Ponto de Vista de Dante Moretti
A suíte do hotel estava silenciosa, pesada com o zumbido baixo do ar-condicionado.
Eu me sentia bem. Melhor que bem. Sentia um imenso alívio.
Elena tinha ido embora, claro. Estava dando um chilique. Mas ela voltaria. Ela sempre voltava.
Ela só precisava se acalmar. A sopa que ela deixou para trás era a prova - ela estava com raiva, mas ainda me serviu. Ela ainda se importava.
Sofia estava no banheiro, cantarolando baixinho. Tínhamos acabado de transar. Foi... ok.
Mas faltava o desespero que Elena tinha, a intensidade crua. Sofia era de porcelana - frágil na cama, como se pudesse quebrar se eu a segurasse com muita força. Eu tinha que ter cuidado.
"Dante", chamou Sofia. "Vem ver isso."
Entrei no quarto. Ela estava sentada na cama, segurando seu iPad. Seu rosto estava pálido como um fantasma.
"O que foi?"
"Está nos trending topics", ela sussurrou, recusando-se a encontrar meus olhos. "Mundial."
Ela virou a tela para mim.
Era um vídeo. Imagens granuladas e tremidas de um aeroporto na Sicília.
Vi os SUVs pretos primeiro. Falcone.
Então eu o vi. Enzo. Aquele desgraçado arrogante.
E então eu a vi.
Elena.
Ela não estava chorando. Não estava se escondendo. Estava usando jeans e uma jaqueta de couro que eu não reconhecia. Parecia uma estranha. Parecia feroz.
Observei enquanto Enzo Falcone, o homem que tentou me enterrar três vezes, levantava minha Elena em seus braços.
Observei ele a beijar. Observei ela o beijar de volta.
A manchete gritava para mim: NEGÓCIO FECHADO. OS REIS RIVAIS TROCAM DE RAINHAS.
"É falso", eu disse. Minha voz soava distante, como se viesse de debaixo d'água. "É um deepfake. Enzo está brincando."
"Dante", disse Sofia, rolando a tela para baixo. "Tem uma foto da certidão de casamento. É real."
"Não!", eu rugi.
Arranquei o iPad e o esmaguei contra a parede. A tela explodiu em uma chuva de vidro e faíscas.
Procurei meu celular. Minhas mãos tremiam tanto que o deixei cair duas vezes antes de conseguir desbloqueá-lo.
Disquei para Elena.
O número para o qual você ligou não está em serviço.
Bloqueado.
Disquei para Matteo. Caixa postal.
Abri minhas mensagens. Havia uma mensagem não lida de Elena. Enviada há quatro horas.
Eu a abri.
Um arquivo de vídeo. Um documento. E um texto.
Toquei no vídeo primeiro.
Era eu. No salão de fumantes. Ela é minha propriedade. Ela nunca saberá.
O áudio estava nítido. Cortou meu peito como uma lâmina de barbear.
Depois, o documento. O formulário de autorização médica.
Paciente: Elena Vitiello.
Procedimento: Nefrectomia.
Receptora: Sofia Bianchi.
Autorizado por: Dante Moretti (Procuração).
Senti a bile subir na minha garganta.
Ela sabia.
Ela sabia que eu tinha colhido seu rim. Sabia que eu menti sobre o apêndice. Sabia que eu a empurrei.
Li o texto.
Você pertence a ela agora.
O quarto girou. Sentei-me pesadamente na beira da cama, o colchão afundando sob meu peso.
"Dante?", Sofia tocou meu ombro. "O que ela disse? Ela vai voltar para se desculpar?"
Olhei para Sofia. Realmente olhei para ela.
Vi a mulher pela qual destruí minha vida. A mulher para salvar a qual eu abri meu verdadeiro amor.
"Ela sabe", sussurrei. "Ela sabe de tudo."
"E daí?", Sofia deu de ombros, sua expressão displicente. "Ela é só uma ferramenta, Dante. Você mesmo disse. Temos o herdeiro a caminho. Quem se importa se a empregada se demite?"
A empregada.
Elena não era a empregada. Elena era o ar que eu respirava, e eu não percebi até que o quarto se tornou um vácuo.
"Saia", eu disse.