4 Capítulo
Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

/ 1

Ponto de Vista de Carolina:
O carro se movia silenciosamente pela noite, um fantasma nas ruas labirínticas da cidade. Seguimos o comboio de Gustavo, uma serpente escura serpenteando pelos bairros de elite, passando por mansões imponentes e cercas vivas bem cuidadas. Meu motorista, um homem chamado Marcos, era eficiente e discreto, um veterano das sombras políticas. Ele sabia instintivamente que não devia questionar.
O destino de Gustavo não era um hospital, como ele havia alegado, nem a clínica discreta que ele às vezes usava para "assuntos familiares urgentes". Era a propriedade particular e fortemente vigiada dos aliados mais próximos de sua família, um lugar reservado para seu círculo íntimo. Um lugar que eu conhecia intimamente, um lugar que eu havia visitado com ele muitas vezes. Um lugar onde nenhum "estranho" poderia entrar sem autorização direta.
Marcos parou a uma quadra de distância, desligando os faróis. "Ele entrou, senhora," ele murmurou, seus olhos nos portões imponentes. "Os guardas o deixaram passar direto."
Eu assenti, meu olhar fixo na entrada. Eu sabia exatamente para onde ele iria lá dentro. A pequena e isolada casa de hóspedes escondida atrás da residência principal, um pequeno luxo que Gustavo mantinha para seus... momentos privados. Seus momentos privados. Meu estômago revirou.
"Espere aqui," eu disse a Marcos, minha voz neutra. "Eu volto logo."
Saí do carro, ajustando o xale em meus ombros, e caminhei em direção à entrada. Os guardas, me reconhecendo, assentiram respeitosamente e abriram o pequeno portão de pedestres. "Boa noite, Sra. Cruz. O Deputado Rios já está lá dentro." Seus sorrisos eram cúmplices, amigáveis. Eles pensavam que eu estava aqui para me juntar a ele. Como estavam enganados.
Passei por eles, me misturando às sombras dos jardins cuidadosamente iluminados. O ar estava denso com o cheiro de jasmim-da-noite, enjoativo e doce. Movi-me silenciosamente, meus sapatos macios mal perturbando os caminhos de cascalho. Meu coração parecia um bloco de gelo, pesado e inerte no meu peito. Eu não estava apenas observando. Eu estava me preparando.
Encontrei meu lugar, escondida atrás de um denso aglomerado de arbustos, com uma visão clara da casa de hóspedes. As luzes estavam acesas lá dentro, lançando um brilho quente e convidativo. Um momento depois, a porta da casa de hóspedes se abriu.
Helô.
Ela saiu correndo, uma visão em um vestido de seda cintilante, seu cabelo loiro uma cascata em seus ombros. Ela se jogou nos braços de Gustavo, suas pernas envolvendo sua cintura enquanto ele a pegava, girando-a em um abraço vertiginoso. Sua risada, aguda e triunfante, perfurou a noite.
"Gustavo! Oh, meu querido, eu vi os drones! Meu nome no céu! Você realmente fez isso!" ela exclamou, sua voz cheia de adoração. "Mas... por que o nome da Carolina primeiro? Você deveria ter colocado o meu!" Ela fez beicinho de brincadeira, um gesto que eu reconheci. Era seu movimento característico quando queria algo.
Gustavo riu, um som profundo e satisfeito. "Meu canarinho. Você sabe que tenho que manter as aparências. Além disso," ele murmurou, seus lábios pressionando um beijo em sua têmpora, "aquilo foi apenas um aquecimento. Você sabe que seu aniversário é na próxima semana. Tenho algo ainda melhor planejado para você então. Fogos de artifício. Só para você."
Fogos de artifício. Lembrei-me do ano anterior, Gustavo me disse que estava muito ocupado com uma votação crucial no Senado para comemorar meu aniversário de forma grandiosa. Ele me presenteou com um colar simples e elegante, dizendo: "O amor verdadeiro não precisa de grandes gestos, Carol. Precisa de devoção silenciosa." Eu sorri, tocada por sua "sinceridade". Ele estava com Helô, assistindo a fogos de artifício.
"Você realmente me mima," Helô arrulhou, aninhando-se em seu pescoço. "Mas você sabe o que eu realmente quero, não sabe? Eu quero que ela se vá, Gustavo. Eu quero ser sua Primeira-dama. Sua esposa. Não apenas seu segredinho."
Os olhos de Gustavo, mesmo a essa distância, continham uma fome possessiva enquanto ele olhava para ela. "Paciência, pequena. Tudo a seu tempo. Você terá tudo o que ela tem, e mais. Confie em mim."
Minha respiração ficou presa na garganta. Tudo o que eu tinha. Tudo o que ela tinha. Ele estava falando da minha vida. Minha posição. Meu futuro. Ele estava planejando entregar tudo para minha irmã.
Lembrei-me de suas palavras: Apenas alguns desentendimentos internos menores... minha tia, um problema de saúde inesperado. Mentiras. Tudo. Ele não estava cuidando dos negócios da família. Ele estava construindo uma nova família. Com minha irmã. Enquanto eu estava sentada sozinha, temendo por sua segurança, acreditando em cada palavra dele. Eu era uma marionete. Uma tola que dançava nas cordas de seu engano.
Helô se afastou, seus olhos brilhando com desafio. Ela enfiou a mão na pequena bolsa, tirando uma pequena caixa delicadamente embrulhada. "Eu trouxe um presente para você, querido. Para celebrar nosso futuro. Mas você tem que abrir sozinho. É... muito especial." Sua voz era um ronronar, escorrendo insinuação.
Os olhos dele escureceram de luxúria. Ele a pegou sem esforço, aninhando-a em seus braços. Ela riu, um som que irritou meus nervos em carne viva. "Meu lindo canarinho," ele sussurrou, seus lábios traçando a curva de seu pescoço.
Ele a carregou pela soleira da casa de hóspedes, as pernas dela ainda enroladas nele. Pouco antes da porta se fechar, ouvi-a sussurrar: "Beije-me, Gustavo." E então, um som úmido e estalado, seguido por seu gemido ofegante. A porta se fechou com um clique, mergulhando a casa de hóspedes em uma escuridão mais íntima e sugestiva. Eu sabia o que aconteceria a seguir. Não precisava ver para saber. A suíte do último andar. Aquela que ele sempre reservava para... ocasiões especiais.
Uma onda de náusea me invadiu. Minha visão ficou turva. Senti-me tonta, como se todo o ar tivesse sido sugado dos meus pulmões. Meus joelhos cederam, e eu caí no chão atrás dos arbustos, as folhas ásperas cravando na minha pele. Lágrimas, quentes e ardentes, escorreram pelo meu rosto, borrando o brilho suave das luzes da casa de hóspedes em uma mancha feia.
Gustavo me prometeu o para sempre. Ele jurou pela honra de sua família. Ele me disse que eu era sua âncora, sua rocha, seu tudo. Tudo mentira. Engano. Uma grande performance encenada apenas para mim. E eu, a estrela de sua ilusão, caí completamente.
Eu vi claramente agora. Minha vida acabou. Meu casamento, antes mesmo de começar, era uma ilusão despedaçada. O sonho de uma família, um futuro, tudo a que eu me apeguei, se foi. Simples assim.
Respirei fundo e com um soluço, forçando os soluços de volta para a garganta. Chega de lágrimas. Não por ele. Não por eles. A voz do meu pai, calma e firme, ecoou em minha mente: "Nunca os deixe ver você sangrar, Carolina. Eles só vão torcer a faca."
Limpei o rosto bruscamente com as costas da mão, a umidade um lembrete frio da minha dor. Três dias. Era tudo o que me restava. Três dias, e Carolina Cruz deixaria de existir.
Voltei para o carro de Marcos, meus passos firmes, meu rosto sem emoção. "Leve-me para casa, Marcos," eu disse, minha voz neutra. "Está tarde."
De volta à mansão, o símbolo imponente dos meus sonhos desfeitos, evitei a suíte principal. O pensamento de entrar naquele quarto, nosso quarto, onde ele eventualmente voltaria dos braços dela, fez meu estômago se contrair. Encontrei um quarto de hóspedes, tranquei a porta e afundei nos lençóis brancos imaculados. Eu já era um fantasma na minha própria vida.
Horas depois, muito depois da meia-noite, ouvi o leve ronco do carro de Gustavo. Então seus passos, pesados e impacientes, ecoando pela casa silenciosa. "Carol? Meu amor, onde você está?" Sua voz estava grossa de sono, ou talvez, de paixão persistente.
Ouvi-o checando nossa suíte, depois chamando novamente, sua voz se elevando em irritação. "Carolina! Onde diabos você está?"
Um momento depois, a voz de Roberto. "Senhor, o carro da Sra. Cruz... não está na garagem. Ela deve ter saído."
O rugido de frustração de Gustavo abalou as próprias fundações da casa. "Encontrem-na! Agora! Vasculhem cada centímetro desta cidade se for preciso! Eu quero que ela seja encontrada!"
Ouvi passos pesados trovejando pelo corredor, se aproximando. Meu coração batia forte, mas forcei minha respiração a permanecer regular. A porta do meu quarto de hóspedes se abriu com um estrondo.
Gustavo estava lá, seus olhos arregalados com uma mistura de raiva e pânico. Ele parecia desgrenhado, o paletó torto, o cabelo bagunçado. Ele me viu deitada na cama, fingindo dormir, meus olhos se abrindo lentamente como se despertados pela comoção.
Sua raiva evaporou, substituída por um profundo alívio que fez seus ombros caírem. Ele atravessou o quarto em duas passadas, me puxando para um abraço esmagador. "Carol! Oh, graças a Deus! Eu pensei... pensei que você tinha ido embora. Pensei que tinha te perdido." Sua voz vacilou, grossa com um terror que parecia quase genuíno.
Bati em suas costas gentilmente, minha mão leve e desdenhosa. "Gustavo, querido, o que há de errado? Por que você está gritando?"
Ele se afastou, seus olhos procurando os meus, ainda cheios de um medo persistente. "Você não estava no nosso quarto. Seu carro tinha sumido. Eu só... entrei em pânico. Não posso te perder, Carol. Não posso."
Forcei um sorriso fraco. "Eu só não estava me sentindo bem. As emoções do dia, sabe. Tomei um sonífero e vim para um quarto mais silencioso. Não queria te incomodar."
Ele olhou para mim, um suspiro suave e aliviado escapando de seus lábios. "Oh, Carol. Meu amor. Você me assustou de morte." Ele beijou minha testa, depois me puxou para perto novamente, me segurando firme contra seu peito. "Nunca mais faça isso comigo. Eu preciso de você. Preciso de você mais do que você imagina."
Ele precisa de mim. Não me ama. Precisa de mim. Ele precisava da minha perspicácia política, minhas conexões, o nome da minha família, a fachada que eu apresentava ao mundo. Ele precisava de mim para impedir que seu castelo de cartas desmoronasse.
"Estou aqui, Gustavo," sussurrei, minha voz uma mentira suave. "Sempre."
Ele me segurou até adormecer, sua respiração quente no meu pescoço. Sua mão, pesada e possessiva, repousava sobre minha barriga, uma ironia cruel. Fiquei acordada, olhando para o teto, meu coração uma pedra. Ele pensava que me tinha. Ele pensava que estava seguro. Ele não tinha ideia de que a mulher em seus braços já estava planejando sua queda. Fechei os olhos, um sorriso frio e sem humor nos lábios.