CAPÍTULO
Nos três dias seguintes, Miliane repetiu o mesmo ritual.
Assim que a casa ficava silenciosa, escapava pela janela do porão e seguia para a floresta. Observava Kaleu de longe, escondida entre as árvores, estudando seus movimentos, seus hábitos, seus silêncios.
No terceiro dia, encontrou-o sentado à beira da fogueira. Era início da manhã, e o cheiro de carne assando invadia a clareira. Miliane havia deixado o café intacto no porão - desconfiava que, mesmo após a promessa de não lhe darem mais remédios, Vando continuava administrando algo que roubava sua voz. Precisava descobrir qual refeição continha a substância.
Seu estômago roncou agressivamente ao sentir o aroma da carne.
Kaleu permanecia imóvel no tronco, e ela continuava imóvel atrás da árvore. A cena se repetia por minutos, até que ele perdeu a paciência.
- Ah, que menina insuportável! - Levantou-se de um salto, impaciente. - Você não come? Já é incômodo estar aqui todos os dias. Vim para este lugar justamente para viver em paz, longe de qualquer olhar, e agora você aparece todos os dias?
Caminhou até ela com passos largos, a navalha brilhando entre seus dedos.
- Quer que eu te mande para o céu dos bebês? Posso fazer isso bem rápido, sem sofrimento.
Miliane recuou com dificuldade, os pés ainda doendo, e abraçou o próprio corpo, virando o rosto. Kaleu bufou, irritado, e voltou para a fogueira. Continuou assando a carne, pensando que a menina havia ido embora.
Mas, quando ergueu os olhos, ela estava de pé ao seu lado.
- Mas que porra! - Ele rosnou. - Além disso... você não fala? Você gritou da outra vez. Desde quando gente muda grita daquele jeito? É muda de verdade?
Ela apenas o encarou com tristeza.
- Tudo bem... - Ele suspirou, analisando-a com outros olhos. - Você já falou alguma vez?
Os olhos dela se arregalaram. Balançou a cabeça positivamente.
Kaleu franziu o cenho.
- Você está sendo mantida em cativeiro?
Ela apontou para os próprios pés, marcados pelo ferro. Confirmou.
- Essas marcas são de correntes?
Ela confirmava cada pergunta com gestos rápidos.
- Estão fazendo coisas erradas com você? - A voz dele ficou mais grave. - Algum tipo de violação? Te tocam de forma errada?
Ela balançou a cabeça negativamente, com pressa, quase desesperada.
- Agressão?
Ela confirmou. Depois, desviou o olhar para a carne que assava na fogueira.
Kaleu sorriu, cético. Parou de fazer perguntas e observou enquanto ela se sentava no chão, os olhos fixos na comida, claramente esperando que ele a servisse.
- Parece algum tipo de animal de estimação - murmurou, afastando-se.
Assou a carne, cortou um pedaço e colocou num prato de metal, deixando-o no chão. Depois recuou até a porta da cabana e ficou observando.
Se eu deixar que termine de comer, ela vai embora, pensou.
Distraiu-se por um segundo, limpando a navalha. Quando ergueu os olhos, a menina estava de pé diante dele, o prato vazio na mão, o olhar fixo em seu rosto.
- Não - Ele riu, sem acreditar. - Você só pode ser um fantasma. O que é você? Qual é seu nome?
Inclinou-se para encará-la melhor.
- É... ela não sabe falar. Vou pensar. - Analisou-a dos pés à cabeça. - Magrela, minúscula, usando um vestido branco velho que parece ser de alguém maior. Esse modelo... parece da Grécia antiga, sabe? Daqueles que os escravos usavam. E essa marca de corrente nos pés... isso me lembra uma história.
Os olhos dela brilharam.
- Quer ouvir uma história?
Ela sentou-se no chão imediatamente.
- Por Deus, você age como uma prisioneira mesmo. - Ele suspirou, mas um leve sorriso escapou. - Enfim. Era uma vez uma rainha chamada Cassiopeia. Ela era vaidosa, muito vaidosa, e um dia ofendeu as ninfas do mar, dizendo que sua filha, Andrômeda, era mais bela que todas elas. As ninfas se vingaram pedindo a Poseidon que enviasse um monstro marinho para devastar o reino. O único jeito de salvar o povo era sacrificar Andrômeda ao monstro. Então, acorrentaram a princesa a um rochedo à beira-mar.
Kaleu fez uma pausa, observando a expressão da menina.
- Por acaso você fugiu, Andrômeda?
Ela não riu. Seus olhos se encheram de lágrimas.
- Não chore. A história não termina aí. Apareceu Perseu, montado em Pégaso, o cavalo alado. Matou o monstro, libertou Andrômeda, se apaixonou por ela e se casaram. - Ele concluiu, notando que ela chorava ainda mais, a mão pressionando a própria garganta. - O final é feliz. Não deveria estar chorando.
Ela levantou-se e fez uma reverência, agradecendo.
Kaleu hesitou por um momento. Depois, a voz saiu mais suave do que ele gostaria:
- Volte aqui amanhã. Se está com problemas, amanhã vai ter alguém aqui. Ele tem tendência a resgatar meninas em perigo. Não vai se apaixonar nem se casar com você, mas vai. te dar um bom lugar. Um lugar com outras meninas como você, que sofrem situações injustas. Então volte amanhã, e ele vai te levar embora.
Ela manteve o olhar fixo nele. Depois, apontou para ele.
- O que quer? - Ele franziu o cenho. - Ah... meu nome é Kaleu.
Ela sorriu - um sorriso pequeno, frágil, mas genuíno - E recuou, desaparecendo entre as árvores.
Não sabia quanto tempo havia passado, mas precisava voltar antes que a descobrissem.
Deslizou pela portinhola do porão e suspirou aliviada ao ver que o ambiente estava vazio. A esperança aquecia seu peito como nunca antes. Kaleu dissera que alguém viria. Alguém que poderia salvá-la.
- Eu te vi.
A voz calma e calculista fez Miliane gelar.