CAPÍTULO 8:
- Ei! - Gritei em pânico.
Ele apertou o gatilho de novo. Sem misericórdia. Dessa vez, o tiro foi tão alto que pareceu explodir dentro da minha cabeça.
Meus olhos se arregalaram ao ver a arma apontada diretamente para mim. A mira tremia levemente, mas a intenção era clara.
- Essa é a última vez que ousa dizer meu nome! - A voz dele era rouca de raiva. - Saia da minha floresta, ou será seu túmulo!
Com um último olhar ameaçador, virou-se e desapareceu entre as árvores, deixando para trás um silêncio opressivo.
Meu túmulo? Ele parecia querer me deixar surda.
Esperei alguns minutos, ainda sentada nas raízes e folhas, até me recuperar. Depois, levantei e voltei para casa. Não tinha o que fazer ali agora. Tudo que podia fazer era cumprir minha promessa a Karmélia.
Não podia fugir.
Assim que cheguei à porta de entrada, Karmélia me puxou e me arrastou para trás de um arbusto.
- Faça silêncio! - Ela sussurrou, apavorada. Parecia escondida ali desde que eu saíra.
- O que está acontecendo?
- Um dos homens responsáveis pelo acordo com meu pai está aqui.
As mãos dela tremiam enquanto seguravam meu pulso. Espiei por entre as folhas.
Um homem alto e forte estava ao lado de Vando. Devia ter menos de trinta anos, boa aparência, roupas sociais ajustadas ao corpo de forma impecável. Um cigarro pendia de seus lábios.
- Se não quer problemas, é bom que faça tudo de acordo com o planejado - O homem dizia. - Estendi seu prazo. Mais dois anos para que possa conviver com sua filha, mesmo que agora ela já tenha dezenove anos e possa ser entregue.
- Senhor Cassius, sou realmente grato por tudo - Vando respondeu, submisso. - Não estava em bom período quando fiz o acordo. Pensei que seria algo momentâneo, que conseguiria resolver.
Cassius esticou um sorriso irônico.
- Na máfia não funciona assim. Você investiu algo mais importante que dinheiro. Os próprios fiadores não permitiriam que cumprisse. A máfia é assim. - A frieza em sua voz era cortante. - Enfim, só vim te alertar de uma coisa: a menina não pode ser tocada por homem algum. O mais prudente seria entregá-la agora, mas estou te dando esse tempo. Se quebrar o acordo... - O sorriso se alargou. - Perderá os dedos das mãos e dos pés.
- Sim, senhor! - Vando confirmou, ainda mais apavorado.
Eu podia ver o medo nos olhos dele. E nos de Karmélia também.
- Parece que tenho algo a resolver na floresta agora - Cassius comentou com indiferença, olhando em direção às árvores. - Os gatos estão barulhentos hoje.
Vando engoliu em seco, o olhar fixo na mata. Ele tinha um medo mortal de Kaleu. Isso me dava uma satisfação tão grande...
- Vem! - Karmélia me puxou quando os dois homens se afastaram.
Corremos até a janela do porão. As madeiras que antes selavam a passagem estavam jogadas num canto. Karmélia deslizou para dentro primeiro; eu fiz o mesmo em seguida.
Ela se encolheu ao lado da cama. Sentei-me ao seu lado e segurei sua mão.
- O que significa isso? - Perguntei sobre a conversa que a perturbara tanto.
- Você não entende, não é? - Ela respirou fundo. - Mas vou te dizer como as coisas são. Amanhã você vai para a escola. E... mesmo que se apaixone por alguém, nunca poderá se aproximar, se envolver. Porque se esse homem descobrir, você morre. Meu pai também. E se descobrirem a mentira... será ainda pior. Toda nossa família será dizimada, um por um.
- Eu não deveria ser obrigada a assumir algo tão pesado - Lamentei, cabeça baixa.
- Não sei o que te dizer. - Karmélia hesitou, o olhar de pena me perfurando. - Escuto boatos. Meu pai sempre comenta... parece que já escolheram o homem. - Ela suspirou, conformada. - Sinto muito. A culpa não é minha.
Levantou-se e saiu do quarto sem dizer mais nada.
Tive uma noite pesada como nunca. Sabia que eram mais dois anos, mas estava apavorada. Não queria ser entregue a ninguém. Sentia como se tivesse perdido minha vida inteira, e faltava tão pouco para ser entregue a algum louco que poderia até me matar.
- Eu quero viver - Chorei baixinho, em meio ao pânico.
Foi assim a noite inteira. Insuportável. E, ao mesmo tempo, meus pensamentos teimavam em voar para Kaleu.
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Pela manhã bem cedo, acordei com a porta sendo aberta com violência. Vando entrou e me arrastou para fora do quarto como se eu fosse um animal, como se eu estivesse fazendo algo errado.
Quando cheguei à sala, dois homens estavam de pé, esperando.
- Se falar uma única palavra, serão as últimas da sua vida - Vando sussurrou no meu ouvido.
Abaihei a cabeça, travada pelo pânico.
- Essa é sua filha? - O homem que vira ontem estava de volta, acompanhado de outro.
- Sim! - Vando respondeu, inseguro. - Ela está indo para a escola agora.
- Queremos saber onde é a escola. E todos os lugares que costuma frequentar, senhorita... - Cassius apertou os olhos, como se forçasse a memória.
- Miliane. O nome dela - Vando avisou.
Fiquei surpresa. Pensei que nossas identidades estivessem trocadas. Ele devia ter escondido muito bem o nome da própria filha.
- Tudo bem. Vamos esperar do lado de fora - O outro rapaz avisou, saindo.
- Avise ao nosso pai - Cassius pediu ao homem, que se retirou.
Então Cassius se aproximou de Vando.
- Essa menina... - Ele me analisou de cima a baixo. - Não parece mais nova do que dezenove anos?
Abaihei a cabeça, nervosa.