Dizem que cada mulher nasce com um destino traçado, umas para amar, outras para obedecer.
Mas eu, Daiana Miriam Sánchez Rodríguez, nasci para desafiar o que estava escrito.
Eu sempre fui considerada a ovelha negra da família Rodríguez.
Não por falta de amor, nem por desobediência pura, mas porque dentro de mim nasceu algo que não cabia entre as cercas, os cavalos e as tradições que sustentavam o nome dos Rodríguez desde tempos de guerra e poeira.
Enquanto minhas primas bordavam enxovais, eu e minha irmã aprendemos a domar potros e medir o valor de um homem pelo tamanho de sua fazenda, passava as tardes observando o horizonte, sonhando com o que havia além das colinas de Albuquerque. O cheiro da terra molhada depois da chuva era doce, mas o que eu queria sentir era o vento de outros mundos.
O campo me sufocava com sua rotina, cercas, rezas, cavalos e silêncios. Diziam que eu era teimosa, que não tinha o temperamento de uma dama.
Mas o que ninguém compreendia é que dentro de mim havia um fogo antigo, herdado talvez das mulheres que ousaram escolher o próprio caminho e pagaram caro por isso.
Todos pareciam nascer com o cheiro de terra impregnado na pele e o som dos cascos como trilha da vida, eu nasci com a alma inquieta. Nasci com o cheiro de terra molhada, sim, mas também com o coração pulsando como o silvo distante de uma locomotiva que corta as colinas de Albuquerque, levando embora os sonhos daqueles que têm coragem.
E eu tive coragem.
Ou loucura.
Às vezes não sei dizer.
Eu queria ver o mundo, respirar outros ares, descobrir quem eu realmente era e qual seria o meu destino longe dos limites traçados pelo sobrenome que carregava. Mas, na minha família, querer mais era um pecado. E mulher que sonhava alto demais era logo chamada de ingrata.
Meu pai, don Eduardo Rodríguez, era homem de ferro e silêncio. Carregava no olhar o peso da honra e na voz o aço do comando. Acreditava que o destino de uma filha era casar-se cedo, gerar herdeiros robustos e preservar o nome da família.
Mas eu não nasci para pertencer.
Nem a ele, nem a ninguém.
Minha mãe, doçura resignada, sempre dizia que eu trazia o temperamento das mulheres de antes da queda, aquelas que olhavam os homens nos olhos e falavam sem pedir licença.
Talvez fosse verdade.
Desde menina, eu sonhava em tocar os céus com as próprias mãos. Queria entender a vida das plantas, o instinto dos animais, os segredos que faziam a terra florescer ou morrer.
Mas, naquela época, moça que falava em ciência era vista como heresia.
E mulher que sonhava em estudar... era vista como louca.
Nosso maior rival sempre foi a família Hernández. O ódio entre nós era tão antigo que ninguém sabia dizer ao certo como começou. Apenas que devia continuar.
Meu pai os detestava com uma devoção quase religiosa. Bastava ouvir aquele nome para o rosto dele endurecer e a voz se transformar em uma linha cortante de rancor. Quando meu pai pronunciava o nome "Hernández", a voz dele se tornava fria como lâmina. Eu cresci ouvindo que os Hernández eram arrogantes, gananciosos, que roubavam terras e corações, além de frios e que um Rodríguez decente jamais deveria sequer cruzar o olhar com um deles.
E, no entanto, havia algo no proibido que me atraía como o som distante de um violão em noite de lua.
Alguns diziam que começou por causa de uma cerca mal traçada, outros juraram que fora por uma mulher, ninguém sabia ao certo. Só sabíamos que o ódio era parte do sangue.
De qualquer forma, era um ódio sagrado.
Meu pai não suportava sequer ouvir o nome deles.
E quando o vento trazia o som dos cascos vindos das colinas dos Hernández, ele cuspia no chão e murmurava uma oração em castelhano antigo, como se exorcizasse o próprio diabo.
O que é proibido sempre tem o sabor do mistério.
Mas eu, em segredo, achava tudo aquilo... fascinante. Não entendia o motivo de tanta raiva.
Os limites, os perigos, o proibido.
E, sobretudo, o nome que ecoava nos murmúrios das moças da cidade: Alejandro Hernández.
Nunca cheguei a conhecer pessoalmente o senhor Ethan Hernández nem seu filho, o herdeiro da fazenda "Doze Estrellas" e as histórias sobre ele corriam como o vento entre as colinas.
Diziam que era cowboy sedutor, o mais belo de todos os pecados e perigoso, com o olhar dos homens que carregam pecados demais no peito, o tipo de homem que não se olhava duas vezes sem se perder, que arrancava suspiros e deixava corações em ruínas, um predador de sorrisos, que se alimentava do desejo alheio e desaparecia antes do amanhecer.
Montava um cavalo negro como a noite, e as moças da cidade suspiravam quando o viam passar. Algumas juravam que ele sorria com um canto da boca, como quem promete e ameaça ao mesmo tempo. Outras diziam que ele era frio, incapaz de amar.
Alto, moreno, cavaleiro de olhos como noite antes da chuva. As moças suspiravam quando ele passava montado em seu cavalo preto, o chapéu sombreando os olhos e o cigarro pendendo dos lábios.
Filho de don Ethan e dona Bárbara Hernández, irmão de Victória, o mesmo homem que meu pai chamava de ladrão de gado e assassino de honra.
Eu ouvia as histórias e fingia desinteresse, mas, no fundo, imaginava quem seria esse homem que fazia o tempo parar na pequena Albuquerque.
A vida entre as colinas e os rios secos, era sempre a mesma. Os dias começavam com o sol dourando os campos e terminavam com o sino da capela marcando o silêncio.
E naquele silêncio, o tédio crescia.
Tédio é perigoso, sabe?
É no tédio que o destino planta as sementes da mudança.
Meus avós maternos, que viviam na Cidade do México, escreveram-me uma carta.
Convite, bênção e fuga disfarçada.
Queriam que eu passasse uns meses com eles, para "ver o mundo", diziam. Meu pai, claro, reagiu como um touro ferido, disse que a cidade era antro de perdição, que moça decente não andava sozinha entre desconhecidos, que devia viver sob o olhar do pai e, depois, sob o do marido.
Mas eu insisti, com lágrimas e palavras afiadas.
Infernizei sua paciência até o limite.
E quando uma mulher Rodríguez decide algo... nem o orgulho de um patriarca consegue detê-la. No fundo, ele temia que eu descobrisse o mundo... e gostasse dele.