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Capítulo 5 5: NÃO VAI A LUGAR ALGUM

CAPÍTULO

Karmélia estava ali, parada na penumbra do porão, os braços cruzados e o olhar fixo em Miliane.

- Você... - Miliane recuou, amedrontada.

- Não tenha medo de mim. Eu nunca te fiz mal. - Karmélia deu um passo à frente. - Eu te vi sair duas vezes e não contei ao meu pai. Mas... para o meu bem, não posso permitir que você fuja de novo.

Aproximou-se mais, e Miliane pôde ver detalhes que antes passaram despercebidos: Karmélia tinha dezesseis anos, beleza clássica, cabelos castanhos com reflexos dourados, lábios rosados e delicados. Mas seus olhos... seus olhos tinham uma frieza calculista.

- Você sabe por que está presa aqui desde que tinha oito anos?

Miliane balançou a cabeça negativamente.

Karmélia sorriu com gentileza, mas a intenção em seu olhar era gélida.

- Você vai me salvar. Como um sacrifício. - Ela inclinou a cabeça. - Pensei muito sobre isso e quero me aproximar de você. Posso trazer coisas gostosas, lavar seu cabelo, cuidar de você de agora em diante. Contanto que não fuja. O que acha?

Miliane não respondeu.

- Tudo bem. Amanhã eu te provarei. - Karmélia ergueu uma sacola que carregava. - Hoje trouxe coisas novas para você experimentar. Vai começar a conhecer outras comidas.

Miliane olhou para a sacola com desconfiança. Comida significava remédios. Significava perder as pernas, perder a voz, perder o controle sobre o próprio corpo.

Karmélia ficou no porão durante todo o período do almoço. Não gostava do lugar, muito menos de Miliane, mas não conseguia evitar um certo desconforto ao ver a menina tão magra, tão machucada, tão quebrada.

Miliane, por sua vez, não se importava com a presença dela. Só pensava numa coisa: no dia seguinte, fugiria.

O plano era simples. Esperar Karmélia ir embora. Aguardar o silêncio da madrugada. Deslizar pela janelinha.

Foi o que fez.

Arrastou-se pelo chão, sentindo a terra fria sob os pés machucados. Seu coração batia descompassado. Dessa vez, não voltaria. Mesmo que Kaleu não cumprisse a palavra, mesmo que ninguém viesse buscá-la, ela não voltaria para aquele porão nunca mais.

Mas nem tudo sai como planejado.

Assim que se ergueu do lado de fora, deparou-se com sapatos lustrosos tão polidos que refletiam seu próprio rosto.

Ergueu o olhar lentamente.

A mão de Vando agarrou seus cabelos com violência, arrancando um grito abafado de sua garganta.

- Sua maldita! Por que sempre dá trabalho?

Ele a arrastou de volta para dentro como quem arrasta um saco de trapos. Ela queria pedir para parar, queria gritar, queria implorar - mas a voz não saía. Apenas sons roucos e inúteis escapavam de sua garganta.

A punição foi cruel.

A janela do porão foi selada com tábuas dos dois lados. Nem a luz do sol entrava mais. E depois, veio a agressão.

Miliane perdeu a noção do tempo debaixo do chuveiro frio, enquanto Vando a golpeava. As marcas vermelhas floresciam em seus braços, pernas, costas. Ela revivia a cena repetidamente, encolhida na cama, o corpo inteiro dolorido, a esperança morrendo aos poucos.

- Precisava mesmo colocá-la debaixo do chuveiro e agredi-la daquele jeito? - Karmélia perguntou aos pais, mais tarde, com a voz trêmula.

- Ela não vai mais fugir agora. - Vando respondeu com frieza. Depois, virou-se para a filha, os olhos perigosos. - Você sabia que ela estava fugindo? Por que não me contou?

Karmélia recuou, pálida.

- Pai... Desculpa.

- Então não deixe que ela fuja de novo. - Ele avançou, e ela juntou as mãos, abaixando a cabeça em submissão. - Você não faz ideia do pesadelo que é estar nas mãos de homens que não têm consideração por você. É assim que esses homens são. Quando chegar o momento, eles virão te buscar, e eu entregarei essa menina em seu lugar.

Karmélia engoliu o choro.

- Mas... se ela não estiver bem cuidada, como vão acreditar que é sua filha?

Vando pensou por um momento.

- Tem razão. Mas ainda é cedo. Temos cinco anos pela frente. Ela só precisa estar viva.

Depois que o pai saiu, Karmélia subiu ao quarto, pegou cobertores novos e roupas limpas, e desceu ao porão.

Encontrou Miliane deitada, encolhida, usando apenas roupas íntimas. As marcas da agressão estavam expostas, roxas e vermelhas, como um mapa do sofrimento.

- Que raios! - Karmélia murmurou, cobrindo-a com os lençóis limpos. - Pensei que tínhamos um acordo. Achou mesmo que ele não descobriria? Devia ter me ouvido. Agora nós duas estamos com problemas.

Ajeitou as cobertas sobre o corpo magro de Miliane, os movimentos contraditórios - ao mesmo tempo ríspidos e cuidadosos.

- Eu não queria o seu mal. Nem que você passasse por isso. Mas alguém precisa assumir as consequências, não é? - A voz de Karmélia falhou por um instante. - Eu também não escolhi isso. Mas, se pensar bem, ele é só um pai tentando salvar a filha. E você é parte do plano para isso acontecer.

Ela se levantou, ajeitou as próprias roupas e respirou fundo.

- Vou cumprir minha promessa. Estarei aqui todos os dias.

Saiu sem olhar para trás.

TRÊS ANOS DEPOIS

Miliane tinha dezesseis anos agora.

Três anos se passaram desde sua última tentativa de fuga. Três anos de visitas diárias de Karmélia, que trouxe livros, cadernos, lápis. Que ensinou matemática, português, história. Que, dia após dia, contrariando suas próprias expectativas, criou um vínculo estranho com a prisioneira.

Numa manhã, Vando, Tonia e Karmélia estavam reunidos na cozinha. O ar estava denso, carregado de ansiedade.

- Teremos que libertá-la do porão - Vando anunciou. - Ela será tratada como nossa filha agora. Verão, ela, não Karmélia, saindo de casa todos os dias.

- Já posso ir para a faculdade - Karmélia completou. - Estudei em casa nos últimos anos, fiz o Enem escondida, passei. Ninguém desconfiará se eu sumir durante o dia. E Miliane...

Ela hesitou.

- Eu ensinei tudo a ela nesses três anos. Tudo que aprendi na escola, repassei. Ela tem livros, materiais. Não vai ser uma menina primitiva quando a entregarem. Eles sabem que eu não sou assim. Agora precisamos cuidar da aparência dela.

Vando observou a filha com uma expressão que Karmélia não conseguiu decifrar.

- Você fez tudo isso sem me contar?

- Fiz. - Ela ergueu o queixo. - Para o nosso bem.

Um silêncio pesado pairou sobre a mesa.

- Está bem - Vando concordou, finalmente. - Preparem a menina. Daqui a dois anos, ela será entregue em seu lugar.

Karmélia assentiu, o coração dividido entre o alívio e uma culpa que se recusava a desaparecer.

Desceu ao porão pela última vez como carcereira. Dali em diante, seria professora, irmã postiça, algo que nunca imaginara ser.

Miliane estava sentada no canto, lendo um dos livros que Karmélia trouxera. Quando viu a moça entrar, ergueu os olhos interrogativos.

Karmélia sentou-se ao seu lado.

- Tenho uma novidade - disse, a voz mais suave do que planejara. - Você vai sair daqui. Vai conhecer o sol de novo.

Miliane não sorriu. Apenas esperou, porque aprendera, nos longos anos de cativeiro, que toda promessa podia ser uma mentira.

Mas algo nos olhos de Karmélia - algo que parecia quase arrependimento - fez seu coração bater mais rápido.

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