CAPÍTULO 9:
Cassius continuava me analisando como se conseguisse me ler. Depois, aproximou-se.
- Está com medo?
Balançei a cabeça negativamente.
- Mas seus olhos dizem outra coisa. - Ele inclinou a cabeça. - Você tem sorte de ser eu quem está na jurisdição deste acordo. Sou o responsável por fazer com que seja cumprido. Mas estou achando você bastante nova para alguém com dezenove anos.
- É uma menina com criação diferente - Vando interveio, nervoso. - Minha filha tem todos os cuidados necessários para manter sua boa aparência.
Cassius direcionou um olhar frio e assustador para ele. Sua postura ereta, mãos nas costas, enquanto se aproximava lentamente.
- Tem certeza de que as coisas são assim? - A voz era perigosamente calma. - Não me importo com como cuida de sua filha, mas não deveria tentar mentir para mim. Afinal, uma menina com marcas de que estava sendo mantida presa... Sua filha não parecia estar em cativeiro, sendo que você sempre a manteve escondida.
Vando manteve a cabeça baixa.
Minha espinha arrepiou. Eu sabia que, mesmo que esse homem percebesse que não era a pessoa prometida, ele poderia me deixar ali. E Vando me mataria só por ele ter descoberto a mentira.
- Eu tentei fugir há algum tempo - Confessei, mantendo a cabeça baixa. - Por isso tenho essas marcas. Não quis ouvir meu pai quando ele disse que não adiantava fugir. Ele estava com medo de que eu fosse capturada e levada antes do tempo estimado. As correntes estavam muito apertadas e me machucaram porque eu não ficava quieta. Por isso estou assim. - Ergui os olhos, desesperada. - Não julgue meu pai, por favor!
Cassius me observou por longos segundos.
- Ah... entendi. Se é assim... - Suspirou com indiferença. - Vamos esperar do lado de fora.
Ele se retirou.
Vando suspirou aliviado, mas isso não o tornou mais gentil. Pelo contrário - Apertou meu pulso com força e me arrastou até o quarto de Karmélia como se estivesse me punindo.
- Da próxima vez, seja mais cordial. Pare com essa cara de limão! - Ele me repreendeu, irritado. - Se algo acontecesse, você seria a primeira a morrer!
Saiu, batendo a porta.
Olhei ao redor, sem ver Karmélia. Até que a porta do guarda-roupa se abriu.
- Eles já foram? - Ela perguntou, assustada.
- Ainda não. Só quando eu for para a escola.
- Entendi. Meu pai te trouxe aqui para que eu te arrume. Você vai ficar apresentável. - Ela apontou para o fardamento escolar sobre a cama.
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Hoje seria meu primeiro dia na escola.
Não tinha memórias de uma época em que estudara. Esqueci todos os problemas e foquei naquele momento incrível. Aprendera muitas coisas com Karmélia - Ela já concluíra o ensino médio, mas eu não fazia ideia em que série me colocariam.
Vando me levou até a escola. Outro carro nos seguiu. Assim que ele parou, literalmente me jogou para fora.
Eu não sabia onde era minha turma. Nada.
A partir daí, foi só tortura.
O que eu estava esperando?
Não consegui encontrar minha sala, mas estava tudo bem. Naquele momento, tudo que me importava era que eu estava fora daquele lugar. Usando bons sapatos, boas roupas, cabelo bem penteado. Karmélia se esforçara para me deixar apresentável o suficiente para tomar seu lugar.
Esperei o alarme tocar e finalmente deixei aquele banheiro onde me escondera. Pensei bastante, relaxei como nunca. Quando saí, imaginei que alguém viria me buscar.
Tola. Teria que caminhar até em casa, mesmo sendo longe.
Mas isso não era ruim. Ninguém saberia se eu cortasse caminho.
Percebi que, por um momento, esquecera Kaleu. Depois daquele encontro fatídico, pensava em como ele estaria. Não deveria tê-lo provocado daquela forma; ele bem que poderia ter me acertado de verdade.
Andei por mais de vinte minutos até finalmente chegar à minha rota de fuga.
Antes mesmo que pudesse avistar a casa daquele maldito, corri entre as árvores, desaparecendo na floresta antes que percebessem para onde eu estava indo.