E pela primeira vez, percebi o quanto meu pai estava errado: o mundo podia ser perigoso, sim... mas também era belo.
Meus avós me acolheram com ternura e orgulho.
Dona Carmen, com seus olhos de águia, e o velho don Tomás, que ainda cheirava a cavalo e a vinho tinto. Eles me ensinaram que o saber era o maior dos tesouros. Foi sob o teto deles que me apaixonei pelos livros de botânica, pelos tratados de veterinária e pelas histórias dos grandes cientistas europeus.
Certo dia, enviei uma carta longa e muito amorosa, precisava convencer meu pai a permitir que continuasse com meus avós, anunciei meu desejo de ficar definitivamente com meus avós e cursar uma boa faculdade. Meu pai ficou furioso. Disse que eu estava esquecendo minhas raízes, que o mundo era cruel e que eu era ingênua demais para sobreviver nele. Mas minha mãe, com sua doçura firme, o convenceu de que seria "apenas por um tempo". Talvez ela já soubesse que aquele tempo se transformaria em uma vida inteira.
Viajei pelo mundo com meus avós.
A cada porto, a cada estrada, parecia que o tempo me concedia uma nova alma. Atravessamos o Atlântico num grande navio francês que cheirava a sal, a vapor e a promessas.
Vi a neve cair sobre Paris, cobrindo os telhados como véu de noiva, enquanto homens com cartolas falavam de progresso e damas em seda recitavam Baudelaire nos cafés.
Caminhei pelas ruelas de Roma, entre ruínas e catedrais, ouvindo o eco dos séculos sob meus passos. Em Sevilha, aprendi que o sangue e a música às vezes nascem da mesma dor; e em Lisboa, o mar parecia murmurar segredos antigos em cada onda que tocava o cais.
Quando seguimos para o Oriente, descobri que o mundo era ainda maior do que as histórias diziam. Em Kyoto, respirei o perfume das flores de cerejeira e ouvi o som sereno das fontes, como se a própria terra meditasse.
Nas savanas da África, o calor tinha a cor do ouro, e os animais caminhavam com a majestade dos reis que nunca precisaram de coroas.
Ali, compreendi a força silenciosa da natureza, essa mestra antiga que ensina sem palavras e castiga sem aviso.
Vi desertos, montanhas, mares que pareciam não ter fim. E em cada lugar, aprendi que liberdade não é ausência de raízes, é saber que se pode voltar a qualquer tempo, por escolha e não por obrigação. Entre locomotivas e navios, entre estradas de poeira e cartas trocadas com o México, descobri quem eu era: uma mulher que não aceita fronteiras.
Foi nessas viagens que decidi o que queria ser: não esposa, não sombra, não herdeira, mas dona do meu próprio destino, guardiã do saber que nasce da terra e do mistério dos animais.
Quis aprender suas dores, suas forças, seus silêncios. E foi assim que escolhi o caminho da veterinária e da agronomia, unindo o amor pela vida à ciência da sobrevivência.
Pouco a pouco, deixei de ser apenas uma moça curiosa e tornei-me uma mulher com propósito. Matriculei-me na Escola Nacional de Agricultura e Veterinária, uma das poucas mulheres a cruzar aquelas portas.
Os homens me olhavam como quem observa um cometa raro, estranho, perigoso. Mas eu não me importava, a cada livro lido, a cada animal tratado, sentia que me aproximava de algo maior: o domínio sobre a própria vida.
Foram anos de aprendizado e solidão.
Alguns colegas tentaram aproximar-se, encantados com minha rebeldia e com o sotaque suave das planícies de Albuquerque. Mas eu nunca deixei que ultrapassassem a linha, meu pai me mataria. O amor, para mim, era como cavalo bravo: admirava-se à distância, sem tentar montar.
Quando me formei, o México passava por transformações. Ferrovias cortavam desertos, e novas fazendas surgiam onde antes só havia mato e vento. Eu poderia ter ficado na capital, lecionando ou trabalhando com os ricos criadores de cavalos andaluzes.
Mas o destino, ou o sangue, me puxou de volta às colinas.
No dia em que voltei a Albuquerque, o sol se punha vermelho atrás das colinas, tingindo de ouro e sangue a paisagem que eu tanto temia rever.
O vento trazia o cheiro de poeira, cavalo e história. E, enquanto o coche avançava pela estrada de terra, uma sensação estranha percorreu meu peito, como se o passado me observasse por entre os arbustos.
Eu voltei diferente.
Minha chegada foi um escândalo silencioso.
Os empregados cochichavam, as senhoras da vila desviavam o olhar. "Uma mulher estudada", murmuravam. "E veterinária, ainda por cima." Mas meu pai, estava orgulhoso, não parava de exclamar satisfação aos quatro ventos. Dizia aos vizinhos que eu voltei para ajudar nos negócios da fazenda. E eu, para não ferir o meu pai, deixava-o acreditar nisso, ao menos no início.
A paisagem era a mesma de sempre: O rio cortando preguiçoso o vale, os ipês amarelos na encosta, os sinos da capela tocando ao longe.
Mas havia algo novo.
Uma tensão no ar, uma mudança invisível.
Minha amiga e companheira de estudos, Manuela López, já havia regressado ao México antes de mim. Escreveu-me uma carta com sua caligrafia elegante, traçada com tinta sépia, onde me oferecia um convite que, de tão ousado, parecia até um sonho: abrirmos juntas uma pequena clínica veterinária nos arredores de Albuquerque, dedicada ao cuidado dos animais do campo e ao estudo das ciências agrárias, algo quase inédito por aquelas bandas.
A ideia, à primeira vista, soa como loucura.
Mulheres tratando do gado, curando cavalos, avaliando plantações... era o tipo de tarefa que, para os homens da fronteira, pertencia apenas aos que traziam o sol nas costas e o chicote na cintura.
Mas Manuela tinha um espírito tão livre quanto o meu, e havia em suas palavras um fogo que me contagiou.
Aceitei.
Seríamos pioneiras.
Duas mulheres desafiando os limites do deserto e o juízo dos velhos senhores. Duas vozes femininas erguendo-se entre o mugido do gado e o ranger das porteiras.
Passamos semanas trocando cartas, fazendo contas, sonhando o impossível. A clínica ficaria num antigo casarão abandonado, perto do rio Grande, aquele mesmo que se espreguiçava entre as colinas poeirentas e os campos de trigo que balançavam ao vento como ondas douradas.
Ali, diziam os anciãos, o som da água carregava as vozes dos mortos e os segredos dos vivos.
Eu mal podia conter o entusiasmo.
Depois de tantos anos em terras distantes, de ter visto o nascer do sol sobre as cúpulas de Paris e o entardecer em Roma, eu finalmente voltaria para o meu México, para o meu deserto, trazendo nas mãos o saber e no peito a esperança.
Mas o destino tinha outros planos, meu maior desafio ainda me esperava.
Descobri que o principal benfeitor daquela clínica era ninguém menos que Alejandro Hernández, administrava as terras do pai que faziam fronteira com as nossas, senhor de rebanhos e de almas, o mesmo cujo nome ainda fazia meu pai cerrar os punhos.
Um Hernández... O inimigo jurado dos Rodríguez.
E, ainda assim, seria ele o homem cujo dinheiro sustentaria nosso sonho.
O nome que, desde menina, eu aprendi a detestar.
O mesmo que fazia meu pai cerrar os punhos e cuspir no chão.
Um Hernández... O inimigo jurado dos Rodríguez.
E, ainda assim, seria ele o homem cujo dinheiro sustentaria nosso sonho.
Diziam que ele era agora o homem mais poderoso de todo o vale, dono das terras que faziam fronteira com as nossas, senhor de rebanhos e de almas, era arrogante, orgulhoso, indomável.
Cuja fama entre as mulheres era quase lendária.
Alguns o chamavam de o Senhor das Doze Estrelas; outros, de maldição ambulante.
O nome que, desde menina, eu aprendi a detestar.
O mesmo que fazia meu pai cerrar os punhos e cuspir no chão.
Um Hernández... O inimigo jurado dos Rodríguez.
E, ainda assim, seria ele o homem cujo dinheiro sustentaria nosso sonho.
Naquela noite, não consegui dormir.
O vento batia na janela como se sussurrasse velhas histórias de amores proibidos, de sangue derramado, de pactos feitos sob o luar do deserto. Senti, pela primeira vez em muitos anos, um pressentimento, como se o chão sob meus pés começasse a se mover, lento e traiçoeiro, anunciando que minha vida jamais voltaria a ser a mesma.
Foi nesse tempo que percebi que as colinas de Albuquerque guardam segredos antigos.
Segredos de amores proibidos, de pactos quebrados, de rancores que o vento não apaga.
E, enquanto os dias se tornavam mais quentes e as noites mais longas, comecei a entender que nenhum de nós era apenas vítima ou culpado.
Todos éramos feitos da mesma mistura de orgulho e desejo, de terra e tempestade.
O vento sopra do norte, trazendo o cheiro das chuvas de verão. E que algumas histórias, como a dos Rodríguez e dos Hernández, não terminam.
Apenas adormecem sob o pó das estradas, esperando que alguém, um dia, as desperte novamente.
Dizem que o deserto guarda tudo o que o homem tenta enterrar. E eu sabia, no fundo da alma, que meu passado me esperava ali, silencioso, paciente, com o mesmo olhar de um predador antes do salto.
O que poderia dar errado no meu retorno?