privado, ouvi vozes.
"Você não pode continuar fazendo isso, Dante." Matteo.
"Ela deu um tapa na Sofia", disse Dante. "Ela está fora de controle."
"Sofia deu um tapa em si mesma. Você sabe disso. Eu sei disso. E você acabou de jogar uma mulher que salvou sua vida contra uma pia."
"Eu tenho que proteger a Sofia. Ela é a mãe da minha dinastia."
Eu congelei nas sombras, pressionando-me contra a parede.
"Do que você está falando?", perguntou Matteo.
"Sofia e eu estamos tentando", disse Dante. Sua voz era calma, assustadoramente objetiva.
"Vamos ter um filho. Um herdeiro de sangue puro. Elena... Elena é confortável. Ela administra bem as finanças. Vou me casar com ela para manter os soldados do pai dela, mas ela nunca mais carregará meu filho. O herdeiro vem de Sofia."
"Você está doente", disse Matteo. "Elena vai te deixar."
"Ela é minha propriedade", riu Dante, o som escuro e baixo. "Ela nunca saberá. E mesmo que soubesse, ela me ama demais para ir embora."
Peguei meu celular. Minha mão estava firme agora. A dor me deu uma clareza estranha e gélida.
Gravei os últimos dez segundos.
Ela é minha propriedade. Ela nunca saberá.
Parei a gravação. Salvei na nuvem.
Não voltei para a festa.
Saí para a noite, o sangue secando pegajoso na minha pele, e pela primeira vez em anos, finalmente me senti limpa.