Dante: Não olhe pela janela. É só para mostrar. Ela precisa de reafirmação constante ou os médicos dizem que ela vai regredir.
Eu não respondi. Não consegui.
Dante: Estou planejando um pedido de casamento falso. Só para selar a memória. Depois posso começar a desmamá-la. Confie em mim.
Um pedido de casamento falso.
A ironia tinha gosto de cinzas.
Ele me pediu em casamento no banco da frente de um carro, no espaço ofegante entre atentados. Ele jogou uma caixa de anel de veludo no meu colo com as mãos trêmulas e disse: "Deveríamos resolver isso logo."
Para mim, foi uma reflexão tardia. Para ela, ele estava planejando um teatro.
"Donna Elena."
Virei-me. Uma empregada pairava na porta, segurando um tablet.
"O Chefão mandou isto. Ele disse que você deveria aprovar o local."
Peguei o aparelho, meus dedos roçando a tela fria.
Era um arquivo de vídeo.
O interior da Catedral da Sé preencheu a tela, mas não como o mundo a conhecia.
Havia sido transfigurada. Milhares de rosas negras ladeavam o corredor, devorando a luz. Candelabros altos como homens erguiam-se como sentinelas silenciosas, chorando cera sobre a pedra. Era gótico. Sombrio. Opressor.
Era magnífico.
Parecia uma coroação para a Rainha do Submundo.
"É perfeito", sussurrei.
"Quem te mandou isso?"
Sofia estava na porta. Ela havia entrado direto, contornando a segurança com os códigos que Dante, sem dúvida, lhe dera.
Ela espiou a tela, seus olhos se arregalando.
"Uau", ela suspirou. "Isso é... para o casamento de Matteo?"
"Sim", eu disse, minha voz firme.
"Ele deve amá-la muito", Sofia ponderou, um traço de inveja sangrando em seu tom. "Os planos de pedido de casamento de Dante são... fofos. Mas isso? Isso é poder."
Ela não sabia que a noiva era eu.
"Matteo volta amanhã", eu disse, bloqueando a tela e cortando a imagem. "O casamento é em dois dias."
Dante apareceu atrás de Sofia, sua energia frenética.
"Por que você está incomodando a Elena?", ele retrucou para Sofia, embora sua mão repousasse com gentileza praticada em sua cintura.
"Estávamos apenas olhando o local do casamento de Matteo", Sofia respondeu inocentemente.
Os olhos de Dante se voltaram para mim, escuros de irritação.
"Pare de obcecar com o casamento de Matteo", ele disse para mim, sua voz afiada. "Concentre-se no seu papel. Você deveria ser a ex-noiva de luto que apoia a cunhada. Não se perca demais na fantasia de ser a esposa de Matteo, Elena. É assustador."
Ele achava que eu estava interpretando um papel. Ele acreditava que eu estava olhando para o local para me torturar com 'e se'.
"Eu sei o meu papel, Dante", eu disse friamente.
"Bom", ele cortou. "Vamos, Sofia. Temos que ir."
"Onde?", Sofia perguntou, piscando para ele.
"Surpresa", Dante piscou.
Ele a levou embora, deixando-me no silêncio.
Na manhã seguinte, Sofia bateu na minha porta.
"Você tem que vir!", ela gritou, praticamente vibrando de excitação. "Dante está agindo tão estranho. Ele está me levando ao Jardim Botânico. Acho que ele vai fazer!"
"Fazer o quê?", perguntei, fingindo ignorância.
"Pedir em casamento!" Ela agarrou minha mão, seu aperto desesperado. "Por favor, Elena. Eu não tenho família. Você é a coisa mais próxima que tenho de uma irmã. Esteja lá por mim?"
Olhei para ela. A inocência era tão espessa que sufocava.
"Ok", eu disse. "Eu vou."
Eu queria ver.
Eu precisava testemunhar a diferença brutal entre dever e desejo.
Dirigimos até os jardins.
Era um paraíso de peônias rosas e lírios brancos, o ar doce o suficiente para apodrecer os dentes. Música instrumental suave flutuava de alto-falantes escondidos.
Era um conto de fadas.
Dante esperava sob um gazebo coberto de vinhas exuberantes.
Ele parecia bonito. Nervoso.
Quando me viu, sua mandíbula se contraiu. Ele não esperava que Sofia trouxesse uma plateia.
Mas ele não podia quebrar o personagem.
Lentamente, com o peso de mil mentiras pressionando-o, ele se ajoelhou.