Acordei com os primeiros raios de sol atravessando as cortinas de renda. A casa ainda cheirava a café fresco e pão assando. Vesti a roupa que minha mãe havia deixado dobrada sobre a cadeira, uma blusa clara de linho e uma saia simples de algodão e desci para a sala de jantar.
Meu pai já estava à mesa, de chapéu posto e botas polidas, tomando o primeiro café do dia enquanto lia o jornal local. Levantou o olhar quando me viu e abriu um sorriso orgulhoso.
- Já de pé, minha menina? Pensei que as moças da cidade dormissem até o sol estar alto.
- Nem todas, papai. - respondi, servindo-me de café. - Há tempos me acostumei a madrugar.
- É mesmo? - perguntou, arqueando a sobrancelha. - E o que anda fazendo tão cedo por aí, se não tem bois pra cuidar nem terra pra plantar?
Sorri, acostumada à provocação.
- Talvez mais do que o senhor imagina.
- Hum... isso me soa perigoso. - disse, terminando o café. - Vamos, quero lhe mostrar os potros novos antes que o sol esquente demais.
Saímos juntos, lado a lado, cruzando o pátio coberto de orvalho. O cheiro de terra úmida e feno recém-cortado preenchia o ar. Os cavalos relinchavam ao longe, e os vaqueiros já se moviam pelos currais.
Quando chegamos ao estábulo, os potros se aproximaram curiosos. Meu pai observava cada um com o olhar de quem reconhece gerações de criação.
- Bonitos, não? - comentou, orgulhoso. - São filhos do garanhão que comprei no Texas. Sangue bom.
- São lindos, papai. - disse, acariciando o pescoço de um deles. - O senhor sempre teve bom olho pra isso.
Ele riu, satisfeito, e apoiou as mãos no cinto.
- E então, diga-me... o que anda fazendo da vida além de viajar e me deixar de cabelo branco?
Respirei fundo, já prevejo uma reação nada amigável.
- Concluí meus estudos, papai. Fiz medicina veterinária e agronomia.
Ele me fitou por um instante, franzindo a testa como se não tivesse ouvido direito.
- Veterinária... e agronomia? - repetiu, devagar. - Mas isso é coisa de homem, filha.
- Não, senhor. É coisa de quem ama a terra e os animais. E o senhor mesmo me ensinou isso desde menina.
Observo ele passar a mão pela barba, pensativo.
- Não sei, Daiana. Essas ideias de universidade, de mulher mexendo com ciência... O que vão dizer?
- Que sua filha estudou para cuidar do que é nosso, pai. - respondi com serenidade. - Eu não voltei pra viver de lembranças. Quero ajudar na fazenda, mas também irei cuidar da minha clínica veterinária com Manuela.
- Clínica? - Ele tossiu, surpreso. - E onde pretende fazer isso?
- Há muitas fazendas precisando de assistência. Os fazendeiros da região terão onde levar o gado doente, e não precisarão perder animais por falta de cuidado, tudo já está em andamento.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para o horizonte.
- Uma clínica veterinária... - repetiu, coçando o queixo. - Nunca ouvi falar de uma mulher fazendo isso por aqui.
- Pois será a primeira. - respondi sorrindo. - Manuela vai trabalhar comigo.
Eduardo deu uma gargalhada curta.
- Essa sua amiga mexicana, não é? A que falava pelos cotovelos quando veio nos visitar?
- Essa mesma. - comecei a rir, ela havia vindo sondar meu pai, quando a ideias de maridos.
Ele balançou a cabeça, resignado.
- Você é igual à sua mãe... quando coloca algo na cabeça, ninguém segura.
- Então o senhor aprova? - perguntei esperançosa.
- Aprovar, eu não sei. - respondeu ajeitando o chapéu. - Mas se é o que deseja, não vou impedir. Só espero que essa história clínica não a distraia do mais importante.
- E o que seria o mais importante, papai?
- Encontrar um bom marido, é claro. - respondeu, com um sorriso maroto. - Agora que voltou, vou organizar uma grande festa. Albuquerque inteira vai saber que minha filha está de volta e pronta para ser cortejada.
Daiana revirou os olhos e cruzou os braços.
- Papai... o único compromisso que pretendo assumir é com o meu trabalho.
- Veremos, minha menina, veremos. - respondeu ele, rindo. - O destino é teimoso.
Sorri de volta, fingindo concordar, mas por dentro sabia: o único destino que desejava era o que eu mesma escolheria.
Ele entrelaçou o meu braço, e voltamos juntos para o casarão. O som das nossas botas ecoava pelo piso de madeira encerada, e o cheiro de café recém-passado ainda pairava no ar. Ficamos alguns minutos em silêncio até que Miguel surgiu, trazendo consigo toda a alegria e o entusiasmo próprios de uma criança de três anos.
- Vovô, olha o que eu achei! Deixa ele dormir no meu quarto, por favorzinho! - pediu, mostrando um pequeno filhote de gato e fazendo beicinho. Aquele jeitinho doce explicava por que meu pai estava completamente rendido ao neto.
- Claro, meu amor. - respondeu ele, rindo, antes de se voltar para mim com um sorriso orgulhoso.
- Dinda, e os meus presentes? - perguntou Miguel, curioso, enquanto Mariana tentava, em vão, contê-lo.
- Está tudo bem. - disse eu, divertida. - A dinda ficou longe por tempo demais... então trouxe um presente para cada aniversário, Natal e Dia das Crianças que perdemos. Que tal levar o vovô até meu quarto para buscar a mala rosa? Lá dentro estão todos os seus tesouros.
Miguel não precisou de mais incentivo. Saiu disparado, arrastando meu pai pelo corredor, deixando atrás de si risadas e passos apressados.
- Irmã, não precisava - disse Mariana, entre risos.
- Ora, claro que precisava! - retruquei, fingindo indignação. - Quem você acha que vai mimá-lo, se não eu?
Rimos juntas, e a leveza daquele momento pareceu apagar, por um instante, os anos em que estive longe.
Durante o almoço, a conversa fluiu entre lembranças antigas e novidades da fazenda. Mamãe servia generosamente, e meu pai, por prudência, evitou tocar em assuntos mais delicados nem sobre a minha clínica, nem sobre o tempo que eu pretendia ficar. Sabíamos que essa conversa viria, mas deixá-la para depois do passeio parecia o mais sensato. Por ora, bastava saborear a comida de casa e o reencontro.
Mais tarde, saí com Mariana para dar uma volta pela cidade. Albuquerque havia mudado muito. As ruas principais, antes de terra batida, agora ostentavam vitrines elegantes com tecidos franceses e chapéus vindos de Nova Orleans. O som dos cascos dos cavalos se misturava ao apito distante das locomotivas, e o aroma de café torrado escapava das novas cafeterias um luxo recente entre os moradores locais.
Algumas coisas ainda pertenciam ao passado, mas o progresso já se fazia notar. Jovens falavam em comércio, contabilidade e política, temas outrora restritos aos salões masculinos.
Paramos em algumas lojas para comprar o que me faltava, e, satisfeitas, saímos de uma cafeteria. Foi então que, distraída com a conversa, esbarrei em um homem. O choque fez o café se derramar sobre a camisa branca dele.
- Oh, mil perdões, senhor! - exclamei, constrangida. - Machucou-se?
Ele me lançou um olhar duro.
- Deveria prestar mais atenção por onde anda. Acabou de estragar minha melhor camisa.
- Perdão, não foi minha intenção... - respondi, mantendo o tom educado.
- Além de desastrada, é surda? - retrucou, com uma arrogância fria.
Senti o sangue subir ao rosto. Respirei fundo, tentando conter a língua... mas era inútil.
- Eres un patán! - rebati, em espanhol, antes de puxar Mariana pelo braço e entrar na carruagem.
Senti o olhar dele me acompanhar. Ajeitou o chapéu, e por um instante desejei não ter olhado para trás. Era um homem absurdamente bonito, cabelos castanhos ligeiramente compridos, barba bem-feita, mandíbula firme e olhos escuros que pareciam observar além do que se via.
O tipo de homem que sabia o efeito que causava.
Sacudi a cabeça, irritada comigo mesma. Um homem insolente não merecia sequer um segundo do meu pensamento. Ao chegar em casa, organizei as compras, vesti uma roupa mais leve e pedi que selassem um cavalo. Precisava de ar puro, de silêncio e da distância daquele olhar que, inexplicavelmente, ainda me perseguia, até encontrar Manuela após o almoço e me inteirar da clínica..
Escolhi um animal de pelagem negra, de andar firme e temperamento calmo. Montei e segui rumo ao velho riacho, o mesmo paraíso escondido onde, na infância, eu fugia para sonhar e esquecer do mundo.
O som da água correndo e o cheiro da relva molhada me acolheram como um abraço antigo. Era hora de matar a saudade do campo e, quem sabe, lavar da mente o rosto daquele homem insuportavelmente atraente.
O sol já se inclinava no horizonte quando alcancei o riacho. O som da água correndo entre as pedras soava como uma melodia antiga, familiar, que o tempo não havia conseguido apagar. Desmontei com cuidado, amarrando as rédeas do cavalo a uma árvore próxima. O animal resfolegou baixinho, satisfeito, enquanto eu caminhava até a beira da água.
As margens estavam cobertas de flores silvestres, pequenas e resistentes, que cresciam entre as pedras mesmo sob o calor implacável do deserto. O ar cheirava a terra úmida e lavanda selvagem. O vento leve agitava meus cabelos, e por um instante, deixei que a lembrança da infância me atravessasse - as tardes que passava ali com minha irmã, os risos que ecoavam entre as colinas, os sonhos de uma liberdade que parecia inalcançável.
Ajoelhei-me e mergulhei as mãos na água fria. O toque me despertou, trazendo de volta a mulher que eu havia me tornado, uma mulher que amava sua independência, mas que agora se via cercada de lembranças, como se cada pedra daquele riacho sussurrasse o que deixei para trás.
Deixei as botas e o colete sobre a relva, e entrei lentamente na água até que ela me envolvesse por completo. A sensação foi libertadora. O sol beijava a superfície, refletindo tons dourados sobre minha pele. Fechei os olhos e respirei fundo, como se pudesse lavar não apenas o corpo, mas o peso de tudo que eu não dizia.
Pensei em meu pai, na expectativa que ele carregava de me ver casada, na clínica que ainda não sabia se vingaria... e, inevitavelmente, naquela cena da cafeteria. A voz rude daquele homem ainda ecoava em mim, insolente, impetuosa, mas curiosamente firme, como alguém que não se dobrava com facilidade.
Abri os olhos e, por um instante, tive a impressão de ver uma silhueta distante sobre o topo do morro. Um cavaleiro observava o vale. O chapéu largo sombreava-lhe o rosto, mas o porte altivo, confiante, era impossível de ignorar. Meu coração acelerou sem motivo aparente.
- Devo estar perdendo a razão... - murmurei para mim mesma, afastando a sensação.
Quando olhei novamente, ele já havia desaparecido. Talvez fosse apenas um viajante, ou o reflexo caprichoso do sol entre as colinas. Ainda assim, algo em mim sabia que aquele encontro fugaz não seria o último.