Ele pousou o copo e se aproximou, parecendo culpado agora. Mas a culpa foi passageira. A raiva do acidente havia desaparecido, substituída por aquele charme displicente que ele usava para encobrir crimes.
"Eliana", disse ele, pegando nas alças da minha cadeira de rodas como se estivesse reivindicando sua propriedade. "Que bom que você voltou. Escuta, sobre as escadas... vamos deixar isso para trás. Acidentes acontecem."
Acidentes. Como se ele não tivesse feito uma escolha.
Ele tirou um cartão preto do bolso. O cartão black sem limites.
"Por que você não compra algo legal para si mesma? Redecore o quarto. O que você quiser."
Olhei para o cartão. Era um pedaço de plástico que poderia comprar uma pequena ilha. Ele estava tentando comprar meu silêncio. Ele estava tentando comprar meu perdão por escolhê-la em vez da minha vida.
Peguei o cartão.
Dante sorriu, aliviado. "Boa menina."
O apelido carinhoso fez minha pele arrepiar. Quebrei o cartão ao meio.
O estalo foi agudo, ecoando na sala silenciosa como um tiro de pistola.
O sorriso de Dante vacilou. "Que diabos você está fazendo?"
"Eu não quero seu dinheiro, Dante", eu disse, minha voz firme. "Eu não quero seus presentes. Eu não quero suas desculpas."
"Então o que você quer?", ele exigiu, sua paciência se esgotando.
"Nada de você."
Passei por ele com a cadeira de rodas em direção ao elevador.
"Você está sendo histérica", ele gritou atrás de mim, sua voz ricocheteando nos pisos de mármore. "Você vai superar. Você sempre supera."
Fui para o meu quarto. Não redecorei. Eu purguei.
Peguei todos os presentes que ele já me deu. As bolsas de grife. Os sapatos. As joias que não dei para Maria.
Enfiei tudo em sacos de lixo. Empilhei os sacos no meu colo e os levei para o corredor, despejando-os como lixo.
Então, abri a gaveta onde guardava o anel de noivado. Um diamante impecável de cinco quilates. Parecia frio e pesado na minha palma.
Fui até o banheiro e o joguei na lixeira ao lado do vaso sanitário. Ele caiu com um baque surdo entre lenços de papel usados. Apropriado.
Meu celular tocou. Era meu pai.
"Eliana", sua voz estava tensa. Urgente. "Onde está o Dante?"
"Não sei", eu disse. "Com ela, provavelmente."
"Escute-me. A família Rossi... eles têm algo. Eles afirmam ter provas dos negócios ilegais de Dante no porto. Aqueles que ele fez para o pai da Catalina."
Fechei os olhos. Claro.
"Eles estão ameaçando ir ao Conselho", meu pai continuou, o pânico aumentando em seu tom. "Se o fizerem, Dante perde seu assento. Ele pode perder a vida. Precisamos traçar uma estratégia. Coloque-o no telefone."
"Ele não está disponível", eu disse.
"Eliana, isso é vida ou morte!"
"Não a minha vida", eu disse. "E não a minha morte."
"Ele é seu noivo!"
"Não", eu disse, cortando o cordão. "Ele é um risco."
Desliguei.
Fiquei ali no silêncio do meu quarto. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Dante havia exposto a família para proteger Catalina. Ele havia quebrado as regras. E agora os lobos estavam circulando.
Normalmente, eu seria a pessoa consertando isso. Eu estaria forjando os documentos, fazendo as ligações, acalmando os ânimos. Eu era a filha do Conselheiro. Eu era a solucionadora.
Mas olhei para minha perna quebrada. Olhei para a lixeira onde o anel jazia enterrado na sujeira.
Fui até a janela. Lá embaixo, vi o carro de Dante saindo em alta velocidade da entrada da garagem. Ele provavelmente ia "consertar" isso sozinho. O que significava que ele ia atirar em alguém.
Ele ia começar uma guerra. Por ela.
E pela primeira vez na minha vida, eu não ia ficar na frente da bala.
Peguei meu celular e disquei um número que havia memorizado, mas nunca usado. Um contato em São Paulo. Um corretor de apartamentos seguros.
"Preciso de um apartamento", eu disse quando a linha conectou. "Esta noite. Dinheiro na mão."
"Nome?", a voz perguntou.
"Eliana", eu disse. Então parei. "Só Eliana. Sem sobrenome."
Desliguei. A tempestade estava vindo para Dante Vilar. E eu não seria mais seu escudo.