CAPÍTULO
Kaleu engoliu em seco com a reação da menina. Vando observava a cena com evidente desconforto, enquanto Miliane continuava a puxar seu braço num pedido silencioso e desesperado.
- O que está fazendo? - Ele perguntou, tentando soltar-se, mas a menina balançava a cabeça insistentemente, negando algo que ele não compreendia.
- Ela não pode falar, senhor - Vando avisou, mantendo a cabeça baixa.
- Quem é essa menina? - Kaleu finalmente conseguiu se livrar das mãos dela. - Não vou matar seu pai - acrescentou, deduzindo que era isso que ela queria evitar.
- Ela é minha filha - Vando respondeu rapidamente. - Acabou fugindo de casa. Eu estava desesperado, procurando por ela.
Kaleu analisou a menina, que agora o encarava imóvel, os olhos marejados, mas firmes.
- Por que ela está tão machucada?
- Senhor... como pode ver, ela é uma menina transtornada. Passamos anos cuidando dela em casa, em segredo, para não causar problemas. Queremos protegê-la - explicou Vando, com um tom de voz que tentava soar preocupado, mas saía apenas ensaiado.
Kaleu direcionou seu olhar desconfiado para a menina, depois para o homem. Algo não se encaixava, mas naquele momento, com a cabeça ainda cheia de fantasmas e a culpa corroendo suas entranhas, ele não tinha energia para investigar.
- Vá! - Empurrou Miliane suavemente para frente. - Não é meu problema.
Miliane foi pega pelo braço com força e arrastada para fora do limite da propriedade de Kaleu. Debateu-se, mas de sua garganta saíam apenas sons abafados, inaudíveis, que ninguém parecia ouvir. Kaleu observou por um momento, mas Vando tratou de disfarçar, acariciando o topo da cabeça da menina enquanto a puxava.
- Calma, filha... Por que você está sempre se machucando e correndo por aí? Assim, o papai fica tão preocupado - Vando dizia, a voz doce contrastando com a força com que apertava o braço magro de Miliane.
Kaleu sentiu o olhar da menina fixo nele até o último momento. Desviou o rosto.
- Que se dane - murmurou, virando-se e abrindo a porta da construção de madeira. - Não é da minha conta.
A imagem daquele olhar, porém, ficou gravada em sua mente. Ele sabia que havia algo errado, mas escolheu ignorar. Naquele momento, carregava peso demais nas costas para se importar com mais alguém.
Após a partida da menina, Kaleu tentou retomar sua rotina de isolamento. As movimentações na região eram raras, e ele agradecia por isso. Mas havia sempre alguém que insistia em aparecer sem avisar.
- Soube que se mudou para esta casa velha no meio do nada! - Uma voz anunciou, acompanhada do ronco de uma moto que estacionava a poucos metros.
Kaleu franziu o cenho. Cassius aproximou-se com seu passo silencioso, quase felino.
- O que faz aqui? - Kaleu perguntou, o mau humor evidente em cada sílaba.
- Ué? Por que não estaria aqui depois de tudo que aconteceu? - Cassius revidou, analisando-o dos pés à cabeça.
- Não estou feliz em ver sua cara. Vá embora.
- Pensei que ficaria grato, pelo menos. Está com o corpo inteiro, mesmo tendo perdido metade da cara nos estilhaços.
- Cassius... - Kaleu cerrou os punhos, a mandíbula tensa. - Antes estar morto, não acha?
- Você tem uma dívida comigo. Eu te salvei, e vai pagar vivendo. Quando eu me tornar Don, será meu braço direito, não importa o que digam.
- Você acha que isso vai acontecer? - Kaleu riu sem humor. - Do jeito que está indo, vai morrer antes de chegar ao tão sonhado trono da cidade.
- Veremos. - Cassius deu de ombros. - Vim dar meus pêsames. Não pude comparecer ao enterro da sua esposa e do seu filho. Não consigo imaginar sua dor. Então sofra. Sofra até seus olhos parecerem queimar e sua cabeça explodir. Depois, levante-se.
Kaleu desviou o olhar, o silêncio pesando entre os dois.
- O que veio fazer aqui de verdade?
- Negócios. Estava na redondeza resolvendo problemas com dívidas. Acompanhando os homens do meu pai numa cobrança. - Cassius acendeu um cigarro, exalando a fumaça lentamente. - O devedor colocou a própria filha como garantia. Treze anos. O contrato venceu, e agora o período de entrega é em até dois anos.
Kaleu permaneceu imóvel, mas algo dentro dele se contraiu.
- Pensei que fosse contra esse tipo de coisa.
- Sou. Você sabe disso. Sempre odiei ver mulheres tratadas como mercadoria. - Cassius franziu o cenho. - Por isso mesmo, peguei a responsabilidade de escolher alguém para entregá-la. Já seria impossível ele conseguir dez milhões em dois anos. A máfia deixou a casa deles por causa da menina... e dessa tara maldita por menores.
- Me deixe fora desses assuntos. - Kaleu cortou, a voz fria. - Quero que todos se fodam.
- Não tem como escapar, você sabe. Uma vez dentro, só sai morto. - Cassius jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota. - Os homens que tentaram te matar vão voltar para terminar o serviço. Estamos investigando, mas enquanto não houver um Don definitivo, cada líder age por conta própria. Os ataques vão continuar.
- Boa sorte com seu sonho de ser Don. - Kaleu sorriu com malícia, virando-se para entrar em casa.
- Desgraçado! - Cassius gritou, indignado. - Pensei que pudesse contar com você por gratidão! Não fique surpreso se eu mesmo te ferrar, cara de retalho!
Kaleu fechou a porta com força, isolando-se novamente em seu silêncio.
Fazia exatamente um mês que ele havia perdido sua família. Menos de dois anos de casamento, um filho recém-nascido... tudo destruído por uma execução que saiu errado. Kaleu trabalhava na limpeza da cidade, eliminando organizações não autorizadas, recrutando ou. executando. Em uma dessas missões, algo deu errado, e sobraram pessoas para a retaliação. Sua esposa e seu filho pagaram o preço.
A culpa o consumia todas as noites, quando fechava os olhos e via os rostos deles.
Por isso se isolara naquele lugar. Por isso todos na região o temiam - O homem de rosto mutilado que carregava uma aura de perigo iminente, que certa vez saíra da floresta com um corpo morto nas costas e o jogara na estrada como aviso.
Os boatos correram como fogo: não se aproximem da casa na floresta.
E agora, contrariando todos os boatos, havia uma menina que desejava voltar. Uma menina que, mesmo após ser arrastada para longe, mantinha nos olhos a chama de quem não desistiria.
Vando arrastou Miliane escada acima, ignorando seus tropeços e quedas. Quando chegaram ao topo, ele a empurrou para dentro do quarto e trancou a porta com ferrolhos múltiplos.
- Onde ela estava? - Tônia, sua esposa, perguntou ansiosa lá embaixo.
- Espere. Vou descer em alguns minutos.
Tônia esperou no andar inferior enquanto os sons abafados de choro chegavam até ela. Não sentia pena. Ao seu lado, no sofá, Karmélia - sua filha legítima, de cabelos castanhos e olhos vazios - também parecia indiferente. Mas se alguém observasse com atenção, veria Karmélia engolir em seco, tremer levemente, apertar as pálpebras com força.
Mantinha-se indiferente por fora.
Por dentro, sabia que seu destino não era muito diferente do de Miliane.
No quarto, Miliane encolheu-se no canto, os joelhos abraçados contra o peito. Apoiou a cabeça na parede fria e fechou os olhos. Não chorou. Já chorara tudo o que podia nos últimos cinco anos.
Em vez disso, concentrou-se na imagem gravada em sua mente: o homem de rosto mutilado, a navalha cravada na madeira, a forma como Vando tremia diante dele.
Ele tinha medo daquele homem.
E se o homem da floresta tinha o poder de fazer Vando tremer, então talvez... talvez ele também tivesse o poder de libertá-la.
Miliane abriu os olhos e, pela primeira vez em cinco anos, algo além da sobrevivência acendeu em seu peito.
Esperança.