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Capítulo 6 Reencontro

Antes que Allison sequer percebesse o movimento, levantou-se abruptamente, sua atenção fixada em Kyle enquanto ele atravessava o quarto.

A confusão e a descrença superaram qualquer resquício de surpresa ou saudade em seu íntimo.

Observando Kyle se inclinar sobre o garotinho, com as feições dele suavizadas pela preocupação, ela viu a mesma ternura que ele reservava para Lucas.

Quase quatro anos e um mês haviam se passado desde o fim do casamento deles. A criança tinha apenas três anos e sete meses, provando que a outra mulher já estava grávida antes de eles se separarem oficialmente.

Segurando a grade de metal da cama do hospital, Allison apertou com tanta força que os dedos dela ficaram pálidos, e todo seu corpo começou a tremer.

A traição doía como nunca, uma dor mais aguda do que qualquer ferida, especialmente quando vinha do homem que ela amava.

Não importava quanto tempo passasse, a dor continuava a ser tão forte.

Durante todo esse tempo, ela pensara que o divórcio havia acontecido por causa da fraqueza de Kyle e sua incapacidade de enfrentar a mãe. Nunca lhe passou pela cabeça que o homem de fala mansa em quem ela confiava a havia traído antes mesmo de o casamento terminar.

Nesse momento, o dia voltou à mente dela, a memória mais nítida do que nunca: Kyle a abraçava com força, e a voz dele estava embargada pela culpa, enquanto sussurrava o pedido de desculpas.

Só agora ela finalmente percebia o que esse pedido de desculpas escondia.

A raiva e a humilhação a invadiram, tirando o calor do corpo dela e a deixando com a sensação de que poderia desmaiar a qualquer momento.

Derek a viu se desestabilizar no momento em que a postura dela vacilou. Ela não estava bem desde que os novos vizinhos ocuparam a cama ao lado, o que a deixou com os nervos à flor da pele.

Como ele não era de se intrometer, guardou seus pensamentos para si.

Há poucos minutos, Allison não queria nada mais do que atacar Kyle por tê-la traído. Então, outra mulher entrou correndo no quarto e, por um instante, Allison sentiu vontade de atacar os dois.

A mulher impressionante se aproximou apressadamente, seus saltos batendo no chão e a voz tingida de preocupação ao perguntar: "Querido, nosso filho está bem?"

Sem olhar para ela, Kyle ajeitou o travesseiro da criança, calmo e atencioso.

"O médico me disse que é só uma pneumonia leve. Eles vão mantê-lo em observação por mais um tempo", ele respondeu.

Quando os olhos de Allison se fixaram no rosto da mulher, todo o corpo dela se enrijeceu. O reconhecimento foi instantâneo - ela reconheceria Haylee Nash em qualquer lugar.

Nesse momento, as lembranças começaram a surgir. Anos atrás, Kyle costumava mimar Haylee. Embora ela tivesse passado anos trabalhando no exterior, cada volta para casa incluía uma visita à mãe de Kyle, que a tratava como se fosse da família.

Os olhos de Allison ficaram vermelhos de raiva, e ela quase desejou que alguém lhe entregasse uma faca nesse momento.

O orgulho a havia levado a passar por tanta coisa, mas agora tudo o que ela sentia era humilhação, já que havia sido enganada pela pessoa em quem mais confiava.

Após se certificar de que o menino estava bem, Kyle se virou e encontrou o olhar dela. Um lampejo de surpresa surgiu em seu rosto quando percebeu quem diante dele.

Lutando para se manter firme, Allison forçou as feições dela a assumirem uma máscara de serenidade, chegando a esboçar um pequeno e educado sorriso. Ela se recusava a deixar que alguém a visse quebrada ou derrotada.

Kyle ficou paralisado, com uma mistura de culpa, pânico e descrença estampada no rosto dele. Seus lábios se entreabriram, mas nada saiu.

Haylee já estava com o olhar preparado, claramente irritada com a atenção dispersa de Kyle, mas no momento em que viu Allison, essa irritação desapareceu.

"Allie... é você? Quando voltou?", Kyle gaguejou.

Allison permaneceu em silêncio, compreendendo-o melhor do que ele jamais suspeitaria, pois sempre soubera que ele era fraco, inclinado a se curvar aos desejos da própria mãe. Provavelmente, o caso não foi ideia dele, mas ele também nunca o impediu.

Quanto mais Allison permanecia em silêncio, mais ansioso Kyle ficava.

O rosto de Haylee ficou vermelho, e as palavras dela saíram em um sussurro: "A-allie..."

Allison sorriu levemente, ainda em silêncio, dando ao casal traidor tempo de sobra para se contorcer.

Observando tudo isso, Derek finalmente se deu conta da situação. Um ex-casal se reencontrando... não era de se admirar que o clima tivesse mudado tão drasticamente.

De repente, Allison sentiu uma mão pousar em suas costas, breve, mas firme. O leve calor atravessou a blusa dela, acalmando-a e ajudando-a a recuperar a compostura.

Não era do feitio de Derek se intrometer, mas esta mulher era responsável pelo filho dele agora, e ele não queria que ela ficasse abalada.

Além disso, ele sempre teve esse lado protetor, acreditando que qualquer pessoa que cuidasse do filho dele por tanto tempo de alguma forma pertencia ao seu escudo. Em sua visão, cuidar dela não era diferente de cuidar de um funcionário de confiança ou de uma empregada doméstica de longa data.

Respirando fundo para se acalmar, Allison fez sua voz soar leve: "Parece que seu filho cresceu muito, Kyle."

Por um instante de imprudência, ela teve o impulso de atravessar o quarto e estapear-lhe o rosto, imaginando que talvez só assim ele compreenderia a profundidade da dor que a consumia.

Mas esse fogo não era mais para ele. Ele não merecia a raiva ou o constrangimento dela.

Afinal, eles estavam em um hospital. Duas crianças estavam por perto, e um ataque público só a faria parecer insignificante, ainda mais na frente de Derek, um homem que, apesar do envolvimento, ainda era um estranho.

As bochechas de Kyle coraram de imediato, e seus lábios se entreabriram na tentativa frustrada de formular uma explicação que simplesmente não vinha. "Allie..."

Nesse momento, os olhos de Lucas se abriram e, ao ver Allison por perto, ele segurou a mão dela e disse: "Mãe, quem é esse homem?"

No mesmo instante, a dureza nos olhos de Allison desapareceu. Se abaixando, ela tocou a testa do filho, aliviada ao encontrá-la mais fria. "Está tudo bem, querido. Ele é só um velho amigo meu."

A resposta fez Kyle parar, a percepção brilhando em seus olhos, pois ele sabia que ela não podia ter filhos. Então, seu olhar se desviou de Lucas para Derek, que estava parado em silêncio perto deles.

Observar a proximidade do menino com ela, juntamente com o apoio silencioso do outro homem, trouxe um pouco de alívio a Kyle. Para ele, desde que ela parecesse feliz, talvez isso fosse suficiente, mesmo que ela fosse apenas a madrasta do menino.

Allison não lhe deu atenção. Manter a calma era o único caminho a seguir, especialmente pelo bem de Lucas.

Boas maneiras poderiam mantê-la sob controle, mas fingir que nada havia acontecido seria pedir demais.

A febre de Lucas finalmente passou com a ajuda do soro, e como o hospital estava lotado, eles receberam alta à tarde.

Ao voltar para a propriedade de Derek, Allison colocou Lucas na cama. Em seguida, ela saiu, determinada a pegar algumas coisas no apartamento antigo dela, já que não havia levado nada para Streley devido à viagem inesperada.

A doença de Lucas a impedia de ficar longe por muito tempo, então ela pretendia voltar logo após pegar seus pertences.

Recusando a sugestão de Derek de enviar um motorista, ela chamou um táxi e foi sozinha para o apartamento que havia abandonado quatro anos atrás.

O teclado da porta mostrava apenas leves vestígios de poeira, nada parecido com o que ela esperava de um lugar intocado. Uma pontada de suspeita surgiu, mas ela digitou o código e entrou.

Na porta, um par de chinelos femininos desconhecidos a cumprimentou. Parando abruptamente, ela começou a observar o lugar. A disposição dos móveis havia mudado, e pertences estranhos estavam espalhados pelo espaço. Era óbvio que alguém havia se acomodado ali.

A descrença a dominou, transformando seus pensamentos em estática e apertando o peito dela com uma dor angustiante.

Então, Allison correu para o quarto. Sobre a mesa de cabeceira, havia uma foto de Kyle, Haylee e o filho deles, todos sorrindo em uma moldura elegante. A realidade a atingiu com um choque.

Agindo por puro instinto, ela pegou a foto e a jogou no chão. O vidro se estilhaçou sobre a madeira, ecoando o rompimento dentro dela.

A compostura da mulher desapareceu, restando apenas amargura e dor.

De repente, ela se sentiu como qualquer outra mulher que havia sido traída. Por que dizer que a amava enquanto dividia a cama com outra? Por que fingir tristeza no divórcio? Como ele pôde ter a audácia de convidar a amante dele e o filho deles para o que um dia foi a casa deles, até mesmo a cama? Como o homem que ela amava de todo o coração poderia ser um canalha desses?

A profundidade do amor fazia tudo parecer mais patético agora. Ela não parava de se perguntar como alguém poderia chegar tão baixo.

A tristeza deu lugar à raiva enquanto ela percorria o quarto, quebrando tudo o que encontrava pela frente. Lágrimas quentes escorriam por seu rosto. Foi só quando ela transformou o lugar em ruínas que sua energia se esgotou, a deixando abatida e vazia.

Allison só se conteve no hospital por causa de Lucas, mas ela queria poupar Kyle. Afinal, nos últimos dois anos, ela realmente havia superado tudo.

Mas a visão daquele trio feliz ao lado de sua cama dissipou qualquer resquício de compaixão, deixando-a vazia, sem nada mais a oferecer.

Quando a tempestade finalmente passou, ela enxugou as lágrimas, jogou água no rosto, pegou o celular e ligou para a polícia.

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