Ponto de Vista de Elena Vitiello
Na manhã seguinte, a cobertura cheirava a alho assado e alecrim.
Era um cheiro doméstico, uma mentira cruel envolta em conforto.
Dante estava sentado na ilha da cozinha, lendo o jornal. Ele não perguntou sobre o sangue no meu vestido da noite anterior. Ele não perguntou por que eu cheguei em casa três horas depois dele.
Para ele, minha dor era invisível. Minha ausência, irrelevante.
"Faça aquela sopa", disse ele sem levantar os olhos. "A minestrone. Sofia está se sentindo fraca depois do choque que você deu nela. Ela precisa de nutrientes."
Ele queria que eu cozinhasse para a mulher que me incriminou. Ele queria que eu nutrisse o corpo que continha meu rim roubado.
Ele queria que eu servisse minha substituta.
"Ok", eu disse.
A palavra era oca, uma cápsula de bala caindo no chão.
Eu fiz a sopa. Piquei os legumes com golpes precisos e rítmicos. A faca batia na tábua de cortar com um baque constante e letal.
Fervi o caldo. Despejei em uma garrafa térmica.
"Aqui", eu disse, deslizando-a pelo balcão de granito.
"Bom", disse ele, pegando-a. "Vou voltar tarde. Não me espere."
Ele saiu para alimentá-la.
A porta se fechou, e o silêncio que ele deixou para trás era pesado, mas não mais sufocante. Era esclarecedor.
Entrei no quarto. Peguei o anel de noivado que ele me deu - o substituto daquele que ele deixou cair. Coloquei-o na mesa de cabeceira.
Parecia frio ali. Insensível.
Saí da cobertura. Não levei mala. Havia enviado meus pertences essenciais para um armário seguro dois dias antes.
Dirigi até nossa antiga escola. Era sábado, e o local estava vazio. Caminhei até o velho carvalho perto do campo de futebol.
Gravado na casca, desgastado por dez anos de invernos paulistanos, havia um coração. Elena + Dante.
Tirei um canivete do bolso. Não chorei. Apenas entalhei. Raspei a casca até meus dedos ficarem empolados, até a madeira ficar em carne viva e os nomes não serem nada além de serragem no chão.
Eu nos apaguei.
Em seguida, a ponte. Não aquela onde ele me deixou cair. A Ponte dos Cadeados no centro.
Encontrei o cadeado que havíamos prendido lá quando eu tinha dezoito anos. Estava enferrujado. Usei um alicate de corte. O metal se partiu com um estalo agudo e violento.
Joguei-o no rio. Fez um pequeno splash e desapareceu nas profundezas turvas.
Finalmente, o templo. O templo budista na Liberdade onde eu costumava rezar pela segurança dele toda semana. Eu havia amarrado centenas de fitas vermelhas lá ao longo dos anos, implorando ao universo para manter Dante Moretti vivo.
Caminhei até o muro de orações.
E lá estava ele.
Dante. Com Sofia.
Congelei atrás de um pilar. Ela estava tomando a sopa que eu fiz.
"Paguei aos monges para limparem o muro", Dante dizia a ela, sua voz suave, um tom que ele costumava guardar para mim. "Para abrir espaço para nossas novas orações. Para nosso filho."
Observei enquanto um monge varria uma pilha de fitas vermelhas para um saco de lixo. Minhas fitas. Dez anos de minhas orações, tratadas como lixo para dar espaço às mentiras dela.
Virei-me e fui embora. Eu não precisava mais rezar. Os deuses estavam mortos, e fui eu quem os enterrou.
Dirigi até o Aeroporto de Guarulhos.
Sentei-me no terminal, observando os aviões decolarem. Meu celular parecia pesado na minha mão, como uma granada com o pino puxado.
Era a hora.
Abri o contato de Dante. Anexei o vídeo dele e de Sofia no salão de fumantes. Anexei o arquivo médico provando que ele autorizou a colheita do rim. Anexei o recibo da clínica de aborto de três anos atrás.
Digitei uma mensagem.
Eu sei sobre o rim. Eu sei sobre o aborto. Eu sei sobre o herdeiro. Eu sei que você me empurrou. Eu sei que você me deixou cair. Cansei de pagar o dízimo, Dante. Você pertence a ela agora. Não me procure.
Apertei enviar.
Então bloqueei o número dele. Bloqueei Matteo. Bloqueei meu pai.
Tirei o chip do meu celular e o quebrei ao meio.
"Voo 828 para a Sicília, embarque imediato", anunciou o interfone.
Levantei-me. Caminhei pelo túnel de embarque. Não olhei para trás, para o horizonte da cidade. Não olhei para trás, para a fumaça e a ruína.
Eu não era mais o sacrifício.
Eu era o fogo.