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Capítulo 7 Jogando a carta da nostalgia

Kyle entrou pela porta da frente, tendo voltado às pressas assim que recebeu uma ligação. A cena que o recebeu não era nada parecida com o que ele havia imaginado: Allison estava reclinada no sofá, tomando água, em uma postura quase régia. Uma escritura de propriedade estava sobre a mesa, enquanto dois policiais uniformizados estavam sentados à frente dela, observando a cena se desenrolar em silêncio.

Imediatamente, ele entendeu o que estava acontecendo.

Com uma frustração mal disfarçada, ele se aproximou dela. "Allie, não podemos resolver isso como adultos? Vamos conversar em particular."

Sem qualquer emoção, Allison colocou o copo sobre a mesa e o encarou em silêncio.

Então, um dos policiais se levantou e falou, com uma voz educada, mas firme: "Senhor, poderia me mostrar sua identificação, por favor? A senhora Wade informou que você entrou na casa dela sem permissão. Precisamos da sua cooperação."

Nervoso, Kyle o entregou sua carteira de motorista.

"Isso é um mal-entendido, policial. Nos conhecemos, prometo", ele explicou rapidamente.

Virando-se para Allison, Kyle tentou puxá-la para um canto, confiando nos velhos hábitos, mas ela ergueu a mão, o impedindo. "Se tem algo a dizer, pode dizer aqui mesmo, na frente da polícia."

O maxilar de Kyle se contraiu enquanto ele abaixava a voz, inclinando-se para falar: "Olhe, você se mudou. O lugar estava vazio e, como é mais perto do trabalho da Haylee, viemos para cá por um tempo. Agora que você voltou, vamos embora, sem problemas. Era mesmo necessário chamar a polícia? Além disso, minha mãe pagou por este apartamento."

Essa era a casa que Allison e Kyle dividiam após o casamento, mas a propriedade havia sido transferida para o nome dela como parte do acordo de divórcio. Nem nos seus sonhos mais loucos ela esperava que Kyle e Haylee entrassem na casa assim que ela saísse.

A família dele tinha casas de sobra em Streley, então não havia razão para eles escolherem essa, a menos que quisessem irritá-la.

Para Allison, era óbvio que a mãe de Kyle estava por trás disso, na esperança de deixá-la abalada, talvez até a levando a desistir do apartamento. Talvez eles ainda achassem que ela tinha esperanças de uma reconciliação, ou que poderiam forçá-la a se mudar.

A raiva fervilhava dentro de Allison, que se recusava a escondê-la. Então, sua voz ecoou, nítida e clara: "Kyle Clark, por que não dá uma olhada na escritura que está bem na sua frente? Meu nome é o único que consta nela. Não o seu, nem o da sua mãe, nem o da Haylee. Nenhum de vocês tinha o direito de entrar aqui sem pedir. Isso é invasão de propriedade, simples assim."

Kyle tentou arranjar uma desculpa: "Tentei te avisar, mas não consegui falar com você... seu celular estava desligado..."

Allison já estava cansada de ouvir isso. Se ele realmente quisesse entrar em contato, poderia ter encontrado uma maneira.

Agora, tudo sobre ele, cada desculpa, cada palavra, a deixava com o estômago embrulhado.

"Pode explicar tudo para a polícia", Allison retrucou, sua paciência esgotada. Ela não estava disposta a discutir com ele por mais um segundo.

Os policiais trocaram um olhar rápido e experiente, pois já haviam presenciado discussões como essa vezes demais para acreditar que terminariam bem. Geralmente, o trabalho deles era apenas manter a paz.

A mente de Kyle estava a mil, desesperado para evitar uma ida à delegacia e uma mancha permanente em seu histórico. Se ele não tivesse ouvido sua mãe e escolhido outro lugar, nada disso estaria acontecendo. Agora, o peso esmagador desse arrependimento se abatia sobre ele.

Sua última esperança era persuadir Allison. Ele sabia que a teimosia era uma de suas marcas mais evidentes, afinal, ela jamais recuava quando se tratava de enfrentar a própria mãe dele.

Relutantemente, ele se forçou a implorar: "Allie, o que quer de mim? É só dizer, e farei o que você mandar."

Allison o observava com um distanciamento frio, mal conseguindo se lembrar do que havia visto nele.

"Não tenho nada a dizer a você. Vamos seguir a lei e deixar que os policiais resolvam isso", ela respondeu, ansiosa para que essa situação acabasse logo.

Os policiais mantiveram distância, esperando que os dois resolvessem a questão sem precisar da ajuda deles.

Kyle tentou novamente: "Depois de tudo o que passamos, não pode me dar uma chance de consertar isso? Concordarei com qualquer coisa, é só me dizer o que quer."

Diante dessas palavras, a expressão dela se azedou. Para ela, trazer à tona lembranças antigas agora era algo ridículo. "Não acha que está um pouco tarde para usar a carta da nostalgia?"

Derrotado, Kyle abaixou a cabeça, procurando por qualquer fio de esperança.

Nesse momento, um policial se aproximou, quebrando o silêncio: "Senhor Clark, você precisará vir conosco para ser interrogado na delegacia."

Kyle estava desesperado para adiar isso. "Não podemos resolver isso aqui? Ela é minha ex-esposa, podemos resolver se nos derem um momento."

Allison revirou os olhos com a desculpa patética dele e, de repente, seu celular vibrou com um número desconhecido.

Quando ela atendeu, a voz de Lucas ecoou do outro lado da linha: "Mãe, quando você vai voltar?"

Allison foi para a varanda, assumindo um tom mais suave. "Já estou terminando, querido. Voltarei em breve. Você comeu? Não se esqueça de que precisa de uma boa refeição para manter esses músculos crescendo."

Desde que Derek apareceu, Lucas estava nervoso, verificando o relógio a todo momento, preocupado que sua mãe pudesse desaparecer sem avisar. Segurando o celular de Derek com as duas mãos, ele pediu: "Mãe, terminei de comer como você disse... onde você está? Posso ir te buscar se quiser!"

Como Lucas ainda estava com febre, Allison não podia arriscar que ele saísse no frio. Mesmo assim, ela ainda tinha que terminar de discutir com Kyle. "Fique em casa e espere por mim. Voltarei em breve."

Do outro lado da linha, a voz de Derek entrou na conversa, firme e fria: "Quer que eu mande um carro para você?"

Observando a expressão ansiosa do filho, Derek sabia que não podia deixar Allison escapar novamente.

Allison tentou manter a calma ao responder: "Não, as coisas estão se resolvendo aqui."

"Aconteceu alguma coisa?", Derek perguntou, mantendo o mesmo tom.

Allison não fazia ideia de como ele havia percebido a tensão em sua voz, mas não precisava que mais ninguém se intrometesse. "Está tudo bem. Voltarei em breve. Por favor, fique de olho no Luc, principalmente se a febre aumentar."

Após encerrar a ligação, ela encarou Kyle e disparou: "Tenho um compromisso. Se tiver algo mais a dizer, pode explicar aos policiais."

Kyle se mexeu, se recusando a olhar para ela. "Sinto muito. Meu filho ainda está no hospital... você também tem seu filho agora. Pelo bem das crianças, e o que quer que tenha acontecido, foi culpa da minha família, não sua. Por favor, me diga o que quer. Farei qualquer coisa."

Por um instante, a raiva de Allison diminuiu. Ela chamara a polícia na esperança de que a família Clark finalmente aprendesse a respeitar seus limites, plenamente consciente do que isso poderia significar para eles: prisão, escândalo público e reputações irremediavelmente manchadas.

Mas ela também sabia que a mãe de Kyle nunca a deixaria em paz se as coisas terminassem assim.

Olhando para Kyle, tudo o que Allison sentia era nojo. Ela queria cortar todos os laços com ele.

"Vou te dizer o que vai acontecer. Você me pagará quatro anos de aluguel pelo valor de mercado, cobrirá os reparos de quaisquer danos, arrumará suas coisas e se mudará até o final da semana. Depois disso, não quero ver você nem ninguém da sua família nunca mais."

Kyle acenou com a cabeça rapidamente, desesperado para deixar essa confusão para trás. "Com certeza. Obrigado."

Virando-se para os policiais, Allison abaixou a cabeça. "Desculpem pelo transtorno, policiais. Vamos resolver isso entre nós."

Os policiais, mais do que felizes em ir embora, lhes deram algumas palavras de despedida e saíram pela porta.

Em questão de minutos, Kyle transferiu o dinheiro e prometeu ir embora dentro de 48 horas.

Antes de sair, Allison parou, e a pergunta que a assombrava há anos finalmente veio à tona: "Kyle, por que você a escolheu naquela época?"

Mesmo que as respostas doessem, ela precisava delas.

Os olhos de Kyle estavam fixos no chão enquanto ele lutava para encontrar as palavras. "Não foi intencional. Você estava viajando a trabalho e eu bebi mais do que deveria. Sinceramente, pensei que fosse você. As coisas saíram do controle e ela acabou engravidando. Minha mãe sempre sonhou em ter um neto. Você sabe como ela é..."

Allison ergueu a mão, o interrompendo. "Já chega. Vá embora."

Após ele sair, ela se encostou na porta, sentindo suas forças se esvaírem.

O plano era apenas pegar uma muda de roupa, mas parecia que toda a sua vida já havia sido apagada dessas paredes. O ar abafado a sufocava, pressionando-a por todos os lados. Agora, não havia mais nada ali para ela.

Sem pegar nada, ela saiu para o corredor, apenas para encontrar Derek parado na entrada. A presença dele a surpreendeu. "O que está fazendo aqui?"

O olhar de Derek se desviou para as mãos vazias dela, sem nenhuma bagagem à vista. Ele se lembrou de ter cruzado com Kyle, que saiu com uma expressão completamente derrotada.

Sem se preocupar em fazer perguntas, ele respondeu: "Vim te levar para casa."

O olhar no rosto dele era de resignação, como se toda essa tarefa tivesse sido ideia de outra pessoa.

Na verdade, foi. Seu filho olhou nos seus olhos e insistiu: "Vá buscar a mamãe."

A viagem foi silenciosa, pois nenhum dos dois tinha muito a dizer. Além de Lucas, eles não tinham nenhum assunto em comum, e Allison não tinha energia para conversas banais.

Quando o carro passou por um shopping, ela finalmente falou: "Pode parar? Preciso comprar algumas coisas."

Derek respondeu: "Tudo o que precisar, você encontrará em casa."

Allison não se deu ao trabalho de discutir, já que não pretendia ficar na casa dele por muito tempo.

Se recostando no banco, ela pegou o celular e enviou uma mensagem rápida para Tricia. "Estou de volta."

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