POV Laura
O convite chegou por um mensageiro, exigindo atenção antes mesmo de eu abri-lo.
Era um papel cartão pesado, cor de creme, com letras em relevo dourado.
*Você está cordialmente convidada para uma Visita Privada no Musée d'Orsay. Um gesto de paz e apreço do Alfa Bernardo Monteiro.*
Um bilhete escrito à mão estava preso ao convite formal.
*Lembro o quanto você amava os Impressionistas. Por favor. Deixe-me compensar você. Apenas uma noite. - B.*
Eu não deveria ir.
Meu cérebro gritava para eu queimá-lo, para ver as letras douradas se transformarem em cinzas.
Mas a curiosidade é uma coisa perigosa. É um veneno com gosto de esperança. Uma pequena e traiçoeira parte de mim queria vê-lo. Queria ver se o arrependimento que senti em suas cartas era real.
Então, tratei a noite como uma batalha.
Vesti um vestido preto elegante que abraçava curvas que passei anos escondendo sob modestas vestes de Luna. Passei um batom vermelho - um tom escuro o suficiente para parecer um aviso.
O museu estava fechado ao público. Estava silencioso, ecoando com os fantasmas da história e o zumbido fraco do controle climático.
Bernardo estava parado perto de um Monet, encarando as pinceladas borradas de um lago de nenúfares. Ele parecia mais magro. Seu braço estava em uma tipoia.
"Laura", ele sussurrou quando me viu.
Por um segundo, seus olhos se iluminaram. Era um calor genuíno, familiar e de partir o coração.
"Bernardo", eu disse, mantendo distância. "Por que estou aqui?"
"Eu queria te mostrar que me importo", ele disse, aproximando-se, sua voz embargada de emoção. "Queria te dar uma memória que não fosse... dolorosa. Aluguei a ala. Só para nós."
O ar mudou.
O cheiro enjoativo de baunilha entrou, sufocando o cheiro de tinta a óleo antiga.
"E foi uma ideia tão brilhante", uma voz arrulhou.
Ariana saiu de trás de uma estátua. Ela usava um vestido branco que parecia suspeitosamente um vestido de noiva, o tecido se acumulando ao seu redor como leite derramado.
Ela entrelaçou o braço no braço bom de Bernardo, marcando seu território.
"Ele não fez um bom trabalho?" Ariana sorriu para mim. "Eu disse a ele: 'Bernardo, a pobre Laura adora pinturas antigas. Deveríamos fazer algo legal por ela antes de assumirmos oficialmente.'"
Meu sangue gelou.
"Você... você planejou isso?" Olhei para Bernardo.
\Ele parecia desconfortável, mudando o peso do corpo, mas assentiu. "Ariana achou que seria um bom encerramento. Ela organizou o buffet. Ela escolheu as flores."
"E olha!" Ariana bateu palmas. "Encontrei isso no seu antigo quarto. Bernardo disse que eu deveria te dar."
Ela tirou uma caixa de veludo da bolsa. Dentro estava o colar de safiras que Marcos havia mencionado. Aquele para olhos azuis.
"É um presente de despedida", Ariana sorriu, seus dentes brancos e predatórios. "Já que você é apenas uma convidada na nossa história agora."
Olhei para Bernardo. Ele estava deixando ela fazer isso. Ele estava deixando ela levar o crédito pelo pedido de desculpas dele, transformando-o em um ato de pena.
"Você realmente é um fantoche", sussurrei, a percepção se instalando no meu peito como uma pedra.
"Laura, não seja rude", Bernardo franziu a testa, o calor em seus olhos substituído por confusão. "Ariana está tentando ser gentil."
"Gentil?" Eu ri, um som áspero que ecoou nos tetos altos. "Ela está marcando o território dela, Bernardo. E você é apenas o poste de mijo."
Virei-me, meus saltos clicando bruscamente no chão.
"Aproveitem a arte", gritei por cima do ombro. "É a única coisa real nesta sala."
Saí para a noite de Paris. Não chorei. Não tremi.
Senti nada além de uma clareza profunda e gélida.
Ele se foi. O garoto que eu amava estava morto.