- Vou deixar que descanse hoje e amanhã, mas depois de amanhã venho buscá-la bem cedinhos para irmos à clínica. - Manuela quebrou o silêncio, ajeitando a bolsa no colo. - Precisamos revisar o equipamento, organizar as baias e verificar os novos clientes. Um deles, confesso, me deixa inquieta.
Virei-me para ela, arqueando uma sobrancelha.
- Inquieta?
- Alejandro. - Ela pronunciou o nome com um meio sorriso, mas havia algo de cético em seu olhar. - O homem é um enigma. Dono de uma das maiores haciendas da região, herdeiro de um império de gado e... um temperamento que dizem ser tão feroz quanto o sol do meio-dia.
O sobrenome fez eco na minha mente, Hernández.
Uma lembrança distante se acendeu discussões à mesa, o olhar duro de meu pai, o ódio que parecia ter raízes mais fundas do que qualquer um podia explicar.
- Seu irmão? - repeti, com uma calma ensaiada. - E que tipo de cliente ele é, exatamente?
Manuela suspirou e deu um leve riso.
- Sim, eu não contei que ele é nosso benfeitor? - revirei os olhos com a informação - Meu irmão é difícil, arrogante e muito teimoso. E, dizem as más línguas que é perigosamente atraente. - Ela se inclinou, quase cochichando: - Mas o tipo de homem que não suporta ser contrariado. Principalmente por uma mulher, por isso você irá atendê-lo.
Senti um pequeno arrepio percorrer a espinha, não de medo, mas de desafio.
- Então ele é o cliente perfeito para mim. - éramos opostos.
Ela riu alto, e o som ecoou entre os eucaliptos.
- Você é impossível, Daiana. - balançou a cabeça, divertida. - Mas foi por isso que sempre te admirei.
A carruagem parou diante da porta principal. O som das rodas cessou, substituído pelo farfalhar das folhas e pelo latido distante de cães. Minha casa estava ali imponente, familiar, e ao mesmo tempo estranha, como se eu estivesse entrando num sonho antigo.
Vi o vulto de minha mãe na varanda, com o avental branco e os olhos marejados. Atrás dela, meu pai ereto, com o mesmo semblante severo que sempre carregou. O vento soprou forte, levantando a poeira da estrada e trazendo consigo o cheiro das colheitas recém-feitas.
- Vai, Daiana. - murmurou Manuela, num tom doce. - Eles te esperaram por tempo demais.
Apertei sua mão, sentindo o calor sincero do toque.
Desci da carruagem com passos firmes, mas por dentro havia um tremor contido. Cada passo em direção à hacienda era uma travessia entre o que eu fora e o que me tornara.
E, no fundo, eu sabia que aquele retorno não era apenas para casa. Era o início de algo que nem o deserto, nem o tempo, seriam capazes de apagar.
Porque o destino, em terras como Albuquerque, sempre começa com um reencontro.
E termina... com uma guerra.
Meu pai me esperava à porta. O mesmo homem alto, de ombros largos, com o bigode espesso e o olhar firme de quem passara a vida enfrentando o deserto e seus homens. Trazia um terno escuro, o chapéu de aba larga nas mãos e um leve tremor nos dedos.
- Daiana... - sua voz soou grave, contida, mas cheia de emoção.
Antes que dissesse qualquer coisa, ele abriu os braços.
Aproximar-me dele foi como atravessar anos de silêncio. Abracei-o, e senti que seu peito, outrora duro como pedra, agora tremia sob o peso da saudade.
- Papai... - murmurei.
Ele me apertou com força, a mão áspera segurando minha nuca.
- Já não és mais a menina que partiu - disse ele, afastando-se para olhar meu rosto. - Tornou-te uma mulher.
- E o senhor... - respondi, sorrindo com ternura - ...tornou-se mais humano.
Ele soltou uma breve risada, abafada.
- Os anos ensinam até os mais teimosos - confessou, e por um instante vi nos olhos dele um brilho que nunca conheci: orgulho misturado a arrependimento.
Minha mãe apareceu logo atrás, os cabelos já prateados em alguns fios, o vestido azul-marinho ajustado à cintura.
- Minha filha... - sussurrou, antes de me envolver num abraço que me devolveu à infância. - Que Deus seja louvado por te trazer de volta!
- Estou em casa, mamãe - respondi, sentindo o perfume familiar de lavanda.
Mercedes, a governanta que me criara como uma segunda mãe, surgiu em seguida, enxugando as lágrimas com o avental.
- Minha menina! - exclamou, puxando-me para um novo abraço. - Que alegria te ver novamente sob este teto.
- Mer! - exclamei, rindo e chorando ao mesmo tempo. - Ainda cozinhas o melhor pão de milho do vale?
- É melhor do que nunca, minha princesa. Preparei um banquete em sua homenagem.
A casa, iluminada por lamparinas e pelo crepitar da lareira, parecia respirar comigo. Os móveis eram os mesmos, o chão de madeira ainda rangia nos mesmos pontos, e o retrato de meus avós continuava sobre a parede principal, vigiando tudo com aquele ar severo.
Minha irmã Mariana surgiu pela escada, os cabelos castanhos presos num coque impecável.
- Daiana! - gritou, correndo até mim. - Tantos anos sem te ver!
Abracei-a, rindo.
- Ainda és a mesma - disse, observando-a com carinho. - E mais bonita do que nunca.
Ela riu.
- A vida no campo faz milagres. Este é José Miguel, meu esposo.
O homem inclinou-se respeitosamente, chapéu contra o peito.
- Um prazer, senhorita Daiana. Mariana fala de ti como se fosses uma lenda.
- Espero que boas lendas - respondi, e ele riu com simpatia.
Miguel, o filho deles, veio logo atrás, um pequeno de três anos com olhos curiosos e o cabelo despenteado.
- Dinda! - gritou, correndo para mim. - Mamãe disse que você vem de longe!
- De muito longe, meu anjo - disse, abaixando-me para abraçá-lo. - E trouxe presentes de cada canto do mundo.
Conversamos por longas horas, como se o tempo precisasse recuperar o que os anos haviam levado. Mamãe falava com ternura e brilho nos olhos, relembrando nomes, acontecimentos e pequenas histórias da fazenda. Soube, então, que uma nova cozinheira havia sido contratada e que ela preparava um banquete especial em minha homenagem tradição que, segundo minha mãe, não poderia ser quebrada.
Antes que o sino chamasse para o almoço, ela pediu que eu subisse para descansar e tomar um banho quente.
- Tens de recompor-te, filha. A viagem foi longa, e o deserto não é gentil com quem retorna depois de tanto tempo - disse ela, acariciando meu rosto. - Escolherei algo para vestires até que possas mandar fazer novas peças.
Assenti, sorrindo, mas sem responder à pergunta que pairava nos olhos dela: "Irás ficar?"
Não tive coragem de confessar que não pretendia criar raízes novamente. Depois de tantos anos vivendo por conta própria, estudando, decidindo, errando e recomeçando sem precisar pedir permissão, seria impossível regressar à rotina rígida da hacienda. Minha liberdade tinha gosto de vida nova, e eu não abriria mão dela.
Mamãe conduziu-me até o antigo quarto. Ao empurrar a porta, senti um aperto no peito. O aposento permanecia intacto, como se eu o tivesse deixado na véspera: os móveis de carvalho encerados, as cortinas rendadas, o espelho oval sobre a cômoda e, sobre o criado-mudo, um retrato meu ainda na juventude.
- Mando limpá-lo todas as semanas - disse ela, com um sorriso suave. - Nunca se sabe quando o destino resolve trazer de volta o que é nosso.
bracei-a em silêncio, sem coragem de desfazer aquela esperança. Assim que ela saiu, ordenei que preparassem a banheira. O vapor quente subia perfumado com ervas secas e óleo de lavanda, e, ao mergulhar, senti o corpo relaxar como se as águas pudessem lavar também as lembranças. Pela primeira vez desde que pisei em Albuquerque, deixei que o cansaço me alcançasse.
Quando saí do banho, percebi que alguém, certamente Mer, havia desfeito minhas malas. Sobre a cama repousava um conjunto de roupas cuidadosamente disposto: uma saia longa de tecido escuro, uma camisa branca de mangas bufantes, um colete ajustado na cintura e um par de botas de montaria polidas. Sobre a cadeira, um chapéu de aba larga esperava por mim, junto de uma pequena bolsa de couro trançado.
Sorri. Era uma combinação prática e elegante, própria para quem conhecia a vida no campo, mas ainda carregava um toque de sofisticação citadina.
Vesti-me com calma, escovei os cabelos e deixei-os soltos sobre os ombros. O reflexo no espelho devolveu-me uma mulher que já não se encaixava completamente em lugar algum - civilizada demais para o campo, livre demais para o salão.
Quando desci, o aroma do almoço já tomava conta do ar: carne assada lentamente, pães recém-saídos do forno, ervas frescas, vinho tinto e tortas de amora. O som da louça sendo posta à mesa misturava-se às vozes familiares, e por um instante, tudo pareceu exatamente como antes.
Mas no fundo, eu sabia que nada mais seria como antes.
A mesa do jantar estava posta com generosidade: carne assada, feijão, pão de milho, queijo fresco e vinho local. Durante a refeição, meu pai não tocou em assuntos sérios. Apenas observava, às vezes sorrindo discretamente, como se quisesse aproveitar cada gesto, cada palavra minha. Havia nele um homem novo, mais brando, talvez moldado pela saudade e pelo tempo.
Quando o jantar terminou, ele se levantou e pousou a mão em meu ombro.
- Amanhã, quero que me acompanhes até os estábulos. Quero mostrar-te os novos potros e as terras que ampliamos.
- Irei com prazer, papai - respondi.
Ele assentiu, satisfeito.
Mais tarde, quando todos dormiam, saí ao pátio. O céu do deserto parecia uma tapeçaria infinita de estrelas. O som distante dos grilos misturava-se ao murmúrio do vento. Senti que, de alguma forma, o passado me aguardava ali nas paredes da casa, nas histórias não ditas, e no nome que pairava no ar como uma sombra antiga: Hernández.
Em breve, eu o veria.
O homem cujo nome ainda fazia meu pai cerrar os punhos.
O herdeiro das terras vizinhas.
E, sem entender por quê, uma parte de mim ansiava por isso.