Miliane ficava sempre animada quando Karmélia ia ao seu quarto. Com o tempo, quase esquecera a vontade de fugir - Era como se não estivesse mais prisioneira, estando acompanhada.
- Hoje tenho uma novidade para você! - Anunciou Karmélia, sentando-se no colchão improvisado.
Miliane nem levantou os olhos do livro. Não esperava nada interessante.
- Por que você não fala? - Karmélia resmungou, arrancando o livro de suas mãos. - Já faz tempo que meus pais suspenderam os remédios, e você ainda fala muito pouco!
- De que adianta falar qualquer coisa? - Miliane respondeu, entediada.
- Se anime! O que eu tenho para contar vai te deixar animada de verdade!
Miliane sentou-se, prestando atenção.
- Escuta só: você vai sair daqui! Pode sair por conta própria, ir para a escola, passear, ir onde quiser!
Miliane ficou sem palavras. As lágrimas brotaram de seus olhos, quentes e incontroláveis.
- Do que você está falando? Veio fazer piada de mim? - Sua voz tremeu. Fazia tanto tempo que nem a luz do sol via - Apenas alguns feixes teimosos que escapavam pelas frestas da madeira.
- Não é brincadeira. - Karmélia segurou suas mãos. - Além disso, você precisa sair mais. Está pálida, vive doente. Meu pai nem se importa com sua saúde; já tive que roubar remédios várias vezes, e isso me rendeu uns bons puxões de orelha da minha mãe. Ela sempre dizia que a imunidade deveria fazer seu papel. - Abaixou a cabeça, culpada.
- Você está falando sério? Eu posso sair? Andar por aí?
- Só não pode fugir. Mas já está na hora de você conhecer o mundo, ter um pouco de liberdade. - Karmélia sorriu. - Você vai para a escola!
Miliane franziu o cenho, desconfiada.
- Por que eles querem que eu saia?
Karmélia suspirou, pensativa.
- A verdade é que você não pode parecer maltratada. Chegou o momento de eles verem que você é alguém da família. Eu sempre saía com o rosto escondido, meu pai me levava em segredo para a escola. Mas você precisa ser vista para que pensem que você é a filha deles. A menina que sai todos os dias para a escola.
- Ah... entendi. - Miliane cruzou os braços. - É o momento da troca de identidade. Eu sou você?
- Sim, mas não precisa usar meu nome nem nada disso. Meu pai conseguiu manter tudo em sigilo, então é uma vantagem. - Karmélia sorriu, desconcertada. - Por favor... eu pedi muito ao meu pai e consegui convencê-lo de que você não fugiria. Além disso... o lugar onde moramos não é seguro para meninas como nós saírem por aí achando que estão passeando.
Estendeu a mão.
- Vamos sair um pouco agora. Está na hora de você ver a luz do dia.
Miliane encarou aquela mão estendida por longos segundos. Depois, aceitou seu destino e segurou-a.
Karmélia sorriu gentilmente e puxou-a para fora do porão. Subiram as escadas lentamente, como se cada degrau fosse uma despedida do escuro. Miliane estava descalça, usando um vestido azul que um dia pertencera a Karmélia - Delicado, elegante, tão diferente das roupas surradas que usara por anos.
Ao atravessar a porta da sala, a luz do sol a atingiu como uma parede quente.
Miliane agora tinha dezesseis anos. Seus traços haviam mudado - O rosto de uma jovem, olhar feroz, cabelos longos e negros como a noite. Sobrancelhas perfeitamente desenhadas destacavam-se em sua pele parda, agora livre das marcas de agressões recentes. Apenas algumas cicatrizes sutis permaneciam, junto com as marcas das correntes - Essas, pareciam ter se instalado para sempre.
Seu coração acelerou quando os olhos se ajustaram à claridade.
- Você vai se sentir tão bem quando sair - Karmélia comentou, tão empolgada quanto ela.
- Você vai mesmo me deixar sair? - Miliane perguntou enquanto atravessavam a sala em direção à porta.
- Sim. Como eu disse, você pode ir para onde quiser. Não é só por causa da troca de identidade. É porque você merece um pouco de liberdade. - Karmélia girou a maçaneta. - Ninguém deveria ter o direito de tirar a liberdade de outra pessoa assim.
Abriu a porta.
Quando os pés de Miliane tocaram a grama do jardim, ela não conseguiu segurar as lágrimas. Caiu de joelhos, tocando o gramado com as mãos trêmulas, apreciando cada sensação que lhe fora roubada por tantos anos.
- Eu me lembro de te ver correr por entre aquelas árvores - Karmélia comentou, apontando para a floresta ao longe. - Não sei bem por quê, mas era sempre para o mesmo lugar. Essa floresta... é o único lugar em que eu nunca entraria.
- Por quê?
- Porque há um homem que vive ali. Depois que você foi descoberta, alguns dias depois, tivemos o desprazer de ver esse homem. Ele carregava um corpo nas costas e jogou na estrada. Fez isso três vezes. - Karmélia estremeceu. - Ninguém podia se aproximar da floresta. Recomendo que você não entre lá. Pode ser morta.
- Você está dizendo que ele matou três homens?
- Dizem que eram criminosos perigosos. Mas se ele matou, não significa que é ainda mais perigoso?
Miliane só pensava em Kaleu.
- Como era esse homem?
- Grande, assustador. Ouvi dizer que usa algo no rosto porque é desfigurado. Parece ser bem amargurado.
- Quando isso aconteceu?
- A primeira vez foi pouco tempo depois de você ter sido presa. Depois, com intervalos de meses, até que o terror se espalhasse por toda a redondeza. Três assassinatos em um ano. - Karmélia baixou a voz. - Mas já faz dois anos que ninguém sabe nada dele. As memórias ainda estão frescas, mas... parece que cada uma das vítimas foi torturada até a morte. Não consigo imaginar encontrar um homem assim. Por isso, fique longe dessa floresta.
Miliane levantou-se, limpando os joelhos.
- Você disse que eu posso ir para onde quiser, certo?
- Fique à vontade.
Karmélia nem teve tempo de reagir. Miliane correu em direção às árvores, desaparecendo entre elas o mais rápido que podia.
- Mas... - Karmélia olhou ao redor, perdida. - Ela ouviu o que eu disse?
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