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O Cowboy Indomável
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Capítulo 9 Sob o céu de poeira e luar img
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Capítulo 4 1

DAIANA

Hacienda Santa Esperanza, Território do Novo México

Albuquerque 25 de fevereiro de 1890.

A hacienda Santa Esperanza, ficava do outro lado do vale, cercada por um mar de verde e poeira. Tudo ali parecia vivo, os campos de milho que dançavam com o vento, as árvores frutíferas que se inclinavam com o peso das laranjas, o cheiro doce do pão assando na cozinha de lenha.

Quando o trem finalmente parou na estação de Albuquerque, o sol logo se despediria atrás das colinas. O deserto se estendia à minha frente, imenso e dourado, como se cada grão de areia guardasse a lembrança de um tempo que se recusava a morrer.

O ar tinha cheiro de ferro e poeira, e o vento trazia consigo o murmúrio distante do rio Grande, correndo preguiçoso entre as pedras, cortando a terra como uma cicatriz antiga.

Desci os degraus de ferro com o coração apertado e os olhos marejados. O México me recebia como uma velha amante, quente, rude, inesquecível.

Atrás de mim, o passado parecia respirar.

À frente, o futuro me esperava com suas garras afiadas.

Manuela me aguardava junto à carruagem, vestida com um simples traje de linho branco e um chapéu de aba larga que mal continha os fios negros revoltos pelo vento. Quando me viu, sorriu com o mesmo brilho travesso de sempre.

- Dios mío, que saudade! - exclamei, e pensei que nada havia mudado nela.

Abracei-a com força, sentindo o alívio quente e doce de reencontrar um pedaço do que fui, ou do que ainda sou, apesar dos anos e das distâncias.

- Você demorou, hermana. - disse ela, com aquele tom doce e irônico que só Manuela sabia usar.

- A Europa não me deixava ir - respondi, rindo. - Mas minha mãe tanto infernizou meus avós que acabei cedendo. Pelo visto, o senhor Eduardo anda doente... e, bem, o deserto me chamou de volta.

Manuela suspirou, o olhar perdido no horizonte alaranjado.

- O deserto sempre chama os que tentam esquecê-lo.

Seguimos pela estrada empoeirada, o som das rodas misturando-se ao canto dos grilos e ao sopro quente do entardecer. As colinas se erguiam como sentinelas, cobertas por cactos e pedras avermelhadas. De tempos em tempos, víamos um rancho isolado, fumaça subindo das chaminés, cães latindo à distância e vultos movendo-se lentos entre os currais.

- É aqui - disse Manuela, apontando para um casarão de adobe branco, cercado por uma cerca simples e alguns eucaliptos retorcidos pelo vento. - Nosso lar e nossa ousadia.

A clínica veterinária ficava nos limites da cidade, onde o casario começava a rarear e a terra se confundia com o deserto.

As janelas eram altas, os portões de madeira rangiam ao menor toque, e o pátio interno cheirava a alfazema, ferro e ferrugem. Lá dentro, havia uma mesa rústica, um armário com frascos de vidro e alguns instrumentos que havíamos trazido de trem, embrulhados em panos grossos.

Acima da porta, o quadro de Nossa Senhora de Guadalupe observava tudo, serena e protetora, presente de uma das freiras do convento onde Manuela havia estudado.

- Vai ser difícil, Daiana, mas conseguiremos. - disse ela, enquanto limpava o pó das janelas com a barra do vestido. - Os homens vão rir, vão dizer que enlouquecemos... mas quando curarmos o primeiro cavalo, eles virão de joelhos.

Sorri.

- Difícil será se nossas famílias descobrirem que somos. Meu pai me mata, e depois o seu pai te matam.

Manuela riu, riu de verdade, com aquele riso cheio de coragem e pecado.

- Você sabe, Victoria, que nada será fácil. Nunca é para mulheres como nós.

- Eu sei - respondi, passando a mão pela moldura da janela, observando o sol descer atrás das colinas.

- Por isso uso o segundo nome e o sobrenome de minha mãe. Somente meu irmão sabe que retornei. E embora seja bruto, é o melhor irmão do mundo... vai me proteger, assim como o fará quando a conhecer.

Arqueio uma sobrancelha.

- Ele é bonito, talvez precise de proteção também.

Rimos com a leveza de quem sabe que o perigo nos observa, mas ainda assim não recua.

- Essa ideia nunca me pareceu boa, hermana. - continuei. - Somos espíritos livres, e isso já é ousadia demais para os tempos em que vivemos. Mas se ficarmos unidas... talvez, só talvez, possamos moldar um futuro em que essa maldita rixa entre Rodríguez e Hernández finalmente morra.

Manuela se aproximou, tocou meu ombro e disse, quase num sussurro:

- Odio viejo, amor nuevo... dizem que um substitui o outro, mas eu temo que um dia se confundam.

Olhei para ela, sem entender totalmente.

Mas naquele instante o vento soprou, levantando a poeira do pátio e trazendo o cheiro da terra molhada como um aviso, como um presságio. Do alto do morro, um cavalo relinchou. E, por um instante, senti que algo, ou alguém, já sabia que eu estava de volta.

Era exatamente isso que eu queria ver, o respeito nascer onde antes só havia desdém.

Albuquerque não havia mudado tanto quanto eu temia, mas, ainda assim, algo estava diferente. Entre colinas e vales que parecem feridas abertas ao sol, pulsava o calor do deserto e a alma inquieta de seus habitantes. Ao amanhecer, uma névoa dourada cobria os telhados e ao entardecer, o vento soprava poeira e promessas, carregando o cheiro de couro, suor e pólvora.

As luzes a gás começavam a ser instaladas, mas muitas ruas ainda eram iluminadas por lamparinas e pelo brilho da lua que caía sobre os telhados.

Albuquerque era assim: bela e perigosa, feita de fé e pólvora.

Uma cidade onde os homens se benziam antes de sacar a arma, e as mulheres rezavam antes de amar. Um lugar onde cada esquina guardava uma história, cada sombra escondia um segredo e cada pôr do sol lembrava que nada, absolutamente nada, permanecia igual por muito tempo.

Respirei fundo, tentando absorver cada nuance daquele ar seco e quente que me envolvia como um véu. O vento do deserto trazia o cheiro da terra vermelha misturada ao feno fresco, e por um instante, tudo pareceu suspenso, o tempo, a saudade, o próprio fôlego.

- Daiana, está tudo bem? - a voz de Manuela me arrancou dos pensamentos, suave e certeira como sempre.

Ela estava ao meu lado, com o chapéu de abas largas protegendo-lhe o rosto do sol e o vestido claro agitado pela brisa. Tinha aquele equilíbrio raro entre elegância e leveza, uma serenidade que contrastava com o meu turbilhão interior. Manuela sempre soube decifrar meus silêncios e talvez por isso, sua simples presença bastasse para me ancorar.

Depois de tantos anos longe, de dias vividos entre os corredores de pedra fria da Universidade de Medicina Veterinária e Agronomia da Cidade do México, de viagens e descobertas com meus avós pelo mundo, o retorno a Albuquerque parecia mais difícil do que eu imaginara. A liberdade que experimentei era como um perfume que se recusa a desvanecer e agora, diante das colinas áridas e das lembranças antigas, eu sentia o peso do passado se assentando sobre meus ombros.

- Sim, apenas... respirando o passado. - respondi, com um sorriso breve, quase defensivo.

Manuela sorriu também, aquele sorriso tranquilo, de quem entende sem precisar ouvir explicações e pousou a mão sobre meu ombro.

Entramos na carruagem que nos esperava à sombra de um carvalho retorcido. As rodas começaram a ranger sobre a estrada de terra, e eu me vi hipnotizada pela paisagem que se desenrolava diante de nós. As casas de adobe tinham agora tons mais vivos; algumas exalavam cheiro de tinta fresca, outras guardavam o ar antigo das famílias que nunca partiram. No horizonte, as colinas douradas se estendiam até onde a vista alcançava, e o sol poente tingia tudo de um âmbar suave.

O vento trazia o aroma doce das flores de laranjeira e o perfume da terra molhada, vestígios de uma chuva distante. Eu fechei os olhos por um momento e ouvi os sons familiares da cidade: o bater de martelos em uma ferraria, o murmúrio distante vindo da taverna, o balido de cabras e o tilintar dos sinos da pequena igreja no centro.

Era como se o tempo tivesse parado ali, esperando que eu voltasse.

Mas eu não era mais a mesma.

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