"Você está bem?", ele ofegou, seus olhos a examinando freneticamente. "Te atingiu?"
"Minha mão!", ela chorou, mostrando um dedo. Havia uma pequena marca de respingo vermelha, mal do tamanho de uma moeda de dez centavos.
"Precisamos de um médico!", Dante rugiu para o garçom aterrorizado. Ele pegou Sofia no colo, ignorando o vapor que subia de sua própria camisa encharcada.
Ele correu em direção à porta.
Ele passou correndo por mim.
Eu estava sentada na cadeira, congelada.
Meu braço esquerdo estava em chamas.
O respingo não atingiu Sofia porque Dante o bloqueou. Mas o desvio enviou uma onda de óleo fervente em arco pelo meu antebraço e ombro.
Minha pele já estava formando bolhas, o tecido da minha blusa derretendo na carne.
"Dante", sussurrei.
A porta do restaurante se fechou atrás dele. Ele não me ouviu. Ele já tinha ido, acalmando Sofia para que ficasse com ele.
A dor me atingiu um segundo depois. Foi um grito branco e quente que fez minha visão se afunilar em um ponto de escuridão.
Levantei-me, minhas pernas tremendo. O garçom chorava no canto.
"Saia do meu caminho", sibilei.
Saí do restaurante. Não chamei uma ambulância. Não liguei para Dante.
Entrei no meu carro e dirigi com uma mão só até o médico da Família, cerrando os dentes com tanta força que pensei que eles rachariam sob a pressão.
O médico, um velho chamado Dr. Rossi que já havia costurado metade dos mafiosos da cidade, olhou para o meu braço e praguejou baixinho em italiano.
"Segundo grau, beirando o terceiro em alguns pontos", ele murmurou enquanto cortava a camisa. "Isso vai deixar cicatriz, Elena."
"Faça", eu disse. Não aceitei os analgésicos que ele ofereceu. Eu queria sentir. Eu precisava me lembrar disso.
Voltei para a cobertura. Matteo não estava lá.
Sentei-me na beira da cama, lutando para ajustar os curativos novos com uma mão. O silêncio do apartamento era pesado, pressionando meus ouvidos.
Abri meu celular.
Sofia havia postado no Instagram há dez minutos.
Uma foto de Dante em uma cama de hospital, deitado de bruços. Ele parecia pálido, com dor. Sofia segurava sua mão. Seu dedo tinha um pequeno curativo.
Legenda: Meu herói. Ele me salvou do fogo. O verdadeiro amor é sacrifício. <3
Olhei para o meu braço. Os curativos já estavam vazando sangue.
Ele nem sequer olhou para trás.
Percebi então que não era apenas sobre o passado. Não era sobre a memória dela.
Ele a amava. Ele a amava com um desespero que o deixava cego para todo o resto.
Eu era apenas a opção segura. A noiva arranjada. O dever.
Ela era a escolha.
Na manhã seguinte, a campainha tocou.
Dante.
Ele parecia péssimo. Seus movimentos eram rígidos, suas costas obviamente muito enfaixadas sob a camisa larga.
"Elena", ele disse quando abri a porta. "Eu... percebi que não verifiquei como você estava."
Ele viu os curativos no meu braço. Eles iam do meu cotovelo até o meu pescoço.
Seu rosto desmoronou. "Oh, meu Deus. Elena."
Ele entrou, tentando me alcançar. "Por que você não disse nada? Pensei que não tinha te atingido."
"Você não olhou", eu disse simplesmente.
"Eu entrei em pânico", ele gaguejou. "Sofia... ela é tão frágil. O médico disse que o choque poderia resetar a memória dela de novo. Eu apenas reagi."
Ele pegou o celular. "Estou ligando para o melhor cirurgião plástico. Vamos consertar isso. Eu prometo."
Ele tentou tocar meu ombro bom.
"Não toque." Dei um passo para trás, colocando distância entre nós.
"Eu trouxe isso para você." Ele tirou uma caixa de veludo do bolso e a abriu. Um colar de diamantes brilhava lá dentro. "Me desculpe. Vou compensar você. Da próxima vez, eu te protegerei."
"Próxima vez?", eu ri, um som seco e sem humor que arranhou minha garganta. "Você deveria salvá-la, Dante. Você é o amante dela."
"Elena, pare."
"Eu sou a mulher do Chefão", eu disse. "Não preciso da sua proteção. E não quero seus diamantes de culpa."
Peguei a caixa da mão dele e a joguei no corredor.
"Saia."
"Você está com ciúmes", ele disse, balançando a cabeça, fazendo uma careta de dor nas costas. "Você está agindo de forma irracional porque eu a salvei primeiro. É instinto, Elena! Ela é menor, é mais fraca!"
"Ela é quem você quer", eu disse. "Vá para ela."
Bati a porta na cara dele.
Encostei a testa na madeira fria, respirando o silêncio.
Meu celular vibrou. Uma mensagem de Matteo.
Soube do acidente. O garçom já foi resolvido. Você se queimou?
Digitei de volta com um polegar.
Estou bem. Apenas uma cicatriz.
Cicatrizes são lições, ele respondeu. Use-a.
Dante não voltou. Ouvi pelos corredores que ele passou os dois dias seguintes ao lado da cama de Sofia, dando-lhe sopa porque o dedo dela "doía demais para segurar uma colher".
Sentei-me na cobertura, observando as luzes da cidade, sentindo a queimadura latejar no ritmo do meu coração.
A indiferença estava se instalando. Era fria e entorpecente, como anestesia.
Eu não estava mais com raiva.
Eu tinha acabado.