Eu estava sentada no meu pequeno apartamento em Paris, encarando a chuva que riscava a janela, borrando as luzes da cidade em manchas abstratas de ouro e cinza.
Era teatro. Puro teatro manipulador. Bernardo estava arriscando a mãe de seus "herdeiros" para provar um ponto aos Anciãos? Improvável. Ele era um homem de legado, não de acaso. Ele, sem dúvida, havia providenciado a segurança dela de antemão; os Renegados provavelmente foram pagos ou removidos.
Meu celular vibrou na mesa.
Mas não era uma mensagem de texto. A verdadeira perturbação era uma vibração fantasma na base do meu crânio, uma coceira invasiva que eu não conseguia coçar.
*Laura.*
Era Ariana. O Elo Mental estava desgastado, esticado ao longo dos milhares de quilômetros entre nós, mas ela estava forçando a passagem com uma força histérica.
*Vá embora*, projetei de volta, visualizando uma parede de tijolos se erguendo entre nossas consciências.
*Eu só queria que você soubesse*, a voz dela ecoou na minha cabeça, sacarina e gotejando triunfo. *Bernardo está lutando com os Anciãos agora mesmo. Ele está gritando com eles. Ele diz que queimaria o território antes de deixar alguém questionar minha honra.*
Tomei um gole de água, forçando minha mão a permanecer firme contra a caneca de porcelana.
*Ele nunca levantou a voz por você, não é?* ela provocou, sua projeção mental se afiando em uma lâmina. *Ele nunca lutou por você. Você era apenas o móvel que ele herdou do pai.*
Uma dor aguda perfurou atrás dos meus olhos. Não era coração partido. Era o recuo físico da verdade. Ela estava certa. O amor de Bernardo por mim tinha sido uma coisa silenciosa e sufocante. O amor dele por ela era barulhento, violento e imprudente.
*Você acha que ele te ama?* perguntei a ela através do laço, minha voz mental cansada. *Ou ele ama a ideia de um herdeiro? Ele ama seu legado, Ariana. Você é apenas o recipiente.*
Uma onda de riso frio e mental ecoou no silêncio da minha mente.
*Não me importa o que ele ama*, respondeu Ariana, seu tom mudando instantaneamente de doce para gélido. *Eu não o amo, Laura. Eu amo o poder. Eu amo o título. E esta gravidez? É meu bilhete para o trono. Bernardo é uma ferramenta. Assim como você era.*
Ofeguei em voz alta no quarto vazio. A pura e calculada frieza daquilo me deixou enjoada.
*Vou contar a ele*, ameacei, embora até eu pudesse ouvir a fraqueza na minha resolução.
*Ele não vai acreditar em você*, ela zombou. *Ele acha que você está com ciúmes. Ele acha que você é estéril e amarga. Assista à transmissão ao vivo, Laura. Assista-me tornar a Rainha que você nunca pôde ser.*
O pânico explodiu no meu peito. Não por mim, mas por Bernardo. Ele era um tolo, cego pelo próprio ego, mas não merecia ser destruído por um monstro como ela.
Alcancei o laço mais profundo, o antigo elo conectado a Bernardo.
*Bernardo!* gritei mentalmente, derramando cada gota de urgência no elo. *Me escute! Ela está te usando! A gravidez é uma mentira!*
Houve uma pausa. Um silêncio estático que se estendeu por um batimento cardíaco a mais.
Então, a voz dele veio, fria e distante como a lua.
*Pare com isso, Laura. Você está se envergonhando. Deixe-nos ser felizes. Você não é nada para mim agora.*
A conexão se fechou como uma pesada porta de ferro. Ele me bloqueou.
Fiquei sentada ali, no silêncio do meu apartamento, a chuva ainda batendo contra o vidro. Minha Loba Interior não uivou. Ela não chorou. Ela apenas soltou um longo e pesado suspiro de alívio.
Ele se foi. Verdadeiramente se foi.
Caminhei até a janela e a abri, deixando o ar frio e fresco de Paris lavar meu rosto, limpando o cheiro da alcateia dos meus pulmões.
"Adeus, Bernardo", sussurrei.