Eu havia conseguido as licenças impossíveis em Milão. Eu havia cortejado os investidores ariscos em Paris.
"Boa sorte, Siena", minha assistente sussurrou, apertando minha mão sob a mesa. "Você merece isso."
Forcei um sorriso, mas meu estômago parecia pesado, como se eu tivesse engolido uma pedra.
As pesadas portas de carvalho se abriram.
Dante entrou.
Ele não me lançou um olhar sequer.
Ele caminhou até a cabeceira da mesa, sua presença dominando instantaneamente o espaço, exigindo atenção absoluta.
Ele foi seguido por Valéria.
Ela usava um terninho branco feito sob medida, mas nela, parecia uma fantasia. Parecia que ela estava brincando de se vestir.
Ela se sentou na cadeira à direita dele.
Minha cadeira.
A sala ficou em silêncio mortal.
Dante colocou um único arquivo sobre a mesa.
"Como vocês sabem, estamos expandindo para a Europa", ele começou, sua voz um barítono suave que costumava fazer meus joelhos fraquejarem.
Agora, apenas me dava náuseas.
"Essa expansão requer uma visão que se alinhe com o futuro da família Moretti."
Ele fez uma pausa, finalmente lançando seu olhar para mim.
Seus olhos estavam vazios. Estritamente profissionais.
"Portanto, estou nomeando Valéria Rossi como a nova Diretora da Divisão Internacional."
Um suspiro coletivo percorreu a mesa.
Minha assistente deixou cair a caneta.
Ela bateu ruidosamente no chão - um tiro na sala silenciosa.
Valéria sorriu, uma inclinação de cabeça modesta e ensaiada.
"Obrigada, Dante", disse ela suavemente. "Estou ansiosa para trazer minha expertise europeia para a equipe."
Expertise?
Ela passou os últimos cinco anos fazendo compras em Milão, não trabalhando.
"Mas... Sr. Moretti", um dos arquitetos seniores se manifestou, sua voz trêmula. "Siena liderou este projeto por dois anos. Ela conhece cada detalhe."
O olhar de Dante se fixou no arquiteto.
"Valéria tem a visão estética que precisamos", disse ele friamente. "Siena é... eficiente. Mas precisamos de inspiração."
Eficiente.
Ele havia reduzido sete anos da minha vida - minha paixão, meu suor e meu sangue - a uma palavra usada para um eletrodoméstico.
Olhei para Valéria.
Ela sorria para ele, a mão repousando possessivamente em seu braço.
Ela não queria o emprego. Ela queria o título. Ela queria tirar a única coisa que me restava fora dele.
Levantei-me.
A cadeira arranhou asperamente o chão.
Dante olhou para mim, um desafio em seus olhos.
"Sente-se, Siena", ele ordenou. "Ainda não terminamos."
Eu não me sentei.
Peguei a pasta à minha frente. A que continha a estratégia para o próximo trimestre.
Caminhei até a cabeceira da mesa.
Coloquei a pasta gentilmente na frente de Valéria.
"Boa sorte", eu disse.
Minha voz estava firme. Firme demais.
"Você precisará conhecer as leis de zoneamento do distrito dos armazéns até sexta-feira. Elas mudam todo mês."
Valéria piscou, olhando para a pasta como se fosse uma bomba.
"Siena", Dante avisou, sua voz baixando perigosamente.
Virei-me para ele.
Olhei para o homem que havia prometido me proteger, apenas para me jogar aos lobos.
"Estou feliz por você, Dante", eu disse. "Você finalmente encontrou alguém que corresponde ao seu nível de competência."
Virei-me e saí.
Ouvi-o chamar meu nome.
Não parei.
Passei pelo champanhe escondido.
Espero que eles o tenham bebido. E espero que tenha tido gosto de vinagre.