Na realidade, era um esporte sangrento - um julgamento gladiatório projetado para provar que ele não havia amolecido.
Para provar que ele ainda era digno da coroa, apesar da bagunça caótica que ele fez para proteger Catalina.
Ele estava entrando em um matadouro.
Por ela.
Encarei o nome do contato dele.
*Dante*.
Sem emoji de coração. Sem apelido carinhoso. Apenas as cinco letras afiadas que costumavam definir toda a minha existência.
"Você está perdendo seu tempo", uma voz flutuou das sombras, suave e letal.
Eu não me assustei.
Virei-me lentamente.
Catalina estava encostada no batente da porta da biblioteca, enrolando distraidamente uma mecha de cabelo escuro em volta do dedo.
Ela parecia entediada.
"Ele não vai atender", disse ela, entrando no poço de luz fraca. "Ele está ocupado sendo um herói. O meu herói."
"Ele está entrando em uma emboscada, Catalina", eu disse, minha voz completamente sem emoção. "Meu pai diz que as chances são de três para um. Ele pode morrer esta noite."
Ela sorriu.
Não era um sorriso de preocupação.
Era o sorriso de um gato observando um pássaro colidir com uma vidraça - curioso, mas indiferente.
"Eu sei", disse ela.
O ar me faltou nos pulmões em uma golfada. "Você sabe?"
"Eu disse a ele que os Rossi me insultaram", disse ela, examinando o esmalte impecável em suas unhas bem-feitas.
"Eu disse a ele que eles disseram que ele era fraco, que estava deixando uma mulher mandar em sua casa. Eu disse a ele que ele precisava se impor."
"Você o mandou para lá?" Meu aperto no celular se intensificou até que a carcaça de plástico gemeu sob a pressão. "Você o mandou para sangrar só para massagear seu próprio ego?"
"Para testar a lealdade dele", ela corrigiu, seus olhos brilhando com uma posse sombria.
"Ele é o herdeiro. Preciso saber que ele está disposto a queimar tudo por mim. Até a si mesmo. Especialmente a si mesmo."
Ela deu um passo mais perto, invadindo meu espaço pessoal com uma confiança sufocante.
"Essa é a diferença entre nós, Eliana. Você o quer seguro. Eu o quero meu. E ele precisa provar que pertence a mim."
"Ele não é um cachorro que você treina com dor", eu sussurrei, as palavras tremendo.
"Não é?", ela riu - um som frágil e feio que arranhou o silêncio. "Observe."
Ela acenou para o meu celular.
Olhei para baixo.
Meu polegar pairava sobre o botão de chamada.
Se eu ligasse para ele, se eu o avisasse que os Rossi haviam trazido mercenários, talvez ele repensasse.
Talvez a parte racional dele, a parte que costumava ser meu melhor amigo, ouvisse.
Pressionei o botão.
Tocou uma vez.
Duas vezes.
Catalina me observava, sua expressão indecifrável.
No terceiro toque, a chamada conectou.
"Dante", eu expirei. "Me escuta, os Rossi..."
*Clique*.
A linha ficou muda.
Ele desligou.
Encarei a tela, a duração da chamada marcando *00:03*.
Ele viu meu nome. Ele viu que eu estava ligando.
E ele decidiu que eu não valia a pena.
Catalina soltou um zumbido suave e satisfeito. "Viu? Ele está ocupado."
Algo dentro de mim se partiu.
Não foi uma quebra barulhenta.
Foi o *ping* silencioso de um fio de tensão finalmente cedendo após anos de esforço.
O medo por sua vida evaporou. O pânico se dissolveu.
Tudo o que restou foi um silêncio frio e ártico.
"Você está certa", eu disse, baixando o celular. "Ele está."
Passei por ela.
Não corri para meu pai. Não chamei os guardas.
Fui para o meu quarto e fechei a porta.
Duas horas depois, a transmissão ao vivo começou.
Era um feed privado, acessível apenas ao círculo íntimo.
Sentei-me na beira da minha cama, assistindo no meu tablet.
A "negociação" foi realizada em um armazém subterrâneo.
O chão era de concreto manchado. A iluminação era dura, halogênio industrial.
Dante estava no centro.
Ele havia tirado o paletó. Sua camisa social branca estava com as mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando as tatuagens intricadas em seus antebraços.
Ele parecia calmo.
Letal.
Então os Rossi enviaram seus homens.
Três deles. Cada um segurando uma lâmina.
Dante não tinha uma arma.
A luta foi brutal. Animalesca.
Observei enquanto a primeira faca cortava o peito de Dante, tornando o algodão branco e nítido em carmesim.
Eu deveria ter me sentido mal. Eu deveria estar gritando.
Mas eu me sentia como se estivesse assistindo a um estranho no noticiário da noite.
Ele se movia com uma graça aterrorizante - esquivando-se, golpeando, quebrando ossos.
Ele lutou como um homem possuído.
Ele lutou como um homem que tinha algo a provar para a mulher que esperava em casa.
Só que não para mim.
Cada soco que ele dava, cada gota de sangue que ele derramava, era uma carta de amor para a Catalina.
Era a maneira dele de dizer: *Olha o que eu posso suportar por você*.
Quando ele finalmente quebrou o braço do último homem e ficou ofegante sobre os corpos gemendo, sangue escorrendo de seu queixo, a câmera deu um zoom em seu rosto.
Seus olhos estavam selvagens.
Loucos.
Ele olhou diretamente para a lente, como se soubesse que ela estava assistindo.
Ele não murmurou *Estou bem*.
Ele murmurou *Por você*.
Desliguei o tablet.
Não chorei. Não tremi.
Apenas deitei nos travesseiros e ouvi a chuva batendo na janela.
O homem que eu amava morreu naquele armazém esta noite.
A coisa que saiu de lá era apenas uma arma.
E armas não têm coração.