Apertei o volante de couro até os nós dos meus dedos ficarem brancos.
Estou chegando, El. Apenas espere.
Derrapei na esquina da Avenida Paulista, os pneus soltando fumaça contra o asfalto. As torres góticas da Catedral da Sé surgiram à frente, perfurando o céu cinzento como o próprio julgamento.
A segurança de Matteo fervilhava na entrada.
Eu não parei. Joguei o carro na calçada, o metal rangendo contra o concreto. Abri a porta antes mesmo de o motor morrer e corri.
"Capo!", um dos guardas gritou, entrando no meu caminho. "Você não pode entrar aí."
"Saia da frente", rosnei. Não diminuí a velocidade. Bati com o ombro em seu peito, fazendo-o tropeçar, e invadi as pesadas portas de carvalho.
A música do órgão me atingiu primeiro. Um acorde profundo e ressonante que vibrou na minha medula.
Depois o cheiro. Incenso e milhares de rosas negras.
Parei derrapando no fundo da nave. Minha respiração vinha em arquejos irregulares.
A igreja estava cheia. Toda a Família de São Paulo estava aqui. Os chefes, os soldados, os políticos que possuíamos.
E lá, no final do longo corredor, estava Matteo.
Ele parecia a morte em um terno sob medida. Alto, largo, irradiando um poder frio que sugava o ar da sala.
E caminhando em direção a ele estava Elena.
Ela era uma visão em seda branca. O vestido era decotado nas costas, revelando a pele cremosa que eu costumava traçar com a ponta dos dedos.
Mas meus olhos se prenderam em outra coisa.
Uma marca preta em sua omoplata. A tatuagem. O M.
Não estava escondida. Estava emoldurada pela renda, exibida como uma marca. Propriedade.
Um murmúrio percorreu os bancos enquanto eu estava ali, ofegante.
"Pensei que Dante disse que ela era amante de Matteo o tempo todo", um soldado sussurrou perto de mim.
"Acho que ele não estava mentindo", outro riu. "Olhe para ela. Ela está caminhando para o Chefão como se tivesse nascido para isso."
Minhas próprias mentiras. Elas estavam se torcendo em volta do meu pescoço, me sufocando.
Observei-a dar outro passo. Ela não olhou para trás. Ela não me procurou.
"Elena!", eu gritei.
O som rasgou o silêncio sagrado. O organista vacilou e parou.
Cabeças se viraram. Centenas de olhos se fixaram em mim.
Elena parou.
Ela não se virou. Apenas parou, suas costas rígidas.
"Pare!", rugi, correndo pelo corredor. "Você não pode fazer isso! Elena!"
Eu estava a meio caminho do altar quando uma parede de músculos me bloqueou.
Meu pai. E atrás dele, os principais executores de Matteo.
"Chega", meu pai sibilou, agarrando minhas lapelas. Seu rosto estava roxo de raiva. "Você já envergonhou esta família o suficiente, Dante."
"Ela é minha", ofeguei, tentando passar por ele. "Ela está cometendo um erro. Ela me ama."
"Ela é a noiva do Chefão", disse minha mãe, saindo do primeiro banco. Seus olhos eram lascas de gelo. "E você está fazendo uma cena."
"Eu não me importo!", gritei, olhando além deles para as costas de Elena. "Elena, olhe para mim!"
Minha mãe se inclinou, sua voz um sussurro venenoso. "Se você der mais um passo, Dante, mandarei remover Sofia do hospital. Permanentemente."
Eu congelei.
A ameaça atingiu como uma bala. Foi a única coisa que conseguiu perfurar a névoa vermelha da minha adrenalina.
Olhei para Elena. Ela estava ao lado de Matteo agora. Ela não se virou. Nenhuma vez.
Matteo olhou para mim. Sua expressão era de completo tédio.
"Prossiga", Matteo disse ao padre.
Meus joelhos fraquejaram. Fiquei ali, contido pelo aperto do meu pai, e observei a mulher que eu amava pegar a mão do monstro que eu chamava de irmão.