Eu estava perto da janela, presa atrás de uma parede de fogo, meu vestido já chamuscado.
"Dante, me ajude!", grasnei.
Ele olhou para mim.
Por uma fração de segundo, vi hesitação.
Então Valéria gemeu.
"Minha perna! Não consigo andar!"
Era mentira. Eu a vi correr para a porta.
Dante não verificou.
Ele não pensou.
Sem pensar duas vezes, ele pegou Valéria nos braços.
"Vou te tirar daqui, Val", disse ele, sua voz grossa com aquele complexo de salvador que ia me matar.
Ele me deu as costas.
"Dante!", eu gritei.
Ele não se virou.
Ele saiu do quarto, carregando a mulher que começou o incêndio, me deixando para queimar.
Observei sua silhueta desaparecer na fumaça.
E foi nesse momento que Siena Vitalle morreu.
O calor queimou minha pele.
Rastejei em direção ao banheiro. Água. Eu precisava de água.
O teto gemeu. Uma viga desabou, bloqueando a porta.
Encolhi-me no chão frio de azulejos do banheiro, pressionando uma toalha molhada no rosto.
Fechei os olhos e esperei pelo fim.
Não rezei para Deus. Amaldiçoei Dante Moretti.
O tempo se tornou um borrão.
Então, um estrondo.
Braços fortes me levantaram. Não era Dante.
Um bombeiro.
Acordei no hospital. De novo.
O bipe rítmico do monitor era a trilha sonora da minha vida ultimamente.
Giulia estava lá, segurando minha mão. Ela estava chorando.
"Você está viva", ela soluçou.
Sentei-me. Minha garganta estava áspera como lixa. Meu braço estava enfaixado onde as queimaduras haviam lambido minha pele.
"Onde ele está?", grasnei.
Giulia desviou o olhar.
"Ele está... com a polícia. Dando um depoimento."
A porta se abriu com um estrondo.
Dante entrou.
Ele cheirava a fumaça e ruína. Seu terno estava destruído.
Ele parecia furioso.
"Você está louca?", ele gritou.
Giulia se levantou. "Dante, pare!"
"Você tentou matá-la!", ele acusou, apontando um dedo para mim. "Valéria me contou tudo. Você trancou a porta. Você ateou fogo nas cortinas."
Eu o encarei.
A audácia era de tirar o fôlego.
"Foi isso que ela disse?", sussurrei.
"Ela disse que você enlouqueceu de ciúmes", ele cuspiu. "Você tem sorte que ela é generosa o suficiente para não prestar queixa."
Eu ri. Doeu na minha garganta, mas não consegui parar.
"Saia", eu disse.
"Eu não terminei-"
"Eu disse saia!", gritei, minha voz falhando.
Giulia se interpôs entre nós.
"Há câmeras no corredor, Dante!", ela gritou. "Podemos provar quem entrou no quarto primeiro!"
Dante parou. A dúvida cintilou em seus olhos.
Arranquei o acesso intravenoso do meu braço. Sangue pingou nos lençóis brancos.
"Estou indo embora", eu disse, deslizando para fora da cama.
"Siena, você precisa de tratamento", Giulia implorou.
"Estou indo para o Rio de Janeiro", eu disse, passando por Dante.
Ele agarrou meu braço. Não o queimado.
"Você não pode simplesmente ir embora. O contrato-"
"Queime-o", eu disse, olhando-o nos olhos. "Assim como você me deixou para queimar."
Ele se encolheu.
Puxei meu braço, me libertando.
Saí do hospital com um roupão roubado e um par de chinelos.
Peguei um táxi para Guarulhos.
Comprei uma passagem para o Santos Dumont.
Enquanto o avião decolava, olhei para a cidade de São Paulo.
Parecia pequena.
Bloqueei o número de Dante.
Bloqueei o número de Giulia.
Fechei os olhos.
Eu estava sozinha. Eu estava queimada. Eu estava quebrada.
Mas eu estava livre.