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Capítulo 8 Eu sou a culpada

A ligação de Tricia iluminou a tela antes que Allison tivesse tempo de se sentar.

"Por que voltou sem me avisar? Achei que você só voltaria daqui a dois meses. Luc está com você? Vocês vão ficar, ou é só uma parada? Onde você está, aliás? Vou passar aí depois do trabalho e te arrastar para jantar!"

As palavras de Tricia saíram de uma só vez, sua voz alta o suficiente para Derek ouvir.

Allison, exausta demais para manter as aparências, respondeu brevemente: "Os planos mudaram. Tive que voltar para casa mais cedo. Pode me ajudar a colocar meu apartamento à venda? Preciso vendê-lo rápido, só me consiga um preço justo."

A rede de contatos de Tricia se estendia por toda a cidade. Se alguém pudesse vender o imóvel rapidamente, seria ela.

Assumindo que Allison estava pronta para encerrar esse capítulo, Tricia não hesitou.

Allison segurava o celular com força, tomando cuidado para não dizer demais, evitando que Tricia fizesse perguntas que ela não estava pronta para responder. "Luc está com febre. Não consigo lidar com mais do que isso agora. Me dê alguns dias, depois conversamos."

O tom de Tricia se suavizou. "Ele está bem? Talvez eu devesse ir ver vocês."

"É só um resfriado. Já fomos ao médico, então não precisa se preocupar. Só preciso de um pouco de tranquilidade, mas te ligo em breve."

Percebendo a exaustão de Allison, Tricia insistiu: "Tudo bem, mas se cuide, tá? E se precisar de alguma coisa, é só ligar."

Mais tarde, quando Allison entrou pela porta, Lucas correu até ela, se agarrando ao seu pescoço. Ajoelhando-se, ela o abraçou com força, sentindo algumas das suas preocupações se dissiparem enquanto as mãozinhas dele se agarravam a ela.

"Onde você estava, mãe?", Lucas perguntou, sua voz trêmula enquanto tentava não chorar.

"Fui na minha antiga casa", Allison respondeu, passando a mão pelos cabelos dele.

Lucas se inclinou, sussurrando: "Pode me levar para lá quando eu melhorar? Não quero ficar aqui."

Derek ouviu cada palavra, mas manteve distância, deixando que eles tivessem um momento a sós.

Allison colocou Lucas no sofá cuidadosamente, criando espaço entre eles. "Essa casa é maravilhosa, não é? Os quartos são enormes, há mais brinquedos do que você pode imaginar, e a cozinheira faz a melhor comida. Talvez possamos nos acostumar com isso, pelo menos por um tempo."

Lucas encostou a bochecha no braço de Allison, sua voz soando baixa, mas firme: "Só quero ficar onde você estiver. Se você ficar aqui, então eu também ficarei."

No jardim, Derek estava com as mãos nos bolsos. "Quando pretende contar tudo a ele?"

Ele esperava que Allison fosse quem desse a notícia, assumindo o peso de decepcionar o menino em seu lugar.

Em resposta, ela balançou a cabeça. "Não enquanto ele estiver doente. Ele precisa melhorar primeiro."

O olhar do homem se deteve na casa. "Já pensou no que sugeri? Ficar um pouco, só até ele se adaptar?"

"Já pensei nisso. Quando ele estiver saudável, vou matriculá-lo na pré-escola. Novas rotinas, novos amigos... isso deve ajudá-lo a se adaptar. Depois de algumas semanas, ele mal perceberá que estou longe."

Esses dias lhe dariam tempo para organizar seu coração, encontrar um emprego e concluir a venda de seu apartamento. Ela esperava que Lucas se adaptasse ao seu novo mundo.

Derek acenou com a cabeça, sua aprovação evidente. "A oferta que fiz ainda está de pé. Dois milhões, se você ficar e ajudar na transição."

Allison abriu um leve sorriso e balançou a cabeça. "Nunca criei Lucas por dinheiro, e nunca quis nada da família dele."

Nesse momento, Derek estreitou os olhos ligeiramente, observando o rosto dela.

Allison explicou rapidamente: "Por favor, não leve isso a mal. Não espero que ele me retribua no futuro, e não vou aparecer aqui pedindo para visitá-lo. Só deixe que ele me ligue às vezes, se quiser. Isso é tudo o que peço."

Satisfeito com a resposta dela, Derek relaxou.

"Ainda tenho os documentos de guarda dele. Quando ele estiver melhor, voltarei para Blirson e transferirei tudo para você oficialmente", Allison acrescentou.

Derek aceitou com um aceno de cabeça, sem surpresa.

A oferta anterior de dois milhões não havia a convencido, mas ele achava que ela estava se fazendo de difícil. Agora, descobriu que ela era bastante sensata.

Naquela noite, Lucas se aconchegou ao lado de Allison. Suas bochechas ainda estavam vermelhas por causa da febre, e Allison não teve coragem de recusá-lo, então puxou o cobertor sobre os dois.

Com as luzes apagadas e a casa silenciosa, eles sussurravam na segurança de seu pequeno casulo.

Esse foi o primeiro momento que eles tiveram a sós desde que saíram de Blirson.

Pressionando o rosto no ombro dela, Lucas perguntou: "Mãe, aquele homem é mesmo meu pai?"

Allison pretendia esperar um pouco mais para ter essa conversa, mas como ele perguntou, decidiu ser honesta.

"Sim, ele é seu pai", ela respondeu, com a voz suave.

Lucas hesitou, olhando para o rosto dela no escuro. "Então por que vocês não estão juntos? Por que ele quer que eu fique com ele agora?"

Allison pensou em uma história que ele se lembraria. "Se lembra da gatinha branca que encontramos no beco na primavera passada?"

Lucas franziu a testa, mas confirmou com um aceno de cabeça. "A que alimentávamos todos os dias, né?"

"Essa mesmo. Se lembra de como cuidamos dela por quase uma semana, e depois a vizinha do quarteirão ao lado veio procurá-la?"

Lucas se lembrou. "Ela disse que era a gata dela e que ela havia ido longe demais para voltar para casa sozinha."

Allison sorriu, apertando a mão dele. "Você fez aquela caminha para ela com suas camisetas velhas e ficou tão triste em deixá-la ir quando a vizinha veio."

A gatinha veio à mente de Lucas, e seu peito se apertou. "Ela tinha uma casa. Aquela era a família dela, não eu."

Soltando um suspiro silencioso, Allison continuou: "Por dias, aquela velha procurou por todos os cantos, desesperada para encontrar seu animal de estimação."

Puxando-o para mais perto, ela esperou até que os olhos dele encontrassem os dela.

"Você precisa ouvir isso, Luc. Há muito tempo, seu pai te perdeu por acidente, e eu te achei. Te criei com todo o meu coração. Agora que ele voltou, é a minha vez de te deixar ir e te reunir com ele. Isso faz sentido?"

Lucas ponderou as palavras dela, a confusão estampada em seu rosto. O tom gentil e os olhos tristes da mãe indicavam que isso era algo sério.

As lágrimas ameaçavam cair, mas ele as conteve. "Mãe, ainda não entendo por que as coisas têm que mudar."

A verdade sempre encontrava seu caminho no coração de uma criança, não importava a idade, e sempre deixava uma marca.

Embora Lucas sempre tivesse agido como se fosse mais velho do que sua idade, dessa vez ele não teria o privilégio de ter mais tempo para organizar seus sentimentos.

Allison olhou nos olhos dele, suas palavras calmas, mas firmes. "Luc, ouça com atenção. Não fui eu quem te trouxe ao mundo, eu te encontrei. Como eu não podia ter um filho, fiquei com você e fingi que poderia ser sua mãe. Seu pai biológico nunca parou de te procurar. Não foi porque ele não te amava, ele só não conseguia te encontrar, já que eu te mantive escondido."

Forçando-se a manter a compostura, ela conseguiu dizer: "Eu sou a culpada aqui."

Allison segurava as lágrimas, desesperada para manter a voz firme por causa dele.

Contendo os soluços, Lucas balançou a cabeça. "Isso não é verdade! Você é minha mãe, tem que ser! Foi você quem me trouxe ao mundo!"

Virando-se rapidamente, Allison enxugou o rosto e continuou, fazendo o possível para desempenhar o papel que todos odiariam: "Passei quatro anos te criando, gastando quase todo o meu dinheiro. Mas agora, não posso mais te manter. Seu pai cuidará de você e te dará tudo o que quiser."

O rosto do menino se contorceu de dor e raiva. Ele tentou se jogar nos braços dela, mas ela o manteve à distância.

"Não quero ele! Quero você, mãe!"

Allison mantinha suas feições rígidas, escondendo cada rachadura em seu coração.

"Pense nos vizinhos de baixo. Se lembra de como eles falavam pelas nossas costas? Sempre dizendo que eu era a mulher divorciada com um filho, que ninguém iria querer se casar comigo por sua causa."

A mulher imitou as palavras deles, seu tom frio e severo. "Eles costumavam te dizer 'sua mãe ainda é jovem e bonita. Se você não estivesse por perto, ela já teria se casado novamente. Até Fred Hardy gosta dela, mas ele é um pouco velho, tem trinta e nove anos. Você gostaria de ter um homem assim como seu novo pai?'"

A lembrança queimava na mente de Lucas, que se recordava de ter cuspido de nojo ao pensar em como Fred Hardy lhe parecera desleixado e grosseiro. Sua mãe merecia algo melhor do que isso.

O tom de Allison ficou severo, sua suavidade desaparecendo: "A partir de agora, tenho que trabalhar. Preciso me sustentar."

Lucas desabou, chorando ainda mais, acreditando que a mãe realmente o deixaria para trás.

Quando Allison se recusou a puxá-lo para perto, ele bateu no cobertor com os punhos. "Odeio isso! Por que o papai não pode cuidar de você também?"

Nesse instante, Derek entrou no quarto ainda de pijama, atraído pelo apelo desesperado de Lucas que ecoava pelo corredor.

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