Gênero Ranking
Baixar App HOT

Capítulo 3 3: CADEADOS SE ABREM

CAPÍTULO

- Onde você esteve? - Tônia perguntou, aflita, assim que Vando colocou os pés dentro de casa. - Aqueles homens estiveram aqui!

Ela batia o pé com força, os braços cruzados sobre o peito.

- Eles viram nossa filha? - Vando perguntou, temeroso.

- Claro que não! O plano é justamente que não a vejam, mas... eles vão ficar vigiando nossa casa! E Tônia precisa ir para a escola! - O desespero vibrava em sua voz.

- Eu vou levá-la todos os dias. - Vando passou a mão nos cabelos, pensativo. - Essa menina ainda não pode sair. É muito nova para a idade que eles sabem que minha filha tem.

- O que vamos fazer, então?

- Mantê-la presa até o momento adequado.

Ele seguiu para a cozinha, Tônia atrás como uma sombra. Abriu uma gaveta e retirou vários frascos de comprimidos, colocando-os sobre a mesa. Cruzou os braços.

- O que pensa em fazer? - Tônia inclinou a cabeça, curiosa.

- Ela já sabe que estamos dando remédios para que não ande nem fale. - Vando tamborilou os dedos sobre os frascos. - Vou suspender os medicamentos por agora. Precisamos que ela melhore para começar a se adaptar à substituição. Não podemos deixar que levem nossa filha, então... Miliane vai ter que estar pelo menos aceitável até o dia da entrega.

- Mas ela pode fugir se não tomar os remédios.

- Já resolvi isso. - Um sorriso frio curvou seus lábios. - Não vai fugir de novo. Mudei-a para o porão. Ninguém pode saber da existência dela, ou estaremos com problemas. Mas se descobrirem... tenho documentos que comprovam que é nossa filha. Invento uma desculpa para tê-la escondido. Vai dar certo.

No porão, Miliane descobriu o significado de um novo tipo de prisão.

Vando prendera seus pés com correntes grossas, trancadas por um cadeado enferrujado, mas resistente. Os elos de ferro estavam tão apertados que ela mal conseguia mover os tornozelos sem que a pele raspasse no metal. A corrente tinha comprimento suficiente para permitir que chegasse ao balde improvisado como vaso sanitário, mas cada passo era uma agonia.

A cabeça girava. As lágrimas escapavam silenciosas.

Dias se passaram - ela perdeu a conta de quantos. Sentia os pés sendo lentamente dilacerados pelo ferro. O desespero a consumia como fogo lento, mas não a paralisava. Encontrou um grampo esquecido num canto e passou a tentar abrir o cadeado. Tentativa após tentativa. Seus dedos minúsculos doíam, sangravam, mas ela continuava.

Todos os dias, as mesmas três refeições. Nada além. Privada de tudo: medicamentos, roupas que servissem, dignidade. Apenas vestidos antigos, estranhamente longos, como se tivessem pertencido a outra pessoa em outra época.

Numa manhã em que os raios de sol conseguiam penetrar a pequena janela do porão, Miliane sentiu uma energia diferente. Pegou seu grampo - já desgastado de tantas tentativas - E inseriu na fechadura do cadeado com a precisão de quem aprendeu na dor.

Seus olhos se arregalaram.

O cadeado cedeu.

Ela pensou que era um milagre. Não hesitou um segundo sequer. Libertou os pés daquela dor familiar e colocou-se de pé. Andou de um lado para o outro, tentando aliviar o incômodo e se familiarizar novamente com a caminhada sem correntes. Os pés estavam machucados, a vermelhidão dos ferimentos abertos era visível, mas ela não sentia nada além de um único pensamento:

Fugir.

Sabia que, depois do café da manhã, ninguém desceria ao porão. Esperou o momento certo, deslizou pela pequena janela rente ao chão - dessa vez não precisou pular nenhum andar - E correu.

Seus pés a levaram para o mesmo lugar. Para o mesmo homem.

Kaleu estava sentado num tronco em frente à sua casa, um espelho quebrado apoiado no colo. Retirava os curativos do rosto com cuidado, revelando um corte profundo que atravessava um dos lados, passando sobre o olho. A visão daquele lado era apenas um borrão cinzento agora, mas o ferimento finalmente começava a cicatrizar - Cassius trouxera medicamentos dias atrás.

Miliane observou de longe, escondida atrás de uma árvore. Via cada detalhe: a extensão da cicatriz, a expressão de dor ao higienizar o ferimento, a forma como seus dedos tremiam levemente ao passar a pomada.

Sem querer, pisou num graveto.

O estalo seco ecoou no silêncio da mata.

Kaleu ergueu o olho bom e fixou-o na direção do som. Miliane recuou, assustada, mas ele desviou o olhar e continuou o que estava fazendo, como se não tivesse visto nada.

Ela ficou imóvel por longos minutos, o coração batendo descompassado. Depois, decidiu voltar ao porão. Ainda não tinha forças para fugir sozinha, nem coragem para pedir ajuda a ele. Mas, pela primeira vez em muito tempo, acreditava em algo com todas as suas forças: que aquele homem poderia, de alguma forma, salvá-la.

Anterior
            
Próximo
            
Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022