"Ela copiou os Alfas vizinhos, Bernardo", disse Marcos, sua voz perigosamente baixa. "Isso não é um blefe. É uma declaração de guerra. Ela acabou de destruir sua reputação na região."
"Minha reputação está ótima!" berrei, batendo o punho na mesa com força suficiente para rachar a madeira. "Eu sou o Alfa!"
Nesse momento, o ar foi cortado pelo uivo de sirenes.
*RENEGADOS! NA FRONTEIRA NORTE!*
De novo?
Transformei-me instantaneamente, ossos estalando e se remodelando enquanto minhas roupas se rasgavam.
*Marcos, proteja o perímetro! Guerreiros, comigo!*
Corri em direção à fronteira. O cheiro de podridão era avassalador, sufocando o ar fresco da floresta. Este não era um pequeno grupo de ataque como da última vez. Era um cerco.
Rasguei o primeiro renegado, minhas mandíbulas se fechando em sua espinha com um estalo doentio.
*Protejam a Casa da Alcateia!* comandei, a voz de Alfa ecoando no elo mental. *Protejam a Ariana!*
O pensamento foi instintivo. Ariana era o futuro. Ariana era...
De repente, uma dor fantasma cortou meu peito. Não era um ferimento físico. Era mais profundo, queimando até a medula dos meus ossos. Parecia um cabo de aço tenso sendo rompido violentamente.
Tropecei, perdendo o equilíbrio enquanto um renegado cravava as garras no meu flanco. Rosnei e o despedacei, mas a sensação permaneceu. Um vazio frio e escancarado se abriu em minha alma.
Era o laço.
Era a Laura.
Ela estava falando sério. Ela o havia rompido de verdade, completamente. A distância, combinada com sua intenção absoluta, finalmente estilhaçou a conexão.
Balancei a cabeça, tentando clarear a vertigem súbita. *Foco!*
Lutamos por horas. Quando o último renegado fugiu, o sol estava se pondo, lançando longas sombras sangrentas pela clareira. O chão estava manchado de vermelho.
Voltei à forma humana, meu corpo tremendo de exaustão.
"Bernardo!"
Ariana veio correndo da casa segura. Ela tinha um pequeno curativo no braço - um arranhão de um galho, na maior parte.
"Meu Deus, você está bem?" Ela se jogou em mim, enterrando o rosto no meu pescoço.
Eu a segurei, mas meus braços pareciam pesados como chumbo. Olhei por cima do ombro dela.
Da última vez que isso aconteceu, Laura estava lá. Quieta. Ilesa, mas aterrorizada. E eu a ignorei para verificar o perímetro.
"Estou bem", eu disse, minha voz oca, arranhando minha garganta.
Marcos se aproximou, mancando pesadamente da perna esquerda. "Alfa. Temos seis em estado crítico. Precisamos que a Luna organize os turnos de cura e a distribuição de alimentos."
Olhei para Ariana. "Ariana, você pode cuidar da logística?"
Ariana piscou, recuando como se eu tivesse pedido para ela invadir as linhas de frente. "Eu? Ah, Bernardo, olhe para o meu braço! Estou ferida. Estou em choque. Não posso lidar com planilhas e cozinhas comunitárias agora."
Ela se pressionou contra meu peito novamente. "Eu só preciso que você me abrace."
Marcos olhou para mim. Seus olhos estavam escuros, cheios de um julgamento silencioso que gritava a verdade: *Laura teria feito isso.*
Afastei o pensamento, enterrando-o fundo. "Marcos, cuide disso."
*
POV Laura:
Eu estava arrumando uma exposição de esculturas modernas na galeria quando senti.
Foi como um fio tenso se rompendo contra meu coração. Doloroso, agudo, mas depois... silêncio.
Ofeguei, a pequena pistola de preços caindo no chão com um baque.
"Laura?" Sophie, uma colega assistente de quem eu havia me tornado amiga, olhou, a preocupação marcando suas feições. "Você está bem?"
Levei a mão ao peito. Meu coração batia firmemente. A dor surda que estivera lá por três anos - o zumbido constante e de baixo nível da existência de Bernardo no fundo da minha mente - havia desaparecido.
"Eu estou..." Respirei fundo, enchendo os pulmões que de repente pareciam maiores. "Eu estou livre."
Meu celular vibrou no meu bolso. Era Marcos.
*Luna, você está segura? Fomos atacados.*
Encarei a mensagem. Lembrei-me do último ataque. Lembrei-me das costas de Bernardo enquanto ele se afastava de mim.
Digitei de volta, meus dedos firmes: *Eu não sou sua Luna. Estou segura. Não entre em contato comigo novamente.*
Bloqueei o número.
Mais tarde naquela noite, deitada na cama, rolei meu feed.
Ariana havia postado novamente. Uma foto dela e de Bernardo. Ele parecia exausto, coberto de sujeira e sangue. Ela parecia impecável, o pequeno curativo em seu braço exibido proeminentemente como uma medalha de honra.
Legenda: *Meu herói me protege. Graças a Deus a toxicidade se foi de nossas vidas para que possamos focar no que importa. #AmorVerdadeiro #Sobrevivente*
Eu ri. Foi um som seco e áspero no quarto silencioso.
"Toxicidade", sussurrei para o ar vazio.
Olhei no espelho. Meu reflexo parecia mais nítido. Mais forte. O olhar assombrado em meus olhos estava desaparecendo.
"Bernardo", eu disse suavemente. "Você não perdeu a toxicidade. Você apenas perdeu seu escudo."
Fechei os olhos e dormi. Pela primeira vez em anos, não sonhei com ele. Sonhei com uma loba branca correndo por campos intermináveis de neve, e um par de olhos azuis tempestuosos observando silenciosamente das árvores.