- Tenho, ele é meu filho também, é claro que eu tenho.
Ele continuou me observando.
Como se estivesse tentando encontrar alguma rachadura.
Alguma falha.
E eu senti o suor frio escorrer pela minha nuca.
A governanta continuava parada perto da porta, quieta, quase invisível.
Miguel respirou fundo e deu um passo para trás.
- Você sumiu por horas, Helena.
A forma como ele disse o nome dela fez meu estômago revirar.
Helena.
Eu ainda odiava aquele nome.
Eu ainda odiava tudo que ele me lembrava.
Mas agora... eu precisava vestir aquilo como uma pele.
- Eu não estava bem. - respondi.
Miguel soltou uma risada curta, sem humor.
- Você nunca está bem.
Eu senti o golpe daquela frase como se ele tivesse me empurrado contra a parede.
Não era raiva.
Era cansaço.
Era como se ele tivesse vivido aquilo tantas vezes que já não acreditava mais em nada.
Miguel se aproximou da mesa e pegou um copo com whisky. Bebeu um gole e depois apoiou o copo com força.
- Você sabe o que está acontecendo com a sua família, não sabe?
Meu coração disparou.
Claro.
A família falida.
O dinheiro dele sustentando tudo.
Ele estava jogando aquilo na minha cara.
Eu respirei fundo.
- Eu sei, não precisa jogar na minha cara.
Miguel me encarou de novo.
- Então por que você continua agindo como uma adolescente mimada, que não tem nada a perder, quando tem e muito?
Eu senti minha garganta fechar.
Eu queria responder.
Queria gritar que eu não era ela.
Queria dizer que Helena merecia cada palavra dura que ele dizia.
Mas eu não podia.
Eu não podia perder o controle.
Eu precisava ser esperta.
E Helena não era esperta... ela era cruel.
Então eu fiz o que ela faria.
Eu ergui o queixo, encarando Miguel com firmeza.
- Porque eu posso!
A frase saiu firme, cortante.
E eu vi algo brilhar nos olhos dele.
Surpresa.
Talvez irritação.
Talvez... interesse.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
E então ele caminhou até mim de novo, parando perto demais.
Perto o suficiente para eu sentir o calor dele.
Miguel inclinou o rosto, me analisando como se eu fosse um enigma.
- Você está diferente. - ele disse.
Meu corpo inteiro congelou.
Eu tentei sorrir, mas senti o sorriso falso no meu rosto.
- Diferente como?
Miguel apertou os olhos.
- Menos vazia, até parece inteligente.
Aquelas palavras me acertaram em cheio.
Eu senti como se ele tivesse me visto de verdade.
E isso era impossível.
Eu não queria que ele visse.
Eu não queria que ele chegasse perto.
Porque se Miguel se aproximasse...
Eu não sabia se conseguiria manter a mentira.
E pior...
Eu não sabia se conseguiria manter meu coração quieto no lugar dele.
Eu respirei fundo, tentando controlar o tremor.
- Talvez eu só esteja cansada de ser a Helena que você acha que conhece Miguel.
Miguel ficou parado, olhando para mim.
E então ele estendeu a mão, devagar, e tocou meu rosto.
O toque foi leve.
Mas o efeito foi como fogo.
Eu prendi a respiração.
Meu corpo inteiro reagiu de um jeito que eu não queria.
Miguel deslizou o polegar na minha bochecha, como se estivesse testando se eu era real.
- Você sabe o que eu faço quando sinto que alguém está mentindo pra mim? - ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.
Meu sangue gelou.
Eu não consegui responder.
Ele aproximou o rosto do meu, devagar, e eu senti o perfume dele mais forte.
- Eu descubro.
Meu coração bateu tão forte que doeu.
O bebê se mexeu de novo, soltando um chorinho baixo, e eu agradeci mentalmente por aquela interrupção.
Eu abaixei o olhar para ele, fingindo que minha atenção estava toda ali.
- Ele acordou.
Miguel deu um passo para trás, como se tivesse sido puxado de volta à realidade.
A governanta finalmente se mexeu.
- Senhora, posso preparar o quarto do bebê... e o banho?
Eu balancei a cabeça rapidamente.
- Sim.
Miguel olhou para ela, depois para mim.
- Acompanhe eles até o quarto Marta. E fique lá.
A ordem dele era clara.
Eu senti que aquilo era mais do que cuidado.
Era vigilância.
Ele queria que eu ficasse sob vigilância.
Sob os olhos dele.
Eu segui Marta pelo corredor, tentando manter os passos firmes.
Meu corpo inteiro tremia por dentro.
Cada parte de mim gritava que aquilo era loucura.
Que eu não devia estar ali.
Que eu devia fugir.
Mas eu não podia.
Porque aquele bebê precisava de mim.
E eu... eu precisava provar para mim mesma que eu ainda era capaz de salvar alguém, já que a mim mesma já não adianta mais.
O quarto do bebê era enorme.
Parecia quarto de revista.
Berço branco, cortinas claras, um tapete macio, brinquedos organizados de forma perfeita. Tudo impecável.
Mas quando eu coloquei o bebê no colo mais confortável e sentei na poltrona, eu percebi algo.
Não havia amor ali.
Havia luxo.
Havia cuidado pago.
Mas não havia carinho.
Marta fechou a porta atrás de nós e se aproximou, olhando para o bebê como se ele fosse a única luz daquela casa.
Ela suspirou.
- Graças a Deus... - repetiu.
Eu olhei para ela.
- Marta... o que está acontecendo aqui?
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse escolhendo se devia ou não dizer.
Então falou, bem baixo:
- A senhora... tem assustado todos nós.
Meu coração apertou.
Ela se aproximou mais e baixou ainda mais a voz.
- E o senhor Miguel... ele está no limite.
Eu engoli em seco.
Marta olhou ao redor, como se tivesse medo até das paredes.
E então disse a frase que fez meu corpo inteiro arrepiar:
- Mas hoje... olhando para a senhora... eu senti que... finalmente, a senhora voltou a si, está diferente, mas voltou.
Eu senti a garganta fechar.
Voltou.
Ela achava que Helena tinha voltado.
E naquele instante eu entendi que eu estava mais presa do que imaginava.
Porque aquela casa não queria Helena.
Aquela casa queria uma mulher inteira.
E eu... eu estava entrando no papel errado.
Dei banho nele, com Marta, vesti as roupinhas tão pequenas, era como viver um sonho, um sonho que eu achei que jamais viveria, o de ser mãe...
Eu olhei para o bebê, que agora me encarava com olhos pequenos e brilhantes.
E foi ali, com aquele olhar inocente, que eu soube:
Eu não tinha mais escolha.
Eu estava dentro.
E agora... eu precisava sobreviver.
Porque se Miguel descobrisse...
Ele não destruiria só a minha mentira.
Ele destruiria tudo.
E eu tinha a sensação sombria de que, quando esse homem quebrasse...
ninguém sairia ileso, mas eu precisava deixar o bebê seguro do caos da minha família, era esse o meu papel real.
Depois do banho comecei a cantarolar para ele, o quarto a meia luz pronto para que ele dormisse em paz...
Foi quando ouvi passos que fizeram meu coração acelerar. E a voz dele em seguida:
- O que está acontecendo com você?