Dormi por três dias, um coma de exaustão.
Quando finalmente acordei, eu estava pronta.
Escolhi uma blusa de seda de mangas compridas - profissional, mas mais importante, opaca o suficiente para esconder as bandagens.
Eu não ia me esconder na casa dos meus pais, lambendo minhas feridas. Eu precisava trabalhar. Eu precisava ser Siena Vitalle, a arquiteta, não a ex-noiva fugitiva.
Candidatei-me à Falcone Enterprises.
Foi uma jogada ousada; os Falcone eram os rivais declarados da Família de São Paulo.
Mas sua divisão de construção era legítima e, simplesmente, eles eram os melhores.
Entrei no arranha-céu de vidro na Barra da Tijuca, sentindo-me pequena contra a escala da cidade.
O saguão era elegante, moderno e intimidador.
Eu estava esperando o elevador quando um homem parou ao meu lado.
Ele era alto. Mais alto até que Dante.
Ele usava um terno azul-marinho que se ajustava à sua estrutura larga com precisão sob medida. Ele tinha cabelo escuro, um pouco comprido, e olhos da cor de uísque âmbar.
Ele não estava olhando para o celular. Ele estava olhando para mim.
"Subindo?", ele perguntou.
Sua voz era profunda, com um tom mais áspero em comparação com o tom aveludado de Dante.
"Sim", eu disse, meu aperto na minha pasta se intensificando.
Ele estendeu a mão e apertou o botão para o último andar. A suíte executiva.
Apertei o botão para o 20º. RH.
Ele olhou para o botão, depois de volta para mim, seu olhar calculista.
"Entrevista?"
"Sim."
"Boa sorte", disse ele, embora soasse menos como um desejo e mais como uma previsão.
As portas se abriram no 20º andar.
Eu saí.
"Obrigada", eu disse.
Ele segurou a porta aberta por um segundo a mais, seu olhar demorando no meu rosto como se o estivesse memorizando.
Entrei no escritório do RH, meu coração batendo em um ritmo estranho.
A entrevista correu bem. Deixei meu trabalho falar por si - meus projetos, os números da Divisão Internacional.
A diretora de RH parecia impressionada.
"Espere aqui", disse ela, levantando-se. "Preciso mostrar isso ao CEO. Ele está pessoalmente interessado na nova equipe de design."
Ela saiu da sala.
Dez minutos depois, a porta se abriu novamente.
Não era a diretora de RH.
Era o homem do elevador.
Ele entrou com a graça de um predador e sentou-se na beirada da mesa, cruzando os braços sobre o peito.
"Então", ele começou, um fantasma de sorriso brincando em seus lábios. "Você é a que abandonou o Subchefe de São Paulo."
Eu congelei.
"Você sabe quem eu sou?"
"Eu faço questão de saber de tudo, Siena Vitalle."
Ele estendeu a mão.
"Eu sou Enzo Falcone."
O Don da Máfia do Rio de Janeiro.
Eu hesitei.
Eu tinha acabado de escapar de uma jaula. Estava entrando direto em outra?
Ele pareceu ler o conflito em meus olhos.
"Não estou procurando uma esposa, Siena", disse ele, sua voz baixando para um registro sério e firme. "Estou procurando uma arquiteta. E os rumores dizem que você é a melhor."
Olhei para a mão dele.
Era grande, calejada. Uma mão perigosa.
Mas ele a estava oferecendo, não me agarrando.
Eu a peguei.
"Quando eu começo?", perguntei.
Enzo sorriu. Transformou seu rosto de letal para devastadoramente bonito.
"Agora mesmo."