6 Capítulo
Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

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Ponto de Vista de Carolina:
Meu celular vibrou, me tirando de um sono agitado. Ainda estava escuro lá fora, a quietude da madrugada pesada no ar. Alcancei o aparelho, meus dedos roçando o vidro frio. Um número anônimo. Meu coração deu um baque cansado. Eu sabia quem era.
A tela se iluminou com uma imagem. Um relatório de ultrassom granulado. "Bebê Rios", dizia a legenda, seguida por um emoji sorridente triunfante. Meu estômago se contraiu, uma reviravolta doentia.
Então veio outra imagem. Gustavo, o rosto suave com uma emoção que eu nunca tinha visto dirigida a mim, se inclinando, pressionando um beijo terno na barriga inchada de Helô. Helô, sorrindo para ele, os olhos brilhando com vitória pura e absoluta.
O rosto da minha irmã, radiante com a alegria da traição compartilhada. As imagens queimaram em minha retina, gravando-se em minha alma. Não havia como confundir o remetente. Helô. Minha irmãzinha, torcendo a faca.
Eu não senti nada. Nenhuma raiva, nenhuma lágrima, nenhuma dor. Apenas um vazio oco e ecoante. Meu coração, antes uma coisa vibrante, era agora um peso frio e morto no meu peito. Ela queria uma reação. Ela queria me ver quebrar. Mas eu já estava quebrada, além do reparo. Ela chegou tarde demais.
Os dois dias seguintes passaram em um borrão. Gustavo não ligou, não mandou mensagem. Ele estava com Helô, bancando o futuro pai dedicado, o amante comprometido. Eu já era um fantasma para ele, pairando na casca vazia da nossa mansão.
Eu me apaguei sistematicamente. Não apenas da vida dele, mas da minha própria. Doei cada joia cara, cada vestido de grife, cada bem material que ele já me deu. Queimei fotos antigas, cartas, qualquer coisa que guardasse uma memória de nós. As chamas as consumiram, transformando amor em cinzas, memórias em fumaça.
Fiz uma única mala, discreta. Algumas mudas de roupa, a cópia velha e gasta da Constituição Federal do meu pai, e uma pequena foto desbotada dele e da minha mãe, sorrindo. Todo o resto, cada último vestígio de Carolina Cruz, se foi.
Antes do amanhecer do terceiro dia, acordei com um sobressalto. A casa estava silenciosa, envolta em escuridão. Vesti-me rapidamente, meus movimentos precisos e deliberados. Eu estava pronta. Desci a grande escadaria uma última vez, o silêncio da casa um contraste gritante com a tempestade que se formava dentro de mim.
Meu celular vibrou novamente. Outra mensagem anônima. Outra torção da faca. Hesitei por um momento, depois abri.
Era Helô. "É um menino, Carolina. Gustavo está tão feliz. Ele está oficializando tudo. Finalmente, serei eu ao lado dele." Outra foto se seguiu. Um ultrassom, inconfundivelmente masculino. Meu irmão? Meu sobrinho? Oh, as teias emaranhadas que tecemos.
"Você realmente deveria apenas fazer as malas e ir embora em silêncio," sua mensagem continuou, tingida de alegria maliciosa. "Será mais fácil para todos. Especialmente para você."
Olhei para a mensagem, um leve sorriso tocando meus lábios. Mais fácil para todos. Oh, Helô, você não tem ideia.
Meus dedos voaram pelo teclado. "Parabéns, Helô," digitei, as palavras estranhamente ocas. "Que todos os seus desejos se realizem. Apenas lembre-se, às vezes o que você deseja não é o que você espera."
Apertei enviar. Então, silêncio. Um silêncio profundo e absoluto.
Um sedan preto parou do lado de fora, seu motor um ronronar baixo. O carro de Carlos. Minha fuga.
Peguei minha única mala, meus passos leves, sem peso. Ao sair, uma chuva fina começou a cair, batendo suavemente contra os vitrais da capela próxima. A mesma capela onde Gustavo e eu deveríamos nos casar. O local do nosso futuro, agora lavado pelas lágrimas dos céus.
Assim que o carro entrou na estrada principal, a chuva se intensificou, borrando o mundo lá fora. Pela janela riscada, eu o vi. O comboio de Gustavo. Parando na capela.
Meu coração deu um salto súbito e doloroso. Coincidência? Ou outra reviravolta cruel do destino? Eu conhecia aquela capela. Era onde havíamos planejado nosso casamento.
Ele saiu, um grande guarda-chuva erguido, protegendo Helô. Ela emergiu do carro, sua figura delicada agora inegavelmente redonda, um vestido de maternidade agarrado às suas curvas. Grávida. Minha irmã. Meu noivo. Na capela do nosso casamento.
Ele a ajudou a subir os degraus, a mão solicitamente em suas costas. Ele sussurrou algo, e ela riu, um som brilhante e alegre. Minha visão ficou turva novamente, mas desta vez, não eram lágrimas. Era a chuva, lavando os últimos vestígios da minha antiga vida.
Gustavo olhou para cima, seus olhos varrendo a rua, talvez uma verificação habitual de político. E então, seu olhar se fixou no meu. Através do vidro riscado pela chuva, do outro lado da rua, nossos olhos se encontraram.
Seu rosto, tão cheio de ternura por Helô momentos antes, se contorceu em uma máscara de puro choque. Confusão, descrença e, então, um horror crescente. Seus lábios se moveram, formando silenciosamente meu nome. Carolina.
Olhei de volta para ele, minha expressão indecifrável. Eu não senti nada. Nenhuma raiva, nenhuma dor, nenhum amor. Apenas um vasto e ecoante vazio. E então, lenta e deliberadamente, virei a cabeça.
O carro acelerou, deixando-o parado na chuva, seu grito silencioso engolido pelo aguaceiro. Eu cortei o último fio. O passado estava para trás. O futuro, uma lousa em branco.