O bebê se mexeu, resmungando baixinho, e eu balancei ele com cuidado, tentando manter o corpo firme. Meu coração estava acelerado, mas eu não podia deixar isso aparecer. Eu não podia deixar ninguém perceber o medo que estava me rasgando por dentro.
Porque ali... eu não era Heloísa.
Ali eu era Helena.
E Helena nunca teria medo da própria casa.
Uma mulher surgiu do corredor da direita, andando com passos rápidos e postura reta, como se cada movimento dela tivesse sido treinado durante anos. Ela tinha cabelos presos em um coque apertado, roupa escura e um olhar que misturava respeito com vigilância.
Quando me viu, parou na mesma hora.
Os olhos dela foram direto para o bebê.
Depois voltaram para mim.
E então, como se tivesse prendido a respiração desde que me viu, ela finalmente soltou o ar.
- Senhora... graças a Deus. - a voz dela saiu baixa, quase um sussurro.
Eu senti meu estômago se contrair.
Senhora.
Eu engoli em seco e tentei manter o rosto neutro.
A mulher se aproximou, ainda olhando o bebê como se ele fosse a coisa mais importante do mundo... E com certeza ele era, afinal era o primeiro e único herdeiro Bordin.
- Ele... ele está bem? - ela perguntou, e a forma como a frase saiu parecia mais uma súplica do que uma pergunta.
Eu balancei a cabeça.
- Está. Dormiu no caminho de volta.
Minha voz saiu firme. Mais firme do que eu esperava.
A mulher pareceu aliviada, mas não sorriu. Não havia alegria naquela casa. Só alívio. Só tensão. Só sobrevivência.
- Venha senhora está frio, vamos.
Governanta.
Claro.
Uma casa daquela não tinha só empregadas. Tinha governanta, era Marta, acho que foi esse o nome que minha mãe disse.
Eu caminhei devagar, sentindo o eco dos meus próprios passos no chão. A mansão era imensa. Luxuosa.
Mas eu não conseguia achar beleza.
Tudo parecia um cenário... e eu era a atriz que não sabia o texto.
O corredor principal era amplo, com quadros grandes nas paredes. Retratos. Paisagens. Arte cara. O tipo de arte que eu nunca entendi. E eu sempre achei que isso dizia muito sobre o mundo da Helena. Não tinha a ver com a minha arte, que era sobre sentimentos.
E ela... sempre pertenceu a lugares assim.
Eu não.
Governanta continuava ao meu lado, olhando para mim de tempos em tempos, como se estivesse tentando confirmar alguma coisa sem coragem de perguntar.
Ela abriu a porta de uma sala e eu vi um ambiente gigantesco, com sofás claros, cortinas pesadas e uma lareira apagada. Tudo impecável. Tudo perfeitamente organizado.
Mas a sensação era estranha.
Como se ninguém realmente vivesse ali.
Como se aquela casa fosse usada apenas para parecer perfeita.
Marta pigarreou.
- O senhor Miguel está no escritório.
Meu corpo travou.
Eu senti como se um fio invisível tivesse se apertado ao redor do meu pescoço.
Miguel.
O nome dele atravessou meu peito como uma lâmina.
Não era apenas o homem que eu precisava enganar.
Era o homem que um dia eu amei em silêncio.
O homem que Helena tomou de mim, como se tivesse roubado um brinquedo.
Como se meu sentimento fosse pequeno demais para merecer respeito.
Eu pensei que já tinha enterrado isso.
Que o tempo tinha apagado.
Mas bastou ouvir o nome dele dentro daquela casa para o passado voltar inteiro, vivo, cruel.
Meu coração bateu mais forte e eu senti minhas mãos tremerem.
Eu apertei o bebê contra mim.
- Ele... está em casa? - perguntei.
Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
A governanta assentiu.
- Está. E... - ela hesitou, e eu percebi o medo na forma como ela escolheu as palavras. - Ele está muito irritado hoje.
Claro que está.
Ele tinha uma esposa quebrada, um bebê que parecia abandonado e uma casa cheia de funcionários pisando em ovos.
Eu sabia exatamente que tipo de homem ele era.
O tipo que não aceita perder o controle, era o que os jornais, e os moradores da pequena Flores da Cunha falavam dele.
Eu caminhei mais alguns passos, e ela abriu uma porta dupla enorme.
O escritório era escuro, mesmo com as janelas grandes. Cortinas pesadas. O ambiente cheirava a madeira e whisky, e havia uma mesa gigantesca no centro.
E ele estava lá.
De costas.
De pé, olhando para a janela como se estivesse esperando alguém.
O corpo dele era alto, forte, e mesmo parado... Miguel parecia perigoso.
Como um animal quieto demais.
Quando ele virou o rosto, meu sangue gelou.
Não porque ele era bonito.
Miguel sempre foi bonito, desde a adolescência, quando visitava as vinícolas com o pai...
A lembrança surgiu como fogo em minha mente.
Mas os olhos dele eram como uma tempestade.
Escuros.
Duros.
E inteligentes demais.
Ele olhou para mim... e por um segundo eu tive certeza de que ele sabia.
Tive certeza de que tudo tinha acabado antes mesmo de começar.
Mas ele não disse nada.
Apenas passou os olhos por mim com calma.
E então olhou para o bebê.
O olhar dele mudou.
Não ficou doce.
Não ficou gentil.
Mas ficou... diferente.
Como se algo ali tivesse tocado um lugar que ele não deixava ninguém ver.
Ele deu dois passos na minha direção.
Eu senti meu corpo inteiro travar.
- Você saiu. - ele disse.
A voz dele era baixa, mas carregava uma autoridade natural, como se ele nunca precisasse levantar o tom para ser obedecido.
Eu respirei fundo.
- Eu precisava... Respirar um pouco...
Miguel arqueou uma sobrancelha.
- Precisava? - repetiu, como se estivesse provando a palavra na boca.
Ele olhou de novo para o bebê.
- Onde você foi com o meu filho?
Eu senti o coração disparar.
Meu Deus.
Ele estava me interrogando.
E eu nem tinha entrado direito naquela casa.
Eu engoli em seco.
- Fui respirar, já disse... Eu... estava sufocada.
Eu tentei parecer Helena.
Helena sempre foi dramática.
Sempre soube usar emoção como arma.
Mas eu não sabia jogar aquele jogo.
Miguel caminhou até mim devagar, como se cada passo fosse calculado. Parou perto o suficiente para eu sentir o perfume dele. Um cheiro masculino, forte, caro... e sem dúvidas extremamente sensual.
E eu não queria sentir aquilo.
Não agora, não ali, dentro de um personagem,e nem nunca afinal ele nunca será nada além de meu cunhado.
Ele estendeu a mão e tocou de leve o rosto do bebê, como se tivesse medo de acordá-lo.
O bebê mexeu a boquinha e soltou um suspiro pequeno.
Miguel ficou olhando por alguns segundos, em silêncio.
E então falou, sem tirar os olhos da criança:
- Ele está magro.
Meu peito apertou.
Eu não sabia se aquilo era acusação ou preocupação.
Eu apertei o bebê com mais firmeza.
- Ele está bem.
Eu quase me perdi no personagem, eu senti que ele sabia que não era ela, então ele se aproximou ainda mais... Me avaliando, e se preparou para falar...